Curtailment freia expansão da Petrobras em eólicas e solares e redireciona investimentos para consumo próprio

Excesso de energia renovável no SIN e risco de perdas leva estatal a reduzir em US$ 2 bilhões o plano para geração limpa, enquanto reforça foco em gás, moléculas e projetos térmicos

A Petrobras revisou de forma significativa suas metas de expansão em geração renovável para o período 2026–2030, apontando o avanço do curtailment no Sistema Interligado Nacional (SIN) como o principal motivo para reduzir investimentos em eólicas e solares. O tema foi abordado pela presidente da companhia, Magda Chambriard, durante entrevista coletiva realizada na sexta-feira (28), um dia após a divulgação do novo Plano Estratégico (PE) da estatal.

Com a revisão, o investimento previsto para projetos renováveis foi reduzido em US$ 2 bilhões, afetando diretamente a meta de capacidade instalada a ser adicionada em fontes eólicas e solares. A expectativa inicial de atingir 4,7 GW caiu para 1,7 GW, uma redução de 63,8%.

A decisão marca uma inflexão relevante na estratégia da Petrobras, que vinha desde 2023 avançando na análise e estruturação de projetos renováveis no Brasil e no exterior, principalmente em parceria com desenvolvedores privados.

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Curtailment crescente pressiona viabilidade de novos projetos

Ao comentar a revisão do portfólio, Magda Chambriard destacou que o excesso de oferta de energia renovável tem contribuído para elevar os níveis de curtailment, cortes compulsórios de geração, afetando diretamente a atratividade de novos empreendimentos.

Segundo a executiva, o cenário atual impede que projetos solares e eólicos destinados ao mercado livre ou regulado apresentem retorno adequado. Ela foi enfática ao explicar a lógica de priorizar projetos para uso próprio.

“Só faz sentido ter solar se o offtaker formos nós mesmos. A solar se viabiliza se for dentro do nosso sistema, nas refinarias. Esse curtailment está dizendo o seguinte: está sobrando 9% de energia entre solar e eólica e isso gera instabilidade no sistema. Curtailment é, na verdade, perda de energia. Botar essa energia na rede para jogar fora não faz sentido”, afirmou a presidente.

A fala evidencia a preocupação da estatal com o ambiente de operação no setor elétrico, em especial em regiões onde a expansão das renováveis ultrapassa a capacidade de escoamento da transmissão, gerando cortes de produção que impactam receitas e margens dos geradores.

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Capex em gás e energia de baixo carbono também é ajustado

A área de Gás Natural e Energia de Baixo Carbono, comandada pela diretora Angélica Laureano, também teve sua projeção de investimentos revisada. O capex do período 2026–2030 caiu de US$ 11 bilhões, previstos no plano anterior, para US$ 9 bilhões.

Laureano detalhou que a priorização estratégica pelo foco na “molécula”, principalmente biocombustíveis e gás natural, levou ao redimensionamento do portfólio eólico e solar.

“Como priorizamos a questão da molécula, o investimento em geração eólica é que foi reduzido. Hoje, com excesso de energia no mercado, haja vista a questão do curtailment, isso fica limitado”, disse a diretora.

Ela também destacou que projetos renováveis que permanecem no planejamento tendem a avançar apenas no final do ciclo do Plano Estratégico, preservando espaço para iniciativas mais alinhadas à estratégia de moléculas e transição energética.

Renováveis focadas no consumo próprio avançam; primeira usina será concluída em 2026

Apesar da redução de investimentos na geração para venda ao mercado, a Petrobras mantém um programa para instalação de usinas solares destinadas ao consumo interno, principalmente em refinarias. Laureano destacou que esse braço da estratégia segue inalterado.

A estatal espera concluir, já em 2026, o primeiro projeto fotovoltaico da companhia voltado para autoconsumo, localizado na Regap, em Betim (MG). O portfólio total previsto soma 55,5 MW, incluindo unidades na Replan (São Paulo), Rnest (Pernambuco) e no Complexo Boaventura (Rio de Janeiro).

A estratégia reduz a exposição ao curtailment e melhora a competitividade operacional das refinarias, especialmente em um contexto de eletrificação crescente dos processos industriais.

Térmicas ganham força no LRCAP; Petrobras terá 3,3 GW na disputa

A executiva também comentou a preparação da estatal para o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) previsto para março de 2026. Laureano classificou o certame como “muito importante” e detalhou os ativos da Petrobras que poderão participar.

Segundo ela, a companhia terá 2,9 GW de termelétricas existentes habilitadas para competir, além de um projeto novo de 400 MW, também no Complexo Boaventura.

A participação no LRCAP reforça o papel estratégico das térmicas para segurança energética, especialmente diante da volatilidade das renováveis e das limitações estruturais de transmissão.

Revisão tarifária do transporte de gás pode afetar competitividade das térmicas

Outro ponto monitorado pela Petrobras é o processo de revisão tarifária do transporte de gás natural conduzido pela ANP. O tema é sensível para a viabilidade econômica das térmicas que participarão do LRCAP.

Laureano afirmou que a companhia acompanha a discussão no âmbito da Agência, mas não detalhou posições específicas.

Nos bastidores, interlocutores do setor indicam que a Petrobras defende a criação de uma tarifa binômia, com parcela fixa e variável, específica para usinas termelétricas. Diretores da ANP, entretanto, já sinalizaram publicamente que não há tempo hábil para desenvolver o modelo e que, caso seja criado, não poderia se restringir ao segmento térmico.

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