Por Eric Fernando Boeck Daza
Belém recebeu a COP30 com tudo ao mesmo tempo: calor extremo, temporais tropicais, incêndio na área de negociações, manifestações indígenas e 70 mil pessoas nas ruas. Dentro do centro de convenções, depois de madrugadas de plenária, saiu o chamado Pacote de Belém: um “mutirão global” para triplicar o financiamento de adaptação até 2035, um mecanismo de transição justa, nova arquitetura de indicadores e maior reconhecimento dos povos indígenas.
Mesmo assim, ficou um diagnóstico incômodo: foi um avanço importante para manter o multilateralismo vivo, mas insuficiente diante da ciência e da realidade dos impactos. Não houve roteiro para sair dos combustíveis fósseis, as metas de financiamento são vagas sobre quem paga e a distância entre promessas e necessidades continua abissal.
É nesse contraste que aparece a batalha silenciosa de Belém: a disputa sobre clima, dívida e justiça na próxima década.
O que mudou de fato em Belém
Três avanços positivos ajudam a entender o lado cheio do copo.
Adaptação saiu da sombra. A decisão do “global mutirão” convoca os países a triplicar o financiamento de adaptação até 2035 e isso em um mundo em que enchentes, secas e ondas de calor já são rotina, ver adaptação no centro do texto político não é detalhe.
Transição justa, povos indígenas e florestas entraram no texto – e no desenho financeiro. O Pacote de Belém criou um Mecanismo de Transição Justa sob a Convenção e reforçou, na decisão, o papel de povos indígenas e comunidades tradicionais como guardiões de soluções climáticas.
Nesse contexto, o Brasil lançou o Tropical Forests Forever Facility (TFFF), um mecanismo que visa formar um fundo de US$ 125 bilhões para remunerar países tropicais que mantêm suas florestas em pé, combinando cerca de US$ 25 bilhões em aportes soberanos e US$ 100 bilhões em capital de mercado. Que durante a COP já havia chegado a um valor de quase US$ 7 bilhões de dólares.
Não é ainda o salto estrutural que a crise requer. Mas, em comparação com COPs anteriores, adaptação, transição justa e florestas deixaram de ser “rodapés” e passaram a ocupar o centro da mesa.
O que ficou devendo: fósseis, escala e arquitetura financeira
Do lado vazio do copo, três pontos são difíceis de ignorar.
Fósseis seguem como o “elefante na sala”. O texto final não traz um roteiro de eliminação gradual de petróleo, gás e carvão. A referência ao compromisso de “transição away from fossil fuels”, aprovado em Dubai, aparece de forma indireta, sem metas ou prazos mais fortes. Em ano de recordes de temperatura, isso deixa o acordo desalinhado com trajetórias de 1,5 °C.
O gap da adaptação continua insuperável. Apesar dos avanços, ainda há um hiato entre necessidade e realidade. Países em desenvolvimento precisarão de US$ 310 a US$ 365 bilhões por ano em 2035 em financiamento para adaptação, enquanto os fluxos públicos internacionais de adaptação foram de apenas US$ 26 bilhões, ou seja, mesmo se os novos valores forem alcançados, ainda existirá um GAP enorme entre a necessidade atual dos países.
A arquitetura financeira segue em aberto. O Baku–Belém Roadmap propõe escalar o financiamento climático a “pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035. Mas o acordo não define qual fração dessa cifra virá em doações e qual virá em empréstimos concessórios e especialmente quem de fato proverá o valor.
Em muitos países, o espaço fiscal para investir em clima já está comprimido. Sem coordenar volume a forma do dinheiro, “trilhões” podem significar apenas mais dívida cara para o Sul Global.
Clima, dívida e justiça: a equação que Belém deixou em aberto
Juntas, essas peças desenham o verdadeiro dilema da próxima década: não se trata apenas de quanto financiamento climático será mobilizado, mas de quem assume o risco, quem colhe o benefício e quem fica com a fatura. Se a maior parte dos recursos continuar chegando como empréstimo, quem paga são contribuintes e consumidores de países em desenvolvimento, via tarifas, impostos e cortes em políticas sociais. Belém não resolveu essa equação, mas escancarou o tripé que vai decidir o sucesso ou fracasso das metas climáticas: crise climática, crise de dívida e persistência da desigualdade.
E o Brasil, nisso tudo?
Para o Brasil, anfitrião da COP da Amazônia, o desafio agora é menos discursivo e mais estratégico.
De um lado, o país sai de Belém associado a três frentes em que tem credibilidade: adaptação, transição justa e florestas – com o Pacote de Belém, o novo mecanismo e o TFFF. Isso reforça uma imagem de liderança que conecta clima a desenvolvimento, emprego e proteção territorial, em vez de tratar o tema como um nicho tecnocrático.
De outro, essa posição só se traduz em poder real se o Brasil assumir um papel claro na disputa sobre como o dinheiro flui. Isso significa articular, com outros países em desenvolvimento, uma agenda clara sobre financiamento e objetivos climáticos realmente ambiciosos.
O terceiro elemento está em casa: projetos concretos. O Brasil pode chegar às próximas COPs com carteiras prontas de mitigação, adaptação e florestas, com custos, cronogramas e benefícios socioeconômicos claros. Se o país conseguir transformar esses planos em uma vitrine de projetos financiáveis, a conversa muda de tom: deixa de ser um pedido abstrato por “mais recursos” para virar uma negociação de fato sobre termos, riscos e contrapartidas.
No fim, a mensagem de Belém é menos sobre o texto aprovado e mais sobre o que cada país fará com ele. A COP30 não resolveu o clima nem redesenhou o sistema financeiro, mas colocou adaptação, transição justa e florestas no centro do tabuleiro. Agora, ou o Brasil transforma esse “mutirão” em plano concreto – com projetos, prazos e escolhas difíceis à vista – ou Belém será lembrada só como a COP que passou pela Amazônia.



