Curtailment, disputa por ativos, juros longos e transição tributária criam ambiente desafiador para concessões, PPPs e projetos de energia e mineração no próximo ciclo
O Brasil deve entrar em 2026 com um dos pipelines mais robustos de infraestrutura dos últimos anos, com novos projetos em energia, saneamento, logística, rodovias e mineração. Entretanto, sob a superfície de otimismo, especialistas alertam para um ambiente marcado por riscos regulatórios, assimetrias de informação e volatilidade macroeconômica que podem pressionar valuations, adiar decisões de investimento e aumentar a seletividade dos players.
Essa é a leitura de Bruno Werneck, sócio do Tauil & Chequer Advogados, associado a Mayer Brown, referência em contratos e estruturação jurídica de grandes projetos. Em análise detalhada, o especialista aponta que o país vive “um momento singular”, oportunidades inéditas convivem com desafios que exigem precisão técnica, governança e capacidade de coordenação regulatória.
Energia: curtailment, subsídios e incertezas regulatórias aumentam pressão sobre o setor
Ao avaliar o setor elétrico, Werneck destaca um problema que considera estrutural: o avanço acelerado do curtailment, fenômeno que levou ao desligamento de usinas renováveis por excesso de geração ou restrições de rede. A situação se agrava com o crescimento intenso da geração distribuída (GD), que pressiona a conta de subsídios e os custos sistêmicos.
O especialista explicou que esse desequilíbrio é uma conjunção de fatores que inclui o crescimento exagerado da Geração Distribuída (GD) e a alta nos custos setoriais: “Temos toda a questão do curtailment (corte de geração) – agravada pelo crescimento exagerado da GD (geração distribuída) – somada às contas de subsídios e custos em alta.”
Ele observa que a MP 1.304, aprovada com vetos, tentou reorganizar parte dessas pressões, mas sem atacar a origem do problema. Segundo Werneck, a ausência de previsibilidade sobre o futuro dos subsídios e a indefinição sobre o ritmo de modernização da regulação reduzem a segurança jurídica necessária para precificar ativos de longo prazo.
Mineração em alta: disputa global por minerais estratégicos deve acelerar investimentos
Werneck também aponta que 2026 deve ser marcado pelo avanço da mineração, impulsionada pela corrida internacional por minerais essenciais, incluindo lítio, níquel, cobre e outros insumos críticos para baterias e tecnologias associadas à transição energética.
O especialista observa que: “A produção cresce com a economia global. Ouro, por exemplo, tem batido recorde histórico de preços, o que estimula projetos.”
Segundo ele, o Brasil tem vantagens geológicas e logísticas que podem atrair players globais em busca de diversificação de suprimentos.
Rodovias, saneamento e ferrovias: ciclo de concessões será amplo, mas mais competitivo
Werneck projeta um 2026 com forte agenda de concessões e PPPs, especialmente em rodovias. Contudo, alerta que o aumento do número de ativos ofertados tende a elevar a seletividade das empresas, reduzindo a disputa por projeto em alguns casos. O saneamento deve manter protagonismo, com destaque para a possível privatização da Copasa e novos processos relevantes nos estados.
No setor ferroviário, Werneck enxerga avanços decisivos: “Espero também ver algum avanço em ferrovias de cargas: a EF118 pode ser licitada, e aposto na Ferrogrão também em 2026, que pode trazer enorme impacto para o agronegócio e a logística.”
No setor social, PPPs de iluminação pública, saúde e educação devem ganhar escala, impulsionadas pela crise fiscal e pela necessidade crescente de investimentos.
Portos e aeroportos: maturidade reduz concessões e fortalece M&A
A avaliação do especialista é de que o setor portuário e aeroportuário deve entrar em fase de maturação, com menos concessões e mais movimentos de reorganização de portfólios.
Para 2026, ele destaca como emblemática a repactuação e a venda da participação da Infraero no Galeão, que deve servir de referência para novos processos no país.
Resíduos sólidos e energia limpa: setor ganha relevância com biogás, biometano e WTE
A melhoria de compliance e a expansão de tecnologias de valorização energética colocam o setor de resíduos sólidos entre os que mais devem crescer. Segundo Werneck, projetos bem estruturados, incluindo transporte, destinação final, biogás, biometano e waste-to-energy (WTE), tendem a atrair investidores especializados.
Reforma tributária: risco de reequilíbrio contratual e impacto sobre capital estrangeiro
O primeiro ano da transição tributária pode trazer impactos relevantes em contratos de infraestrutura. Werneck alerta: “Se os poderes concedentes implantarem os reequilíbrios rápido, o impacto tende a ser próximo de zero. O risco é atraso: começa-se a pagar o tributo novo agora e o reequilíbrio só vem depois.”
Ele destaca que a tributação de dividendos pode reduzir a atratividade do Brasil em cerca de 10% para investidores estrangeiros, especialmente nos setores de energia e mineração.
Ambiente macroeconômico é o maior risco para 2026
Juros longos elevados, volatilidade cambial e possível queda no investimento privado formam o tripé de maior preocupação para o próximo ciclo.
“Quando falo juros, não é a taxa Selic em si que me refiro, mas os juros longos do Tesouro Nacional, que movem uma parte grande do investimento”, reforça o especialista
Ainda assim, instrumentos como debêntures incentivadas, CRIs, CRAs e financiamentos do BNDES devem seguir como pilares para viabilização de projetos.
Energia ociosa, data centers e novos modelos de uso
Ao avaliar a expansão de data centers, Werneck vê espaço para crescimento doméstico, mas não para que o Brasil se torne um hub global. Ele destaca, porém, uma oportunidade emergente.
“Curiosamente, o quadro de curtailment em renováveis gera energia ociosa em certos horários que poderia abastecer data centers, ou mesmo mineração de Bitcoin.”
A combinação de alta geração renovável e demanda flexível abre espaço para novos modelos de suprimento híbrido.
Judicialização segue como gargalo, mas concessões e PPPs devem avançar
Werneck afirma que o Brasil não é um país que “quebra contratos”, mas sim um país que os resolve devagar, com arbitragem ainda insuficiente para acelerar disputas. Mesmo assim, a crise fiscal deve ampliar a disposição dos governos em conceder projetos à iniciativa privada:
“Se a crise fiscal persistir, não haverá mudança de direção. Ao contrário, as PPPs e as concessões tendem a se consolidar como única saída”, concluiu.



