Após a MP 1.318/2025 (REDATA), novos projetos de data centers dão salto de 32% e impulsionam expansão urgente da infraestrutura elétrica para atender às cargas de hiperescala
A corrida global por capacidade de computação, impulsionada pela inteligência artificial, pela digitalização da economia e pela adoção massiva de serviços em nuvem, está transformando o setor elétrico brasileiro em ritmo acelerado. Desde a publicação da MP 1.318/2025, que instituiu o programa REDATA e reduziu a carga tributária na importação de equipamentos de TI, o país registrou um salto sem precedentes na demanda por conexão de novos data centers à Rede Básica.
Em pouco mais de 60 dias desde a criação do programa, o volume de projetos com pedido de estudo de mínimo custo global protocolado no Ministério de Minas e Energia (MME) avançou de 19,8 GW para 26,2 GW, um incremento de 6,4 GW, equivalente à potência instalada de múltiplas usinas de grande porte. O movimento reforça o caráter estratégico desse segmento de carga eletrointensiva, que passa a ser tratado como prioridade no planejamento elétrico, devido à sua relevância para a competitividade digital e para a atração de investimentos de alto valor agregado.
REDATA atrai onda de novos investimentos e reposiciona o Brasil no mapa global de infraestrutura digital
Publicada em 17 de setembro de 2025, a Medida Provisória 1.318/2025 (REDATA) tem como principal objetivo tornar o processamento de dados no Brasil mais competitivo, reduzindo custos de importação de GPUs, switches, racks e outros equipamentos essenciais para data centers.
A política funciona como gatilho de novos projetos de hiperescala, já que os custos logísticos, tributários e energéticos são determinantes para a viabilidade operacional desses empreendimentos. O aumento de 32% na potência demandada em novos projetos protocolados evidencia a capacidade do REDATA de acelerar decisões de investimento, especialmente de big techs, provedores de nuvem e operadores de IA generativa.
Contudo, apesar do crescimento, a materialização dos projetos depende de condicionantes críticos, como infraestrutura de transmissão, telecomunicações, garantias de conexão e análise técnico-econômica. O desafio central é garantir que a rede elétrica acompanhe o ritmo da transição digital.
São Paulo concentra demanda e impulsiona R$ 1,6 bilhão em reforços recomendados pela EPE
O estado de São Paulo permanece como principal polo de projetos, especialmente nas regiões metropolitanas da capital e de Campinas. Para atender essa expansão, a EPE incluiu na Programação de Estudos 2025 uma série de análises de reforços estruturais da transmissão.
Parte desses estudos já foi concluída, resultando na recomendação de cerca de R$ 1,6 bilhão em novos investimentos, destravando aproximadamente 4 GW de margem adicional para conexão, tanto na distribuição quanto diretamente na Rede Básica. Esses aportes devem viabilizar o escoamento de potência necessária aos grandes centros digitais e permitir a conexão de novos data centers com maior previsibilidade e segurança elétrica.
Outros estudos permanecem em andamento, e a expectativa é que novas obras integrem os leilões de transmissão de 2026, criando mais 5 GW em capacidade de conexão em todo o estado.
Rio de Janeiro prepara estudo específico para inserção de 4 GW em grandes cargas
A relevância estratégica do Rio de Janeiro para data centers, especialmente pela proximidade com cabos submarinos internacionais e centros de telecomunicações, levou a EPE a programar, para 2026, um estudo dedicado à conexão de grandes cargas no estado.
A análise irá avaliar:
- capacidade remanescente das principais subestações,
- limites de curto-circuito,
- corredores de transmissão prioritários,
- alternativas de reforço para viabilizar até 4 GW em novos projetos.
O objetivo é garantir atendimento seguro e eficiente, respeitando critérios de confiabilidade do SIN e evitando gargalos que possam limitar a entrada de empreendimentos de hiperescala.
Rio Grande do Sul e Nordeste entram no radar com até 9 GW em novas cargas
O avanço da economia digital também chega a outras regiões. No Rio Grande do Sul, está em andamento o Estudo Prospectivo para Inserção de Cargas de Data Centers, alinhado a um projeto que demanda até 5 GW em capacidade.
Já o Nordeste, região em rápido crescimento no setor de TI, beneficiada por projetos de telecomunicações e oferta de energia renovável, passa por estudo que deve ampliar a capacidade de conexão de grandes cargas em mais 4 GW, beneficiando estados como Bahia, Pernambuco e Ceará.
Tecnologias inovadoras tornam-se essenciais para liberar capacidade no curto prazo
Um dos destaques dos estudos da EPE é a incorporação de soluções tecnológicas avançadas capazes de expandir a capacidade da rede sem depender exclusivamente de grandes obras de transmissão. Entre elas:
- DLR (Dynamic Line Rating): aumenta a capacidade de linhas conforme condições ambientais reais;
- FACTS (SSSC e outros equipamentos de eletrônica de potência): possibilitam controle dinâmico de fluxos;
- Baterias (BESS): utilizadas para alívio de picos e suporte a estabilidade local;
- Recondutoramento com cabos HTLS: permite elevar limites térmicos de linhas existentes.
Essas tecnologias ganham relevância à medida que a demanda por conexão cresce em velocidade superior ao ritmo tradicional de expansão da transmissão, oferecendo alternativas de curto e médio prazo para viabilizar a entrada de grandes cargas digitais.



