Com risco de déficit de mais de 4 TW em capacidade renovável, países aceleram compromissos, mas avanço depende de financiamento internacional e maior alinhamento político
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém, marca um momento decisivo para a governança energética global. À medida que os países apresentam suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) 3.0, uma mensagem torna-se clara: o mundo ainda está distante de cumprir a meta acordada no Consenso dos Emirados Árabes Unidos, que determina triplicar a capacidade instalada de energias renováveis até 2030 e manter a trajetória de 1,5°C ao alcance.
Um novo levantamento da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) sobre as metas renováveis inseridas nas NDCs demonstra avanços significativos, mas insuficientes. Atualmente, 185 das 195 Partes já mencionam energia renovável em seus compromissos, porém a soma das metas projetadas até 2030 chega a apenas 6,9 TW, quando seriam necessários 11,2 TW para cumprir o objetivo global. A lacuna de mais de 4,3 TW evidencia a urgência de ações mais concretas e investimentos em larga escala, sobretudo nos países em desenvolvimento.
O avanço das NDCs 3.0 e o papel das grandes economias
O ritmo de atualização das NDCs 3.0 também chama atenção: até 5 de novembro de 2024, apenas 72 Partes haviam submetido a nova rodada de compromissos, embora representem dois terços das emissões globais e 77% da capacidade renovável existente.
Esses países, que juntos somam 3,4 TW de capacidade renovável em 2024, aumentaram de forma expressiva o nível de ambição. O conjunto das NDCs 3.0 inclui compromissos de instalar quase 2 TW adicionais de renováveis até 2030, bem acima dos 820 GW previstos nas NDCs 2.0.
Entre os destaques, China e União Europeia respondem por quase 90% da expansão adicional declarada nas NDCs 3.0. As duas economias desempenham papel central para determinar não apenas o ritmo de expansão das energias renováveis, mas também o custo e a disponibilidade das tecnologias que sustentam a transição energética global.
Financiamento climático é gargalo para PMDs e PEIDs
A distância entre ambição climática e capacidade real de execução permanece maior entre os países mais vulneráveis. Uma análise específica das NDCs dos Países Menos Desenvolvidos (PMDs) revela que mais da metade da meta de 58 GW até 2030 depende diretamente de apoio financeiro internacional. Para alcançá-la, essas nações precisam de pelo menos US$ 61 bilhões, parte dos US$ 112 bilhões necessários, provenientes de fontes externas.
Da mesma forma, os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (PEID) projetam 4,1 GW adicionais até 2030, mas 68% desse total também é condicionado a financiamento internacional.
A dependência quase estrutural desses países reafirma um ponto recorrente nas negociações climáticas: a transição energética só será justa e inclusiva se houver fluxo financeiro adequado para regiões que historicamente recebem menos investimentos, mas enfrentam maior vulnerabilidade climática.
África Subsaariana: epicentro da urgência energética
A situação é particularmente crítica na África Subsaariana. A região concentra 33 dos PMDs e quase 600 milhões de pessoas sem acesso à eletricidade. Apesar do enorme potencial renovável, as condições macroeconômicas e o risco percebido afastam investidores, criando um ciclo que limita o desenvolvimento energético e aprofunda desigualdades.
O release destaca que, sem novos mecanismos de financiamento concessional, que ofereçam melhores condições e não agravem o endividamento já elevado, a expansão renovável corre risco de aprofundar disparidades regionais e comprometer a promessa de uma transição global equilibrada.
Pressão sobre países desenvolvidos aumenta com metas de financiamento
A COP30 ocorre sob forte expectativa de que as economias avançadas cumpram compromissos financeiros assumidos nas últimas conferências. Os países desenvolvidos prometeram triplicar o apoio financeiro anual aos países em desenvolvimento, chegando a US$ 300 bilhões por ano até 2035, uma meta considerada desafiadora diante do histórico de descumprimentos.
Além disso, o recém-anunciado “Roteiro de Baku a Belém para US$ 1,3 trilhão”, divulgado poucos dias antes da COP30, estabelece um novo parâmetro para mobilização conjunta entre capital público e privado. O objetivo é viabilizar US$ 1,3 trilhão ao ano até 2035 para apoiar ações climáticas em países em desenvolvimento, incluindo expansão renovável, adaptação e mecanismos de perda e dano.
Nesse contexto, as NDCs 3.0 tornam-se não apenas compromissos ambientais, mas também instrumentos de planejamento econômico e geopolítico, marcando a relação futura entre países financiadores e receptores.
A reta final rumo a 2030
Com menos de cinco anos até o prazo final das metas, a lacuna entre compromissos e implementação é motivo de alerta. O mundo já avaliou cenários, projetou rotas e estabeleceu metas ambiciosas, porém a capacidade instalada cresce em ritmo insuficiente, e fatores como instabilidade financeira, entraves regulatórios e disputas geopolíticas dificultam a trajetória ideal.
Ainda assim, a rápida evolução das NDCs 3.0 demonstra que há espaço para ampliar ambição e acelerar investimentos. O desafio agora é transformar compromissos em ação concreta, garantindo que a corrida para triplicar as energias renováveis até 2030 seja inclusiva, financiável e alinhada com a realidade de cada região.



