Com investimento de R$ 10 milhões, o projeto CABRA avalia o potencial das formações basálticas da Bacia do Paraná para armazenar CO₂ de usinas de etanol, em uma parceria inédita entre a Equinor e o RCGI/USP
A Equinor, multinacional norueguesa de energia, e o Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram o lançamento do projeto CABRA (CArbon Storage in BRAzilian Basalts), uma iniciativa de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) voltada ao armazenamento geológico de carbono no Brasil.
O anúncio ocorreu nesta quarta-feira (5/11), durante o Summit Agenda SP + Verde, evento do Governo do Estado de São Paulo que integrou a programação da 8ª edição da Energy Transition Research & Innovation Conference (ETRI). O projeto prevê investimentos de R$ 10 milhões e busca avaliar o potencial das formações basálticas da Bacia Sedimentar do Paraná como reservatórios naturais para o armazenamento permanente de CO₂ capturado de usinas de bioetanol na Região Sudeste.
A iniciativa reforça o avanço da captura e armazenamento de carbono (CCS, na sigla em inglês) como uma das soluções mais promissoras na agenda global de descarbonização do setor energético, e posiciona o Brasil como laboratório natural para novas tecnologias de mitigação de emissões.
Basaltos brasileiros: um novo caminho para a descarbonização
As formações basálticas, rochas ígneas formadas a partir do resfriamento do magma, possuem propriedades químicas que lhes permitem reagir rapidamente com o CO₂ injetado, transformando-o em minerais sólidos e garantindo armazenamento permanente.
O projeto CABRA irá realizar caracterizações geológicas detalhadas, além de estudos de engenharia voltados à execução de um possível projeto piloto. Entre os aspectos técnicos em análise estão a capacidade de injetividade, o volume potencial de armazenamento e o tempo de mineralização do CO₂.
Esses estudos serão fundamentais para avaliar a viabilidade comercial e ambiental do armazenamento de carbono em rochas basálticas, um campo ainda pouco explorado no Brasil, mas com potencial significativo para transformar a pegada de carbono da indústria de biocombustíveis.
Sinergia entre academia e indústria
Para Andrea Achôa, gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Equinor Brasil, o projeto representa um marco no avanço das tecnologias de baixo carbono no país.
“Poder contar com a experiência de uma instituição de excelência como a USP para desenvolvermos um projeto como o CABRA nos enche de orgulho. A Equinor é uma das empresas líderes em captura e armazenamento de carbono internacionalmente e esse é um primeiro passo para avaliarmos as possibilidades de projetos como esse no Brasil. A iniciativa faz parte da ambição da Equinor em contribuir para um futuro de baixo carbono, agregado ao desenvolvimento da sociedade, essa parceria é um exemplo concreto disto”, afirmou Achôa.
A parceria também reflete o papel estratégico do RCGI-USP no desenvolvimento científico e tecnológico voltado à transição energética. O centro é referência nacional em estudos sobre gases de efeito estufa e conta com dezenas de projetos em andamento relacionados a tecnologias de captura, uso e armazenamento de carbono (CCUS).
Segundo Julio Meneghini, diretor científico do RCGI, o projeto consolida o papel da academia como agente ativo na construção de soluções climáticas concretas.
“O projeto CABRA reforça o compromisso do RCGI em desenvolver soluções científicas que contribuam para a descarbonização da matriz energética brasileira. Trata-se de uma iniciativa que alia excelência acadêmica à experiência de uma empresa global de energia, com potencial de gerar conhecimento e tecnologias de alto impacto para o país”, destacou Meneghini.
Bioetanol com carbono negativo: o potencial brasileiro
O Brasil é o maior produtor mundial de etanol a partir da cana-de-açúcar, e a bioenergia já responde por uma parcela relevante da matriz renovável nacional. No entanto, mesmo sendo mais limpa que os combustíveis fósseis, a produção de etanol ainda emite CO₂ nas etapas de processamento.
A integração das usinas com tecnologias de captura e armazenamento geológico de carbono (CCS) pode inverter esse balanço, transformando o etanol brasileiro em um combustível com emissões líquidas negativas, ou seja, que remove CO₂ da atmosfera em vez de adicioná-lo.
Essa abordagem abre caminho para o conceito de BECCS (Bioenergy with Carbon Capture and Storage), considerado pela Agência Internacional de Energia (IEA) como essencial para atingir as metas do Acordo de Paris e limitar o aquecimento global a 1,5°C.
Experiência global aplicada ao contexto brasileiro
A Equinor traz para o Brasil sua experiência internacional de quase 30 anos em projetos de armazenamento de CO₂ offshore na Noruega, onde opera o campo Sleipner, um dos primeiros e mais bem-sucedidos projetos de CCS do mundo.
No país, a empresa vem ampliando seu portfólio de inovação, com R$ 740 milhões já comprometidos em projetos de P&D e cerca de 40 iniciativas ativas, abrangendo tecnologias de petróleo, energias renováveis e soluções de baixo carbono.
À frente da equipe científica do CABRA está o professor Colombo Celso Gaeta Tassinari, do Instituto de Energia e Ambiente (IEE-USP), reconhecido especialista em geociências e pioneiro nos estudos sobre o potencial dos basaltos brasileiros para o armazenamento de CO₂.
A expectativa é que os resultados do projeto ofereçam subsídios técnicos e regulatórios para o desenvolvimento de uma cadeia de valor nacional em CCS, conectando universidades, indústria e governo.



