Excesso de energia solar e eólica pressiona sistema elétrico e pode causar prejuízos bilionários, alerta especialista da FEI

Com geração recorde e gargalos na transmissão, ONS adota cortes diários para evitar colapso da rede; perdas podem ultrapassar R$ 3,2 bilhões em 2025

O avanço da geração de energia solar e eólica, motores da transição energética no Brasil, está impondo um novo tipo de desafio ao setor elétrico. O país, que em 2025 superou 46 GW de potência instalada em fontes renováveis variáveis, vive um cenário em que há energia limpa demais para ser transmitida e consumida. O resultado é o aumento dos cortes de geração (conhecidos como curtailment), que já se tornaram uma prática diária no Nordeste e vêm gerando perdas bilionárias ao setor.

Segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), em períodos de baixa demanda, como feriados e fins de semana, o volume de energia renovável produzido supera a capacidade de escoamento da rede de transmissão. Durante o feriado do Dia dos Pais, por exemplo, quase 40% da energia gerada no país veio de sistemas fotovoltaicos, exigindo manobras emergenciais para preservar a estabilidade da rede.

Em agosto de 2025, o ONS precisou reduzir 36% da geração solar e 21% da eólica, segundo levantamento da ABEEólica e da CNN Brasil, o que representa um impacto financeiro de cerca de R$ 3,2 bilhões para o setor neste ano.

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“O sistema precisa respirar”: equilíbrio entre geração e consumo

Para Michele Rodrigues, professora do curso de Engenharia Elétrica da FEI, os cortes são uma medida técnica necessária, mas que evidenciam a falta de planejamento e flexibilidade da infraestrutura nacional.

“O curtailment é uma medida necessária para preservar a segurança e a confiabilidade do sistema elétrico. A geração e o consumo precisam estar sempre equilibrados. Quando há excesso de oferta, o sistema pode ficar sobrecarregado e até colapsar”, explica a especialista.

Michele destaca que o problema é agravado pela velocidade de expansão da geração distribuída, sistemas fotovoltaicos instalados em residências, comércios e indústrias, que injetam energia diretamente nas redes locais. Embora essa descentralização seja um marco positivo na transição energética, ela também cria novos pontos de pressão sobre as distribuidoras.

“O ONS não tem controle direto sobre a energia gerada por telhados solares e pequenos sistemas de GD. Isso torna o gerenciamento da rede mais complexo e aumenta o risco de sobrecarga em determinados horários do dia”, alerta.

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O desafio regulatório e a necessidade de modernização

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) está elaborando um Plano de Gestão de Excedentes na Rede de Distribuição, previsto para ser entregue até o final de outubro. O documento deve propor medidas emergenciais para lidar com a sobreoferta, incluindo o desligamento temporário de usinas em momentos de pico de geração.

Especialistas do setor afirmam que o cenário atual é resultado de um descompasso entre o ritmo da expansão da geração renovável e o avanço da infraestrutura de transmissão. Em alguns casos, novas usinas solares e eólicas aguardam meses para serem conectadas ao Sistema Interligado Nacional (SIN), mesmo já prontas para operar.

Outro ponto de atenção é o modelo de precificação. Tarifas estáticas, que não refletem o comportamento dinâmico da oferta e da demanda, acabam desincentivando o consumo em horários de sobra energética. A adoção de tarifas dinâmicas e mercados de flexibilidade, já comuns em países da Europa, poderia estimular consumidores a deslocar parte do consumo para períodos de maior geração solar, equilibrando o sistema.

Armazenamento: o elo que falta para a transição energética

Entre as soluções mais discutidas no setor está o armazenamento de energia em larga escala, seja por meio de baterias de íon-lítio, usinas reversíveis de bombeamento ou até sistemas híbridos que integrem renováveis com hidrogênio verde. Essa tecnologia permitiria absorver a geração excedente durante o dia e devolvê-la à rede nos períodos de pico de consumo, reduzindo os cortes e a necessidade de acionar termelétricas.

“O Brasil vive um paradoxo energético: em alguns momentos, precisa desligar usinas solares e eólicas porque há energia demais; em outros, acionar termelétricas caras e poluentes para compensar a falta de geração solar à noite. O desafio é tornar o sistema mais inteligente e eficiente”, conclui Michele Rodrigues.

Caminho para um sistema elétrico mais inteligente

A crise do excesso de energia renovável expõe a urgência de uma modernização estrutural no sistema elétrico brasileiro. Especialistas defendem que o país avance na digitalização da rede, na automação da operação e em políticas que incentivem o armazenamento e a resposta da demanda.

Sem esses avanços, o Brasil corre o risco de transformar um sucesso, a expansão das fontes limpas, em um gargalo operacional e financeiro. A transição energética, afinal, não é apenas uma questão de gerar energia verde, mas de fazer essa energia circular de forma eficiente, segura e sustentável.

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