Brasil figura entre os países com maior potencial de expansão industrial verde, segundo ITA e Mission Possible Partnership; novos investimentos podem ultrapassar US$ 2 trilhões em escala global até o fim da década
O avanço da descarbonização industrial acaba de ganhar um novo marco. O Acelerador da Transição Industrial (ITA) e a Mission Possible Partnership (MPP) divulgaram, nesta segunda-feira (4), o mais recente Rastreador Global de Projetos de Indústria Limpa, que revela 1.001 projetos em escala comercial em desenvolvimento em todo o mundo, o maior número já registrado.
O levantamento mostra um crescimento expressivo de investimentos em setores intensivos em energia, como alumínio, cimento, produtos químicos, combustíveis para aviação e navegação, e aço. Cerca de US$ 2 trilhões em potencial de investimento estão em jogo, com 70 novos projetos, avaliados em US$ 140 bilhões, prontos para sair do papel nos próximos meses.
“Levou quase uma década para chegarmos a este ponto. Com um número recorde de plantas operacionais e em construção, a indústria limpa já não é uma visão de futuro, é uma oportunidade de crescimento que podemos acelerar hoje”, afirmou Faustine Delasalle, CEO da Mission Possible Partnership e diretora executiva do ITA.
Brasil se consolida como protagonista no cinturão solar industrial
O estudo identifica um novo eixo de competitividade global chamado de “cinturão solar industrial”, composto por países com abundância de energia renovável, entre eles Brasil, Índia, Austrália, África e Sudeste Asiático.
O Brasil aparece entre os líderes desse novo bloco, com projetos de destaque nas áreas de biocombustíveis, hidrogênio verde e eletrificação de processos industriais.
A Acelen Renováveis, por exemplo, está construindo o primeiro projeto de biocombustível em larga escala “da semente ao combustível”, utilizando a macaúba como matéria-prima para produzir combustível sustentável de aviação (SAF). A iniciativa utiliza áreas já degradadas e cria novas oportunidades econômicas para comunidades locais.
Outro destaque é a Hydro Alunorte, maior refinaria de alumina do mundo fora da China, que avança em um plano de eletrificação e integração de biomassa para reduzir emissões e fortalecer sua competitividade no mercado internacional.
China assume liderança global em projetos financiados
A China consolidou-se como o país mais avançado na implementação de projetos de indústria limpa. O relatório mostra que 12 novas plantas alcançaram a decisão final de investimento (FID) apenas em 2025, totalizando 54 empreendimentos com financiamento confirmado.
A liderança chinesa é resultado de uma política industrial agressiva, combinando subsídios, metas de descarbonização e uma rápida expansão da geração renovável. Grande parte dos projetos se concentra em amônia verde, metanol e combustíveis de aviação limpos, setores que ganham impulso com novas metas da Organização Marítima Internacional (IMO), que estabeleceu o uso mínimo de 5% de combustíveis limpos até 2030.
Um exemplo emblemático é o China Hongqiao Group, que iniciou a operação da primeira linha de alumínio alimentada por 4 GW de energia solar, com capacidade equivalente à produção total da América do Norte. Outro é o Green Hydrogen Park, da Envision Energy, que abriga a primeira planta comercial de amônia verde do mundo.
Setores químicos e de cimento avançam na descarbonização
Além da expansão em combustíveis limpos, o relatório evidencia avanços em setores tradicionalmente de alta emissão. No cimento, novas tecnologias, como o uso de argila calcinada, já reduzem emissões em até 70% com menor custo em comparação a métodos convencionais.
Empresas europeias e norte-africanas, como Ecocem, Vicat e CBI, relatam uma forte demanda por soluções de baixo carbono na construção civil, o que deve acelerar a adoção dessas tecnologias também em mercados emergentes como o brasileiro.
No setor químico, os investimentos em metanol e amônia verdes estão reduzindo o custo do hidrogênio limpo, o que pode viabilizar a produção de fertilizantes sustentáveis, com impacto direto na segurança alimentar e energética de países como Índia e Brasil.
O papel das políticas públicas e do investimento coordenado
Embora o avanço tecnológico e a disponibilidade de recursos sejam evidentes, o ITA e a MPP alertam que a velocidade da transição depende de políticas públicas robustas do lado da demanda.
Governos que criam sinais previsíveis de mercado, como metas de conteúdo limpo, compras públicas sustentáveis e incentivos fiscais, tendem a atrair mais rapidamente investimentos industriais de grande porte.
“Governos e investidores têm uma oportunidade única de transformar planos em plantas industriais. Aqueles que demonstrarem visão estratégica e compromisso inabalável com a transição limpa estarão na linha de frente da nova economia global”, reforçou Faustine Delasalle.
A União Europeia é citada como exemplo, com potencial para reindustrializar setores tradicionais e destravar mais de €100 bilhões em investimentos se ampliar políticas de incentivo à demanda por materiais e combustíveis limpos.
Brasil: oportunidade estratégica no mapa global da descarbonização
Para o Brasil, a combinação de matriz elétrica majoritariamente renovável, abundância de recursos naturais e liderança em biocombustíveis o posiciona como um dos principais polos de atração de capital verde.
Projetos como os de hidrogênio verde, amônia renovável e combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) reforçam o papel do país como fornecedor estratégico para a nova economia de baixo carbono.
A adesão brasileira a iniciativas como o ITA e a MPP fortalece o diálogo internacional e pode impulsionar parcerias público-privadas voltadas à transição industrial, com impacto direto sobre empregos, inovação e exportações limpas.



