ONU aponta início da queda nas emissões globais, mas alerta: ritmo ainda é insuficiente para conter o aquecimento

Novo relatório das Nações Unidas mostra que o mundo começa a achatar a curva das emissões e amplia o escopo das metas climáticas, mas a ausência de grandes emissores e a falta de financiamento limitam o progresso

Às vésperas da COP30, que será realizada em Belém (PA), o mais recente relatório da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) traz sinais de avanço e um alerta contundente: o mundo está começando a reduzir o ritmo de crescimento das emissões de gases de efeito estufa, mas ainda longe de atingir a velocidade necessária para manter o aquecimento global dentro dos limites definidos pelo Acordo de Paris.

Segundo o documento divulgado nesta terça-feira (28), as novas metas climáticas nacionais (NDCs), que definem o compromisso de cada país para reduzir emissões e se adaptar à crise climática, estão mais abrangentes e integradas do que nunca. Elas agora cobrem praticamente todos os setores da economia global, incorporando temas sociais e ambientais transversais, como gênero, juventude, transição justa e proteção dos oceanos.

Metas mais amplas e inclusivas: uma nova geração de NDCs

De acordo com o relatório, 89% dos países já possuem metas que englobam toda a economia, enquanto 73% incluem planos de adaptação e 70% tratam explicitamente da transição justa. Questões de igualdade de gênero aparecem em 89% das NDCs, 88% mencionam crianças e jovens, e 78% referem-se aos oceanos, um aumento de 39% em relação ao ciclo anterior.

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O levantamento analisou 64 novas ou atualizadas NDCs, apresentadas entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, representando cerca de 30% das emissões globais. A ONU projeta que, se plenamente implementadas, essas metas poderão reduzir as emissões globais em 10% até 2035, o que indica que a humanidade está, pela primeira vez, curvando a trajetória de emissões para baixo.

Apesar disso, o relatório alerta que o esforço ainda é insuficiente para limitar o aquecimento a 1,5°C. “As Partes estão achatando sua curva combinada de emissões, mas ainda não com rapidez suficiente”, destaca o documento.

Brasil e COP30 no centro do debate climático global

A publicação do relatório às portas da COP30, que será sediada em Belém, reforça o papel estratégico do Brasil na diplomacia climática global. O país será o anfitrião de negociações cruciais sobre financiamento, adaptação e transição energética, áreas que emergem como gargalos para que as NDCs saiam do papel.

No contexto político internacional, a ausência de novas metas de grandes emissores como China, Índia e União Europeia reduziu o alcance da análise e evidencia a necessidade de maior comprometimento global.

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“Um relatório com apenas um terço dos dados não permite avaliar corretamente o que vai acontecer, mas nos diz muito sobre o grau de comprometimento dos países com o maior desafio que a humanidade enfrenta”, afirmou Stela Herschmann, especialista em Política Climática do Observatório do Clima.

Chamado à ambição e à justiça climática

Para organizações da sociedade civil, os avanços apresentados não escondem o descompasso entre ambição e implementação. “A COP30 deve responder de forma efetiva para ampliar a ambição e a justiça climática, acelerando o fim dos combustíveis fósseis e do desmatamento, e ampliando a adaptação e o apoio financeiro aos países mais vulnerabilizados”, destacou Anna Cárcamo, especialista em Política Climática do Greenpeace Brasil.

A análise é compartilhada por Bruno Toledo Hashimoto, analista de Diplomacia Climática do ClimaInfo, que reforça o caráter urgente da transição. “De novo, a mensagem principal é de urgência: precisamos aumentar a ambição, ampliar esforços e engajamento, e intensificar o ritmo da transição para longe dos combustíveis fósseis”.

Financiamento climático é chave para implementação

Um dos pontos centrais do relatório é a dependência das metas de mitigação e adaptação em relação ao financiamento internacional. As novas NDCs estimam um custo total de quase US$ 2 trilhões para serem implementadas, incluindo US$ 1,3 trilhão em mitigação e US$ 560 bilhões em adaptação.

O relatório alerta que a execução efetiva das metas depende de cooperação internacional robusta e novas formas de mobilizar capital em larga escala. “A implementação das novas NDCs exige uma cooperação internacional forte e contínua e abordagens inovadoras para liberar financiamento em escala para países em desenvolvimento”, destaca o texto da ONU.

A UNFCCC prevê que, se as metas forem integralmente cumpridas, as emissões combinadas dos países analisados atingirão o pico antes de 2030 e, em seguida, entrarão em declínio acentuado, o que colocaria o mundo no caminho para neutralidade de carbono entre 2040 e 2060.

ONU e especialistas alertam: o progresso existe, mas ainda é lento

O secretário executivo da UNFCCC, Simon Stiell, reconheceu que o relatório representa um avanço histórico, mas reiterou a urgência de ampliar o ritmo da transição global. “Pela primeira vez, a humanidade está claramente curvando para baixo a trajetória das emissões, embora ainda não com a velocidade necessária. Estamos ainda na corrida, mas para garantir um planeta habitável para os oito bilhões de pessoas de hoje, precisamos acelerar urgentemente — na COP30 e em todos os anos seguintes”.

Na mesma linha, Laurence Tubiana, CEO da European Climate Foundation e uma das arquitetas do Acordo de Paris, destacou que a própria economia real vem liderando o processo de transformação. “Mesmo quando certos governos resistem ao progresso ou ficam para trás, cidadãos e empresas continuam a empurrar a economia real rumo a um futuro sustentável e mais verde”.

Desafio para a COP30: transformar promessas em ação

O relatório da ONU deixa clara uma mensagem central: a curva das emissões começou a ceder, mas o tempo para limitar o aquecimento global está se esgotando. O desafio, agora, é converter compromissos em ação concreta, com planos setoriais claros, financiamento disponível e engajamento político real.

Com a COP30 prestes a começar, o mundo volta os olhos para o Brasil e sua capacidade de articular consensos em torno da transição energética justa, da inclusão social e do financiamento climático, pilares essenciais para que a redução das emissões seja global, rápida e sustentável.

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