Empresas americanas aceleram a instalação de painéis solares, turbinas e baterias para garantir créditos fiscais antes que as restrições do governo Trump entrem em vigor. Analistas preveem recorde de novas usinas até 2027
Nos Estados Unidos, o setor de energia renovável vive um paradoxo: mesmo diante de uma administração hostil ao tema, o mercado se prepara para atingir níveis recordes de expansão. Isso ocorre porque empresas estão correndo para instalar painéis solares, turbinas eólicas e sistemas de baterias enquanto ainda podem se beneficiar dos créditos fiscais federai, incentivos que, sob o governo Donald Trump, estão com os dias contados.
A política de reversão de subsídios à energia limpa, implementada pela Casa Branca e apoiada por parte do Congresso, tem como objetivo reduzir o apoio financeiro a fontes renováveis e favorecer projetos de combustíveis fósseis. No entanto, o efeito imediato foi justamente o contrário: uma verdadeira corrida para antecipar investimentos e garantir o enquadramento em benefícios tributários antes que eles expirem.
De acordo com a BloombergNEF, consultoria especializada no setor, o volume de novos projetos previstos para os próximos dois anos cresceu mais de 10%, refletindo a pressa das empresas em consolidar seus planos.
“Há uma enorme pressa”, afirma Thomas Byrne, CEO da CleanCapital, desenvolvedora e operadora de projetos solares e de armazenamento com sede em Nova York.
Empresas antecipam compras milionárias e obras aceleradas
Para manter a elegibilidade aos créditos fiscais, os projetos eólicos e solares precisam estar em construção até julho de 2026. Essa exigência fez com que empresas passassem a encomendar equipamentos, como transformadores, painéis e inversores, muito antes do planejamento normal.
Na prática, fazer esses pedidos demonstra ao IRS (Serviço de Receita Federal dos EUA) que o projeto está em andamento, o que garante o acesso aos benefícios. Esse movimento favorece empresas maiores, com capacidade financeira para antecipar grandes volumes de compras e assumir riscos.
“Para garantir que seus projetos ainda se qualificariam para créditos, a CleanCapital comprou neste verão cerca de US$ 25 milhões em painéis solares de que ainda não precisa”, relata o texto. A companhia planeja armazenar os equipamentos em um galpão alugado em San Bernardino, Califórnia, ao custo de US$ 145 mil por mês.
O resultado é uma movimentação intensa na cadeia de suprimentos e um efeito dominó em aquisições de projetos menores, que acabam sendo comprados por players com maior liquidez.
“Essa pressa é real”, afirmou Jennifer Granholm, então secretária de Energia do ex-presidente Joe Biden, durante evento em Nova York. “Vocês verão um aumento nos próximos dois anos, e depois uma diminuição, a menos que algo mude.”
Setor mostra força e adaptação
Apesar da postura adversa da nova administração, o avanço da energia limpa nos Estados Unidos demonstra um setor resiliente, impulsionado não apenas por incentivos fiscais, mas por uma demanda crescente e inadiável por novas fontes de geração.
A energia solar e os sistemas de armazenamento, por exemplo, são instalados em prazos muito menores do que usinas a gás natural ou nucleares, além de se tornarem cada vez mais competitivos em custo. Segundo a Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA), 93% da nova capacidade de geração em 2025 virá de fontes renováveis e baterias.
“Nunca vimos esse tipo de demanda, nunca”, disse Sandhya Ganapathy, CEO da EDP Renewables North America, acrescentando que o plano de expansão da empresa segue praticamente inalterado, mesmo após o Congresso reverter os créditos fiscais.
O impacto da política de Trump no longo prazo
Contudo, o otimismo tem data de validade. As ações da administração Trump para restringir licenças federais de projetos eólicos e solares já começam a gerar incertezas. O próprio presidente declarou que seu governo não aprovará licenças para “energia eólica ou solar que destrói fazendas”, travando parte do pipeline de projetos em fase de licenciamento.
A Agência Internacional de Energia (IEA), sediada em Paris, revisou para baixo suas projeções, quase reduzindo pela metade a expectativa de expansão renovável dos EUA até 2030. Os efeitos mais severos devem ser sentidos a partir de 2028, quando o impacto regulatório será pleno.
A energia eólica offshore, em especial, é uma das mais afetadas. “Esta é a sentença de morte da energia eólica offshore”, avalia David Giroux, diretor de investimentos da T. Rowe Price Investment Management. “Sempre que você aumenta a incerteza em torno do retorno final de um investimento, o investidor exige compensação maior — ou simplesmente evita o risco.”
Consequência inevitável: energia mais cara
A interrupção dos incentivos e a lentidão nas novas autorizações poderão ter reflexos diretos no bolso do consumidor americano. Com menos projetos em andamento, a oferta de energia tende a se reduzir, pressionando preços.
“Não haverá tanta oferta quanto o esperado”, alerta Thomas Byrne, da CleanCapital. “Necessariamente, os preços vão subir.”
O cenário mostra que, embora o mercado esteja em plena ebulição no curto prazo, o futuro da transição energética americana dependerá de decisões políticas e fiscais que ultrapassam o ciclo imediato. O país pode viver, simultaneamente, um auge e um esvaziamento do setor renovável — resultado de políticas contraditórias que ora estimulam, ora travam a descarbonização da matriz.
Fonte: Adaptado de The New York Times Company



