Com investimentos em armazenamento, controle de fluxo e modernização de ativos, transmissora quer transformar desafios da transição energética em novas oportunidades de negócios
A ISA Energia está expandindo seu papel no setor elétrico brasileiro ao buscar novas oportunidades em serviços tecnológicos voltados à transição energética. A empresa, que já opera uma das maiores redes de transmissão do país, pretende integrar soluções digitais e de armazenamento à sua infraestrutura, elevando a eficiência e a confiabilidade do sistema.
O movimento faz parte do plano estratégico de crescimento da companhia, que também inclui a ampliação das receitas com novas concessões e a modernização dos equipamentos existentes em suas linhas e subestações. A estratégia foi detalhada por executivos da transmissora em apresentação a investidores e analistas nesta quarta-feira (8).
Da transmissão à inteligência da rede
A ISA Energia, controlada pelo grupo colombiano ISA, tem se destacado pela adoção pioneira de tecnologias que antecipam os desafios da nova matriz elétrica brasileira. Em 2023, a empresa implementou o primeiro sistema de baterias em larga escala no país, com 30 MW de potência, localizado no litoral sul de São Paulo. A solução atua como suporte à rede elétrica nos horários de pico, aliviando sobrecargas e aumentando a estabilidade operacional.
Agora, a companhia se prepara para finalizar um projeto inovador em Ribeirão Preto (SP), que utiliza tecnologia FACTS (Flexible AC Transmission Systems) para controlar o fluxo de potência e evitar sobrecargas em linhas de transmissão. O investimento, de R$ 90 milhões, foi aprovado pela Aneel e tem como objetivo otimizar o uso da infraestrutura existente, reduzindo a necessidade de obras convencionais.
“O projeto é rentável, é interessante, é um serviço nessa busca de soluções para o mundo mais complexo que estamos”, explicou Rui Chammas, CEO da ISA Energia.
A declaração reflete o foco da empresa em transformar tecnologia em vantagem competitiva, ao mesmo tempo em que colabora para a estabilidade do sistema elétrico.
Desafios da transição energética e o papel das baterias
Com o avanço das fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) enfrenta um cenário mais desafiador. A geração solar distribuída, por exemplo, vem crescendo rapidamente, mas sua falta de controle centralizado pode provocar oscilações e distúrbios na rede em períodos de baixo consumo.
De acordo com Chammas, a ISA Energia está comprometida em buscar soluções que enderecem esses desafios de forma prática e eficiente. “Continuaremos buscando oportunidades de resolver problemas reais do setor elétrico brasileiro”, destacou o executivo.
Para ele, o armazenamento por baterias é uma das ferramentas mais promissoras para lidar com essas novas condições de operação. A empresa pretende participar ativamente do leilão de armazenamento previsto para 2026, reforçando seu pioneirismo no tema. “O Brasil vai ter que investir em alguma solução para resolver a rampa de potência (que surge quando acaba a geração solar)… Não vejo nada entrando tão rápido para ajudar quanto as baterias”, afirmou Chammas.
Segundo ele, a cadeia de fornecimento global já tem capacidade para atender à demanda, enquanto os custos tendem a cair com o avanço de novas tecnologias. Essa tendência reforça o potencial do armazenamento como um pilar essencial para a transição energética no Brasil.
Modernização da rede e crescimento sustentável
Além de inovar em tecnologia, a ISA Energia mantém o foco em fortalecer seus negócios tradicionais de transmissão. A empresa planeja investir cerca de R$ 1,5 bilhão por ano nos próximos cinco anos em modernização e aumento de capacidade de suas linhas — sobretudo nas concessões do Estado de São Paulo, que representam a principal base de ativos da companhia.
Com R$ 32 bilhões em ativos, sendo R$ 17,7 bilhões totalmente depreciados e R$ 7,5 bilhões parcialmente depreciados, a transmissora enxerga um grande potencial de rentabilização por meio de substituição e atualização de equipamentos.
“Em uma visão puramente financista, temos oportunidade de fazer esse investimento para aumentar a rentabilidade da companhia… Não vamos fazer todo esse investimento, muito menos de modo imediato. Mas é uma oportunidade que se dá no momento em que o Estado tem crescimento de demanda ligado à mobilidade elétrica, data centers e crescimento econômico”, observou Chammas.
Investimentos estratégicos e disciplina financeira
A ISA Energia também mantém R$ 7,3 bilhões em aportes programados para concluir cinco projetos de transmissão em construção, com previsão de entrada em operação até 2029. Apesar da agenda robusta de investimentos, a empresa reforça que adotará critérios rigorosos de seleção em novos leilões.
“Não temos meta ou obrigação de participar”, afirmou a diretora financeira Silvia Wada, destacando que o foco é crescer com sustentabilidade financeira, evitando aumento excessivo de endividamento.
Inovação, eficiência e visão de longo prazo
Com uma estratégia que combina modernização da infraestrutura, inovação tecnológica e disciplina de capital, a ISA Energia busca consolidar sua posição como referência na operação eficiente e resiliente do sistema elétrico brasileiro.
As apostas em baterias, controle de fluxo e digitalização reforçam o papel da transmissora como parceira estratégica da transição energética, em um momento em que o país precisa equilibrar crescimento econômico, segurança do fornecimento e sustentabilidade ambiental.



