Open Energy no Brasil: Regulamentação, Funcionamento e Impactos para o Setor Elétrico

Por Marcelo Figueiredo CEO da Fractal Networks

O setor elétrico brasileiro caminha para uma de suas transformações mais estratégicas: a implementação do Open Energy. Inspirado no Open Finance e no Open Insurance, o
modelo busca garantir ao consumidor a propriedade e o controle de seus dados de consumo energético, permitindo o compartilhamento seguro e padronizado dessas
informações com agentes autorizados.

Após anos de debates e consultas públicas (CP 39/2023 e CP 7/2024), em 2025 a ANEEL aprovou a regulamentação definitiva do Open Energy, com apoio da CCEE e do ONS, estabelecendo prazos claros para a implementação do modelo. Essa decisão representa um marco regulatório e abre caminho para inovação, maior concorrência e novos serviços digitais no setor elétrico.

O que é o Open Energy e como funciona

O Open Energy estrutura-se em duas fases principais:

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  • Fase 1 – Green Button (até dezembro de 2025):
    • Distribuidoras devem oferecer aos consumidores acesso gratuito e padronizado ao seu histórico de consumo por meio de portais e aplicativos.
    • O consumidor pode baixar seus dados em formato interoperável e seguro.
  • Fase 2 – Compartilhamento automatizado via APIs (até dezembro de 2026):
    • Dados poderão ser compartilhados de forma contínua com energy techs, comercializadoras e plataformas de gestão, sempre mediante consentimento.
    • A CCEE atuará como diretório central, assegurando interoperabilidade, segurança cibernética e governança.

Na prática:

  • Consumidores terão seus dados acessíveis em tempo real.
  • Energy techs poderão desenvolver serviços inovadores, como monitoramento, precificação dinâmica, gestão de eficiência e clubes de energia.
  • A regulação garante aderência à LGPD, incluindo mecanismos de consentimento granular e revogação a qualquer momento.

Benefícios esperados

Para o consumidor:

  • Mais opções de contratação no mercado livre.
  • Serviços personalizados (gestão de consumo, eficiência energética, mobilidade elétrica).
  • Transparência sobre tarifas, contratos e ofertas.

Para empresas e energy techs:

  • Novas oportunidades de negócio baseadas em dados.
  • Expansão da competição e estímulo à inovação.
  • Criação de marketplaces de tarifas e soluções inteligentes.

Para o setor elétrico:

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  • Modernização digital das distribuidoras.
  • Redução de assimetrias de informação.
  • Maior eficiência operacional e transparência regulatória.

Panorama internacional

A experiência brasileira foi desenhada a partir de benchmarks internacionais:

  • EUA: Green Button consolidado desde 2012, permitindo integração com apps de eficiência energética e plataformas de gestão.
  • Reino Unido: Open Energy integrado ao Open Banking, permitindo análises conjuntas de consumo energético e financeiro.
  • Austrália: uso intensivo em programas de eficiência energética residencial.
  • Portugal: projetos-piloto em consumidores industriais e integração com estratégias de descarbonização.

Essas experiências mostram que a abertura de dados não é apenas uma política digital, mas também um motor de transformação para novos mercados.

Desafios da implementação no Brasil

Apesar dos avanços, alguns pontos críticos permanecem:

  • Infraestrutura tecnológica: distribuidoras e CCEE precisam assegurar APIs robustas e interoperáveis em escala nacional.
  • Cibersegurança: a MP 1.300/2024 já destacou a necessidade de regras específicas de proteção digital, mas sua implementação exigirá investimentos contínuos.
  • Custos de adequação: permanece o debate sobre quem financiará a adaptação tecnológica (distribuidoras, consumidores ou repasse regulado).
  • Inclusão digital: garantir acesso a consumidores de baixa renda e regiões com baixa conectividade.

Oportunidades e novos mercados

O Open Energy cria as bases para uma nova geração de serviços energéticos:

  • Agregadores e VPPs (Virtual Power Plants): uso de dados para integrar geração distribuída, baterias e flexibilidade de demanda.
  • Clubes e marketplaces de energia: comparadores de tarifas e plataformas digitais de contratação.
  • EaaS (Energy as a Service): modelos sob assinatura para eficiência, mobilidade elétrica e armazenamento.
  • Analytics corporativo: uso de big data para otimização de contratos e estratégias ESG.

Conclusão

A aprovação da regulamentação do Open Energy em 2025 é um marco histórico para o setor elétrico brasileiro. Ao devolver ao consumidor o controle de seus dados, a ANEEL cria um ambiente fértil para inovação, competição e eficiência.

O desafio agora é transformar o arcabouço regulatório em realidade prática, garantindo infraestrutura tecnológica, segurança cibernética e inclusão digital. Se bem implementado, o Open Energy colocará o Brasil na vanguarda da digitalização do setor elétrico, alinhado às melhores práticas globais e com potencial de criar novos mercados energéticos.

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