Eletronuclear e BNDES terão de revisar modelagem econômico-financeira para avaliar viabilidade da obra, que pode custar mais de R$ 23 bilhões ou até ser abandonada
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou, nesta quarta-feira (1º/10), a retomada dos estudos sobre o projeto da Usina Nuclear de Angra 3, localizada em Angra dos Reis (RJ). A medida determina que a Eletronuclear e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) atualizem a modelagem econômico-financeira da obra, que se arrasta há quatro décadas e hoje está paralisada em 65% de execução.
A resolução prevê a análise de três cenários: a conclusão do empreendimento com participação privada, a finalização apenas com recursos públicos ou o abandono definitivo da construção – este último também com elevado custo financeiro para o país.
Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), a decisão “marca um passo importante para a possível retomada das obras da usina, oferecendo transparência e segurança jurídica para decisões sobre investimentos públicos e privados no setor nuclear brasileiro”.
Cenários em análise: conclusão, abandono ou parceria
De acordo com o CNPE, a revisão dos estudos é fundamental para dar clareza ao governo e ao mercado sobre os impactos de cada possível decisão.
O primeiro cenário considera a manutenção do acordo firmado entre Eletrobras e ENBPar (Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional), que previa investimento privado no projeto. O segundo avalia a conclusão da usina apenas com recursos da União, enquanto o terceiro trata da desistência da obra, com pagamento das indenizações e custos envolvidos.
Segundo o BNDES, tanto concluir Angra 3 quanto abandonar o projeto exigirá cifras bilionárias. O custo para finalização é estimado em R$ 23 bilhões, enquanto a desistência pode superar os R$ 20 bilhões.
Um projeto que se arrasta há 40 anos
As obras de Angra 3 tiveram início na década de 1980, mas foram marcadas por sucessivas interrupções. A mais recente paralisação ocorreu em 2015, quando o empreendimento já havia alcançado 65% de execução.
O governo avalia alternativas de financiamento que incluem recursos próprios da Eletronuclear, parcerias público-privadas e até participação de capital estrangeiro. A expectativa oficial é de que, caso seja retomado, o projeto seja concluído até o final da próxima década.
Angra 3: potencial estratégico para a matriz energética
Quando concluída, a usina terá potência instalada de 1.405 megawatts (MW), energia suficiente para abastecer cerca de 4 milhões de brasileiros. O empreendimento é considerado estratégico para a segurança energética nacional e para a diversificação da matriz elétrica, especialmente em momentos de baixa hidrologia.
O Brasil ocupa atualmente a 14ª posição mundial na produção de urânio, combustível essencial para reatores nucleares, e detém a 8ª maior reserva global do mineral. Esse cenário fortalece a defesa de especialistas que enxergam no nuclear uma alternativa de geração firme, complementar às renováveis intermitentes como a solar e a eólica.
Impasses de governança e financiamento
A análise sobre Angra 3 já esteve na pauta do CNPE em dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, mas foi adiada por pedidos de vista de conselheiros. Os principais entraves giram em torno do modelo de financiamento e da governança do projeto, que precisa equilibrar transparência, atratividade para investidores e sustentabilidade fiscal.
Para o MME, a resolução atual representa um avanço, ainda que não defina de imediato o futuro da usina. O objetivo é garantir que a decisão final seja respaldada por dados técnicos, econômicos e jurídicos robustos.
Caminhos possíveis para Angra 3
O governo agora tem diante de si três caminhos distintos:
- Retomar as obras com capital privado e público – modelo que exigiria renegociações contratuais e ajustes de governança;
- Finalizar a usina apenas com recursos públicos – o que poderia ampliar o endividamento estatal;
- Encerrar definitivamente o projeto – solução custosa, mas que eliminaria os riscos de atrasos e sobrecustos futuros.
Independentemente da escolha, Angra 3 continua no centro do debate energético brasileiro, carregando consigo tanto o peso de décadas de indefinições quanto a promessa de se tornar um dos pilares da segurança elétrica do país.



