Leilão de potência de 2026 coloca renováveis e termelétricas em rota de colisão

Associações e grandes geradores defendem que cortes na produção de eólicas e solares não podem gerar perdas bilionárias para o setor. Empresas também pedem espaço para tecnologias de armazenamento no planejamento energético de 2026

O setor de energia renovável intensificou a pressão sobre o governo brasileiro após a divulgação da minuta do leilão de potência previsto para 2026, que inclui a contratação de usinas termelétricas. Associações e empresas como Enel, EDP, Casa dos Ventos, CPFL e Echoenergia alertaram que a medida pode agravar o problema do curtailment, a limitação de geração imposta a parques eólicos e solares pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Segundo as entidades, caso o governo mantenha o desenho atual do certame, é fundamental estabelecer mecanismos de ressarcimento às fontes renováveis. Isso porque os cortes de geração, se intensificados pelas termelétricas, podem ampliar prejuízos que já superam R$ 5 bilhões desde 2023, conforme cálculos da Absolar e da Abeeólica.

Termelétricas em debate

Nas contribuições enviadas à consulta pública, o setor renovável destacou as limitações técnicas das termelétricas para cumprir a função de atender à demanda de ponta do sistema elétrico.

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A Absolar, por exemplo, explicou que, devido ao tempo mínimo de operação, uma usina a carvão ou gás natural pode precisar de até 18 horas ligada para atender a um pico de consumo que dura apenas algumas horas no início da noite.

“Na prática, para garantir potência em um período restrito, essas usinas teriam que ser acionadas ainda no final da manhã. Isso amplia a sobreoferta de energia e obriga o desligamento forçado de parques solares e eólicos, com impacto financeiro direto sobre os geradores”, apontou a entidade.

Diante desse cenário, a associação defende que as perdas provocadas por cortes de geração não devem ser repassadas às renováveis:
“Os cortes não podem ser objeto de rebatimento comercial. Ou seja, não é justo que os geradores eólicos e solares sejam responsabilizados financeiramente por limitações que decorrem de decisões estruturais do setor elétrico.”

Perdas já somam bilhões

O mecanismo de curtailment já impõe custos relevantes às renováveis. Quando impedidas de gerar, as empresas precisam comprar energia no mercado de curto prazo para honrar seus contratos com consumidores e distribuidoras.

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Segundo estimativas de associações do setor, desde meados de 2023 as perdas acumuladas já atingiram R$ 5 bilhões. O temor agora é que o valor cresça ainda mais se a contratação de termelétricas não vier acompanhada de medidas de compensação.

“Estamos diante de uma distorção que ameaça a competitividade e a previsibilidade de investimentos no setor de energias limpas”, afirmou um representante da Enel, ao defender mecanismos de proteção.

Espaço para armazenamento de energia

Além da compensação, parte das empresas pede que o governo dê prioridade a soluções modernas de armazenamento no planejamento energético. CPFL e Echoenergia, do grupo Equatorial, sugeriram que o leilão de 2026 inclua capacidade específica para baterias e sistemas híbridos.

“A contratação deve ser calibrada para que o protagonismo das termelétricas não inviabilize o leilão de armazenamento, fundamental para a segurança e a transição energética”, destacou a CPFL em sua contribuição.

O pleito reforça uma demanda crescente do setor por políticas que privilegiem tecnologias capazes de dar flexibilidade ao sistema, sem agravar a sobreoferta que penaliza as renováveis.

Um impasse estratégico

O embate em torno do leilão de potência de 2026 reflete um dilema central da política energética brasileira: como garantir segurança no atendimento à demanda sem sufocar a expansão das fontes limpas.

De um lado, o governo busca evitar riscos de apagões com o apoio de termelétricas. Do outro, empresas e associações alertam que, sem ajustes regulatórios, a medida pode comprometer a atratividade de investimentos bilionários em energia solar e eólica.

O resultado da consulta pública deve orientar as próximas etapas do certame e sinalizar até que ponto o país está disposto a conciliar a busca por confiabilidade com a necessidade de acelerar a transição energética.

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