Expansão de data centers no Brasil pressiona ONS, exige novas regras da Aneel e mobiliza investimentos bilionários em geração e transmissão de energia
O avanço da inteligência artificial (IA) e a rápida digitalização da economia estão transformando a matriz de consumo energético no Brasil. Se até poucos anos atrás os projetos de data centers giravam em torno de 30 megawatts (MW), hoje já despontam empreendimentos que chegam a 300 MW, um salto que redefine a infraestrutura digital e pressiona a capacidade do sistema elétrico nacional.
São Paulo, maior polo de tecnologia e negócios do país, concentra a maior parte da demanda. Apenas desde 2024, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) recebeu 40 pedidos de acesso para novos data centers. Desses, 30 já foram aprovados, representando uma carga de cerca de 2,5 gigawatts (GW).
Segundo o diretor-geral do ONS, Marcio Rea, a instituição avalia ainda mais quatro solicitações, que podem adicionar outros 200 MW de consumo ao sistema. “Seguimos de portas abertas para um diálogo com o setor e queremos continuar promovendo trocas que fortaleçam nossa atuação conjunta”, destacou Rea, durante o workshop Horizonte Renovável: A era dos Data Centers no Brasil, promovido pela Aneel.
Pressão sobre o sistema e desafios regulatórios
O crescimento acelerado levanta preocupações não apenas de infraestrutura, mas também de regulação. Dos projetos já avaliados pelo ONS, 12 estão ligados diretamente à rede básica, sete a instalações de transmissão e 11 a usinas geradoras. Metade das autorizações se concentra em São Paulo, ampliando a pressão sobre o sistema elétrico regional.
Para lidar com o cenário, o ONS tem articulado soluções com o Ministério de Minas e Energia (MME), a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O objetivo é garantir a segurança operacional diante de cargas variáveis e de grande porte, típicas de centros de processamento de dados e aplicações de IA.
R$ 600 bilhões em investimentos projetados
O aumento da demanda por energia não é um risco apenas — também representa uma oportunidade. De acordo com Thiago Prado, presidente da EPE, o setor elétrico brasileiro deve receber cerca de R$ 600 bilhões em investimentos até 2035. Do total, R$ 470 bilhões devem ser destinados à geração e R$ 130 bilhões à transmissão.
Prado destacou que o Brasil reúne vantagens competitivas relevantes: mais de 92% da matriz elétrica é renovável, com emissões muito inferiores às de países da OCDE, e a velocidade de implantação de infraestrutura de transmissão é quase duas vezes mais rápida que nos EUA e na Europa. “Não se trata apenas de integrar geração variável, mas também uma demanda com oscilações intensas”, afirmou o executivo.
Pipeline robusto e leilões estratégicos
Atualmente, a EPE acompanha 50 projetos de data centers em estudo, que somam cerca de 14 GW. A instituição também analisa a adoção de modelos internacionais, como os “data centers flexíveis”, que permitem reduzir temporariamente a carga de processamento para equilibrar a rede elétrica em momentos críticos.
No campo da transmissão, o leilão de outubro prevê um lote em São Paulo estimado em R$ 850 milhões, voltado para reforçar a rede em municípios como Barueri, Santana do Parnaíba e a capital. Novos investimentos já estão previstos para os leilões de 2026.
O Brasil como hub digital e energético
Além de receber novos empreendimentos, o país pode se beneficiar da transferência de data centers hoje localizados no exterior. A medida liberaria capacidade em outros países para treinar sistemas de inteligência artificial, ao mesmo tempo em que reforçaria a posição do Brasil como hub digital na América Latina.
Esse movimento também fortalece o papel estratégico da matriz renovável brasileira, que pode oferecer energia limpa e competitiva para um setor intensivo em eletricidade. “O país precisa avaliar se essas grandes cargas devem ter tratamento diferenciado, de modo a garantir eficiência na operação e segurança do sistema”, concluiu Prado.
Perspectivas
O avanço da IA e dos data centers no Brasil é irreversível. O desafio está em alinhar regulação, planejamento e investimentos para que a expansão digital caminhe lado a lado com a segurança energética.
Com aproximadamente R$ 600 bilhões mapeados em aportes, o país se prepara para uma década decisiva, na qual a infraestrutura elétrica será a base da economia digital e da transição energética.



