Negociações preveem fornecimento de até 30 milhões de m³/dia ao Brasil a partir de 2030; integração energética fortalece segurança e competitividade no Cone Sul
O Brasil e a Argentina estão próximos de consolidar um acordo histórico para o comércio de gás natural, segundo informou o Ministério de Minas e Energia (MME). O tema foi destaque na Rio Pipeline & Logistics 2025, evento realizado no Rio de Janeiro e organizado pelo Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), que reúne empresas, especialistas e autoridades para debater o futuro da infraestrutura energética.
O protocolo de intenções assinado entre os dois países prevê o fornecimento de gás natural da formação de Vaca Muerta, na Argentina, considerada a segunda maior reserva de gás não convencional do mundo. O acordo estabelece um cronograma de expansão de fornecimento: 2 milhões de m³/dia em curto prazo, podendo atingir 10 milhões de m³/dia em até três anos, e chegando a 30 milhões de m³/dia a partir de 2030.
O diretor de Gás Natural do MME, Marcello Weyght, ressaltou o avanço das negociações e o alinhamento entre os governos e empresas. “De maneira geral, um grande recado é que nunca estivemos tão próximos de fazer essa integração, não só pela questão dos dutos existentes, mas por todo o diálogo e mobilização dos agentes envolvidos”.
Integração energética no Cone Sul
A visão de integração foi reforçada por representantes da indústria argentina. O presidente do Instituto Argentino del Petroleo y del Gas (IAPG), Ernesto López Anadón, destacou a importância de cooperação regional para aproveitar o potencial de Vaca Muerta. “A integração energética ocorrerá quando os atores empresariais se movimentarem, gerando acordos e negócios, com os governos facilitando o processo por meio de regulações apropriadas”.
Para viabilizar o projeto, a demanda brasileira será determinante. O vice-presidente Comercial da Tecnopetrol, Leonardo Macchia, alertou para a necessidade de previsibilidade. “O Brasil precisa estar disposto a assinar contratos de abastecimento de longo prazo para viabilizar os gasodutos”.
O presidente do IBP, Roberto Ardenghy, que mediou o painel, destacou que o gás argentino pode ser decisivo para o mercado nacional. “A Argentina representa hoje uma alternativa muito interessante para o mercado brasileiro de gás”.
Petrobras reforça foco na Margem Equatorial
Além do debate sobre integração energética, a Petrobras apresentou os avanços de sua estratégia de exploração na Margem Equatorial, região que vem sendo comparada à Guiana e ao Suriname pelo potencial geológico.
Segundo Jonilton Pessoa, gerente executivo de Exploração da companhia, a margem brasileira possui similaridades com áreas vizinhas que registraram descobertas significativas, o que reforça o otimismo quanto ao início da perfuração.
A estatal aguarda autorização do Ibama, após realizar a Avaliação Pré-Operacional (APO), um simulado de emergência para validar seu plano de segurança. Vaney Nascimento da Cunha, gerente executivo de Logística de E&P, ressaltou a robustez da estrutura preparada: seis embarcações dedicadas, três helicópteros, centros de defesa ambiental e equipes de prontidão 24 horas por dia.
Inovação e logística em destaque na Rio Pipeline
A Rio Pipeline & Logistics 2025 também trouxe foco em inovação e sustentabilidade. Com crescimento de 43% na área de exposição, mais de 100 empresas apresentaram soluções tecnológicas. Entre os destaques:
- Laserpro Scan (HGS): sistema infravermelho para detecção imediata de vazamentos de gás.
- MAGO (TAG): ferramenta de monitoramento automatizado que amplia a transparência operacional com realidade virtual.
- Drones da Omni Unmanned (Grupo OHI): capazes de substituir helicópteros em inspeções e transporte offshore, reduzindo até 95% das emissões de carbono.
O evento também promoveu discussões sobre diversidade e protagonismo feminino, com a palestra “Mulheres na Operação: Protagonismo Feminino no Midstream”, reunindo executivas da NTS, TAG e Transpetro.
Segurança energética e competitividade regional
O avanço das negociações entre Brasil e Argentina representa uma oportunidade de fortalecer a segurança energética, reduzir custos e aumentar a competitividade da indústria brasileira. Com a transição energética em curso, o gás natural assume papel estratégico como fonte de apoio à expansão das renováveis.
Se confirmada, a parceria com a Argentina poderá diminuir a dependência do Brasil das importações de GNL (gás natural liquefeito), geralmente mais caro e sujeito à volatilidade internacional. Além disso, reforça a integração econômica e energética no Cone Sul, abrindo caminho para novos investimentos em infraestrutura e geração de empregos.
O futuro desse acordo dependerá da capacidade do Brasil de firmar contratos de longo prazo e da Argentina de ampliar seus gasodutos, garantindo viabilidade econômica e previsibilidade.



