Por Eric Fernando Boeck Daza, Especialista em energia e mudanças climáticas
A cada temporada de chuvas fortes, as duras inundações nas periferias urbanas não mostram apenas um vislumbre do que se está a perder com as mudanças climáticas. Para muitos a viver nessas regiões, o impacto não é só com as casas destruídas ou com os bens levados embora, mas sim com a própria sobrevivência. As áreas vulneráveis, condenadas ao abandono pelas políticas públicas, convertem-se no epicentro de um problema de difícil resolução. Ainda mais grave, este não é um problema isolado, é um quadro global cujo epicentro e foco principal se localizam nos mais vulneráveis do Sul Global.
Um recente estudo publicado na prestigiada Nature Cities[1] trouxe dados preocupantes: um em cada três residentes de uma área vulnerável no Sul Global vive num risco de inundação de altas proporções. No Brasil, país marcado pela pobreza e desigualdade social, as implicações desta situação demonstravam a gravidade do desafio. Para estas famílias, as inundações não são apenas um problema ambiental, mas sim uma causa de perdas e luto atroz: nestes lugares, adaptar-se às mudanças climáticas é um luxo que a maioria não pode dar-se. No final da linha, longe da atenção dos media e dos principais debates, são as comunidades as mais vulneráveis em primeiro lugar a estarem na linha de emergência climática.
A definição da ONU sobre essas áreas é particularmente útil para entender a natureza do problema: são áreas urbanas onde os moradores não têm acesso a uma moradia digna; onde falta saneamento adequado, acesso à água potável e; em muitos casos, a segurança de posse. Esses critérios ajudam a entender por que a situação se torna ainda mais crítica quando desastres naturais, como as inundações, atingem essas regiões.
O que vemos nessas áreas é uma realidade difícil: as casas são feitas sem planejamento, muitas vezes em áreas de risco, como encostas de morro e margens de rios. E as chuvas? Sem sistemas de drenagem adequados e infraestrutura básica, as consequências das chuvas são ainda piores. As ruas se transmudam em rios, as casas desabam e as vítimas, invariavelmente, ficam isoladas, sem poder contar com saúde e educação. E o mais trágico: não há para onde ir. As áreas mais financeiramente acessíveis também são as mais vulneráveis, tendo apenas se transformado no local demográfico mais barato de residir. Para a população mais pobre, residir em áreas de risco não é uma escolha, é uma necessidade imposta pela realidade econômica.
No entanto, inexistem políticas públicas ou apoio governamental adequado, o que acentua as diferenças e tornam a adaptação ao clima impossível para quem mais precisa. Ao lado da devastação material há uma interrupção na prestação de serviços públicos essenciais à população. A perda de bens pessoais e familiares é apenas a ponta do iceberg.
O Brasil precisa adotar uma abordagem mais integradora e inclusiva à redução dos impactos que as mudanças climáticas exercem sobre populações vulneráveis. O país deve investir em infraestrutura resistente e em sistemas de moradia segura e, ao mesmo tempo, considerar soluções financeiramente viáveis que permitam que as residências sejam realocadas em áreas seguras, e que essa não seja a última opção. A adaptação não é um luxo, é uma necessidade e um imperativo moral. A adaptação é para todos: ela deve ocorrer como consequência de uma agenda de justiça climática. A adaptação deve ser uma prioridade e a resposta às mudanças climáticas deve ser uma realidade do presente.A ação urgente é não apenas uma necessidade, mas uma obrigação moral para qualquer sociedade que se diga justa e é nosso dever garantir que ninguém seja deixado para trás, pois ao final é disso que deve ser a transição justa.



