Crise orçamentária ameaça a atuação da ANEEL e compromete a regulação do setor elétrico, alerta diretora em audiência na Câmara

Em reunião conjunta com quatro comissões da Câmara dos Deputados, diretora da ANEEL detalha impactos do contingenciamento orçamentário sobre fiscalização, modernização e proteção dos consumidores de energia

A crise orçamentária enfrentada pelas agências reguladoras federais voltou ao centro das atenções no Congresso Nacional. Durante audiência pública realizada nesta terça-feira (5/8) na Câmara dos Deputados, a diretora da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Agnes da Costa, alertou para os riscos que o contingenciamento imposto pelo governo federal representa à capacidade regulatória da agência e à proteção dos consumidores de energia.

A sessão foi convocada de forma conjunta pelas comissões de Desenvolvimento Urbano; Minas e Energia; Saúde; e Viação e Transportes, reunindo representantes de diferentes órgãos reguladores, entre eles ANA, ANAC, ANM, ANP, ANS, Anatel, ANTAQ, ANTT e Anvisa.

“Enfraquecer a regulação é desproteger o cidadão”

Em sua apresentação, Agnes da Costa chamou a atenção para a visão dos próprios consumidores de energia sobre o papel das agências. “Enfraquecer a regulação é desproteger o cidadão”, relembrou, citando o posicionamento do Conselho Nacional de Consumidores de Energia Elétrica.

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A diretora apresentou dados que evidenciam a robustez da capacidade arrecadatória da ANEEL por meio da Taxa de Fiscalização do Setor Elétrico (TSEE), que ultrapassou R$ 11 bilhões em 2024. Apesar disso, ressaltou que os recursos são parcialmente bloqueados pelo governo federal, o que compromete a atuação institucional da Agência.

Orçamento da ANEEL volta a patamares de 2016

O impacto do contingenciamento se traduziu, em junho, na redução do orçamento da ANEEL para 2025, fixado em R$ 117 milhões — o mesmo patamar nominal de 2016. A diretora apontou que, com essa limitação, a agência foi forçada a adotar cortes drásticos, como a demissão de pessoal terceirizado, a paralisação da ouvidoria e a diminuição do número de fiscalizações técnicas previstas para o próximo ano, que devem cair de 710 para 381.

“A atuação da ANEEL está diretamente ligada à segurança regulatória, à confiabilidade do setor elétrico e à qualidade do serviço prestado à população. O enfraquecimento da estrutura da Agência implica riscos crescentes para a governança do setor e para a efetividade das políticas públicas de energia”, afirmou Agnes da Costa.

Regulação de temas estratégicos está ameaçada

Entre as áreas sensíveis que podem ser prejudicadas pela restrição orçamentária estão a regulação de respostas a eventos climáticos extremos, a abertura do mercado livre de energia, os processos de concessão das distribuidoras, o avanço do armazenamento de energia, o licenciamento de data centers e a viabilização do hidrogênio de baixo carbono.

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Também entram na lista iniciativas voltadas à eletromobilidade, ao corte na geração distribuída, à transição energética e à modernização geral do setor elétrico brasileiro. Segundo a diretora, os recursos aprovados na proposta orçamentária da Lei Orçamentária Anual (PLOA) ficaram em R$ 404,4 milhões — bem abaixo dos R$ 533,1 milhões originalmente pleiteados pela ANEEL.

Liberação parcial do bloqueio traz alívio pontual, mas cronograma segue restritivo

O Decreto nº 12.477, de 30 de maio, estabeleceu um corte de R$ 38,62 milhões no orçamento da ANEEL. No início de agosto, houve uma redução parcial desse bloqueio, caindo para R$ 7,9 milhões. A flexibilização foi considerada um avanço importante, permitindo a retomada parcial das atividades essenciais da agência reguladora.

No entanto, a maior parte das liberações está concentrada para o mês de dezembro, o que impõe severas restrições ao planejamento e à execução de ações ao longo do ano. A instabilidade orçamentária compromete o fluxo contínuo de trabalho e a previsibilidade necessária à gestão de um setor estratégico como o elétrico.

Debate avança no Legislativo com participação de outras agências

A audiência pública reuniu representantes de diversas autarquias reguladoras federais, todas afetadas pelo mesmo problema: orçamentos robustos em arrecadação própria, mas limitados por contingenciamentos centralizados. A convergência dos desafios enfrentados reforçou a urgência de uma revisão na sistemática de liberação de recursos para órgãos com atribuições técnicas e fiscalizatórias sensíveis.

A atuação independente e sustentável das agências reguladoras é condição essencial para a segurança jurídica, a atração de investimentos e o fortalecimento da confiança na governança dos setores regulados.

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