Por Eric Fernando Boeck Daza – Especialista em energia e mudanças climáticas
O século XX foi dominado pelo petróleo. O século XXI está sendo moldado por outra força silenciosa, mas igualmente estratégica: os minerais críticos. E entre eles, poucos têm o peso geopolítico das terras raras. São 17 elementos químicos com nomes pouco familiares, como neodímio, disprósio e térbio. Mas eles estão em toda parte: motores de carros elétricos, turbinas eólicas, celulares, computadores, telas de LED, satélites, radares, drones e sistemas avançados de defesa. Sem eles, a transição energética seria inviável. E os sistemas militares modernos, frágeis.
Um carro elétrico pode conter até quilos de elementos com terras raras. Uma turbina eólica offshore chega a consumir quilos ou até mais de uma tonelada. Mísseis guiados, jatos supersônicos e sensores de rastreamento dependem de ímãs permanentes de altíssima performance — e esses ímãs, por sua vez, só existem com terras raras.
É por isso que, desde 2023, a China passou a usar seu domínio sobre esses materiais como arma geopolítica. O país concentra cerca de 70% da produção mundial e mais de 90% da capacidade global de refino. Em meio a tensões comerciais com o Ocidente, Pequim impôs restrições crescentes à exportação de compostos estratégicos. Os efeitos foram imediatos em cadeias industriais sensíveis — dos carros elétricos à indústria de defesa europeia e norte-americana.
Agora, com a nova escalada tarifária promovida por Donald Trump, a disputa ficou ainda mais intensa. Trata-se de um movimento explícito para conter o avanço chinês e reindustrializar a economia americana. Mas há um problema: os EUA não têm como produzir em larga escala em diversos setor estratégicos sem terras raras. E esse é um problema sem solução ainda.
É nesse vazio estratégico que o Brasil ganha destaque.
O país tem a segunda maior reserva do planeta em terras raras, atrás apenas da própria China. Estados como Goiás, Minas Gerais, Bahia e Amazonas concentram jazidas com alto potencial. No entanto, a produção ainda é embrionária: apenas uma planta em operação, com menos de 1% da produção global. Essa assimetria entre potencial e realidade abre uma janela rara — e curta — de oportunidade. O Brasil pode se tornar um pilar do fornecimento global de minerais estratégicos. Mas para isso precisa ir além da mineração.
Exportar minério bruto pode parecer o caminho mais fácil. Mas é também o que gera menos empregos, menos inovação e menos autonomia. Um quilo de concentrado de terras raras pode valer cerca de US$ 10. Já um ímã industrial pronto pode passar de US$ 300/kg. Essa diferença não está no solo, mas na capacidade de refino, separação química e manufatura de alta tecnologia. É nesse ponto que se define se o Brasil será fornecedor ou protagonista.
Mais do que atrair investimentos, o país precisa de uma estratégia nacional para minerais críticos, articulando geologia, ciência, indústria e comércio exterior. Precisamos desenvolver tecnologia própria, fomentar centros de excelência em metalurgia avançada, apoiar o surgimento de indústrias de componentes e garantir critérios sociais e ambientais rigorosos. Isso também significa negociar com inteligência com quem busca nossos recursos — seja o Ocidente ou o Oriente.
E aqui está outro diferencial: o Brasil não precisa escolher um lado. Não precisa se alinhar exclusivamente aos Estados Unidos ou à China. Essa autonomia — construída por sua diversidade geológica, industrial e diplomática — é um trunfo raro no cenário global. E pode ser, também, o diferencial que nos permite negociar melhores condições, proteger nossos interesses e transformar recursos naturais em desenvolvimento duradouro.
As terras raras podem, sim, ser o novo petróleo verde. Mas só terão esse papel se forem tratadas como mais do que um ativo de exportação. Elas podem gerar empregos qualificados, fortalecer a indústria nacional e posicionar o Brasil como protagonista da nova geopolítica energética.
A pergunta, então, não é se temos as reservas. É se teremos a visão estratégica para liderar essa nova era.



