Tecnologia licenciada pela Unicamp à startup Kasco reduz em até 85% o custo por quilômetro inspecionado e substitui vistorias manuais por análise térmica automatizada com inteligência artificial embarcada em veículos
Uma tecnologia de inspeção elétrica baseada em inteligência artificial, desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em parceria com a CPFL Energia, está transformando a forma como redes aéreas de distribuição de energia são monitoradas no Brasil e no exterior. O sistema, que combina câmeras térmicas e ópticas com algoritmos de visão computacional embarcados em veículos comuns, foi licenciado para a spin-off acadêmica Kasco Tecnologia, com atuação no Brasil e no Equador. A solução já proporciona ganho expressivo de eficiência e segurança para as distribuidoras.
Instalado em veículos de inspeção, o sistema Thermovision permite varreduras contínuas a 30 km/h, detectando superaquecimentos e anomalias de forma autônoma, sem a necessidade de operadores expostos nas caçambas — como exige o modelo tradicional. A inteligência artificial é treinada para identificar, classificar e registrar falhas térmicas em tempo real, gerando relatórios automáticos que podem ser enviados à central técnica da distribuidora.
“A CPFL nos procurou por volta de 2018 buscando soluções em inteligência artificial, tema que começava a ganhar força. Propusemos um protótipo que eliminaria a necessidade de um funcionário na carroceria do veículo, modernizando a inspeção”, explica Rangel Arthur, professor da Faculdade de Tecnologia (FT) da Unicamp.
Alta performance em campo e ganho regulatório
O impacto da inovação é mensurável: com o sistema Multi Vision Inspection (MVI), derivado do Thermovision, foi registrada redução de 85% no custo por quilômetro inspecionado e velocidade até quatro vezes maior que o modelo manual.
“Os profissionais, que antes iam na caçamba dos carros, podem ser realocados para outras atividades estratégicas, como identificação de podas necessárias ou análise de postes danificados”, afirma Diogo Gará Caetano, sócio da Kasco e doutor pela Unicamp.
Além da economia operacional, o sistema atende a exigências da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) quanto à confiabilidade e continuidade do serviço. Ao permitir uma detecção precoce de falhas térmicas, as concessionárias podem agir preventivamente, evitando desligamentos não programados e prejuízos à população.
Desafios técnicos e soluções inovadoras
Entre os principais desafios enfrentados pelos pesquisadores estava a estabilização das imagens em movimento e a combinação entre dados ópticos e térmicos com resoluções distintas. O sistema precisou ser calibrado para reconhecer os mesmos componentes em ambas as imagens, mesmo com sensores separados por até 20 centímetros no teto do veículo.
“Tivemos que buscar atributos das imagens térmicas que se relacionassem com os elementos da imagem óptica de tal forma que pudéssemos reconhecer o elemento superaquecido em ambas imagens. Foi preciso treinar a IA para fazer esse match entre as imagens”, explica Yuzo Iano, professor da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp.
Para garantir a precisão, o sistema combina sensores de GPS, estações meteorológicas embarcadas, câmeras térmicas de alta frequência e uma base com amortecedores físicos e compensação por software, tornando o sistema robusto mesmo em vias irregulares.
Da bancada à escala comercial
O projeto nasceu em 2019, dentro de um programa de PD&I com financiamento da ANEEL, e foi conduzido em fases com a participação da Inova Unicamp, que cuidou da estratégia de proteção da propriedade intelectual e do licenciamento à Kasco.
A startup, fundada em 2015, pivotou seu modelo de negócios após os primeiros testes com a tecnologia e hoje oferece três formatos de comercialização: licenciamento do produto, serviço com frota própria e pagamento por quilômetro rodado. O sistema já opera em Campinas (SP), Curitiba (PR) e Quito (Equador), com testes em expansão para outros países da América Latina.
“Foi um caminho longo até escalar o produto, mas agora estamos prontos para levar essa solução para outros mercados e expandir o impacto da inovação”, resume Caetano.
Além da aplicação em redes de distribuição, a tecnologia está sendo adaptada para linhas de transmissão, iluminação pública e agronegócio, com versões em testes acopladas a drones e câmeras ultravioletas.
Tecnologia nacional com impacto global
A iniciativa evidencia o potencial de universidades públicas brasileiras em gerar soluções de alto impacto para setores críticos da infraestrutura, como o energético. Ao combinar excelência científica, articulação com o setor privado e visão empreendedora, o projeto tornou viável uma tecnologia escalável, segura e economicamente vantajosa.
Na medida em que cresce a pressão sobre as distribuidoras por eficiência operacional e padrões mais elevados de confiabilidade, soluções como a Thermovision podem se tornar essenciais para garantir manutenção preventiva inteligente e reduzir perdas não técnicas.



