Concorrência marcada para 1º de agosto permitirá transformar valores travados por decisões judiciais em ativos negociáveis, com extensão de outorgas como contrapartida. Medida busca reequilibrar o setor e aumentar a segurança jurídica
A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) dará um passo decisivo para equacionar um dos mais duradouros e impactantes impasses do setor elétrico brasileiro: os efeitos financeiros das ações judiciais relacionadas ao risco hidrológico, o chamado GSF (Generation Scaling Factor). No próximo 1º de agosto, às 10h, será realizado um mecanismo concorrencial inédito, de caráter voluntário, com o objetivo de restabelecer a liquidez e previsibilidade no Mercado de Curto Prazo (MCP).
A operação permitirá que geradores que atualmente possuem liminares judiciais suspendendo ou limitando o pagamento de valores relacionados ao GSF transformem esses passivos em títulos financeiros negociáveis. Esses títulos serão ofertados a outros agentes do setor, que, ao adquiri-los, terão como contrapartida o direito de estender a validade de suas concessões por até sete anos.
“Desenvolvemos uma solução inovadora, que nos aproxima ainda mais do encerramento de um capítulo de mais de dez anos de disputas judiciais e dá um novo horizonte de crescimento para o setor. É um ganho em previsibilidade, estabilidade e confiança nas regras do jogo”, destaca Alexandre Ramos, presidente do Conselho de Administração da CCEE.
Impasse judicial travou bilhões em valores devidos ao MCP
O GSF surgiu como um dos principais fatores de desequilíbrio no setor a partir da década de 2010, quando condições hidrológicas adversas reduziram a geração das usinas hidrelétricas, obrigando os geradores a comprar energia no mercado de curto prazo, mesmo sem conseguir gerar o volume contratado. A judicialização foi a resposta de dezenas de empresas que buscavam isenção de tais pagamentos, resultando em bilhões de reais retidos por liminares e uma série de incertezas para o mercado como um todo.
Agora, com suporte legal da Medida Provisória nº 1.300/2025, a CCEE propõe uma solução que transforma passivos judiciais em ativos setoriais de longo prazo. A proposta beneficia tanto os empreendimentos que desejam se regularizar quanto os que buscam ampliar sua presença no setor com ativos reais — neste caso, a extensão de outorgas de geração.
Nova liquidação extraordinária prevista para agosto
As empresas vencedoras da concorrência deverão realizar o pagamento dos valores no dia 13 de agosto, durante uma liquidação extraordinária do Mercado de Curto Prazo, promovida pela própria CCEE. A seguir, a entidade encaminhará as informações sobre a extensão de concessões à Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), responsável por formalizar a postergação dos prazos de outorga.
A expectativa da CCEE é que o novo mecanismo permita resgatar a liquidez represada por mais de uma década, além de devolver previsibilidade às transações do MCP. A operação também fortalece o ambiente de negócios ao reduzir o risco jurídico e aumentar a transparência no setor elétrico brasileiro.
Edital aberto e evento para esclarecimento ao mercado
As regras completas da concorrência estão disponíveis no site oficial da CCEE. As empresas interessadas devem se habilitar entre os dias 18 e 24 de julho, com a divulgação dos agentes aptos marcada para o dia 29. A participação será feita de forma totalmente digital, por meio da plataforma da Câmara.
Como parte do esforço para garantir ampla compreensão do mecanismo, a CCEE promove na segunda-feira, 21 de julho, às 10h, o evento online “Edital em Debate”, que reunirá especialistas e instrutores da instituição para detalhar o funcionamento da operação e esclarecer dúvidas dos participantes. O evento é aberto ao público, sem necessidade de inscrição prévia. A gravação ficará disponível posteriormente na videoteca do Portal do Aluno da CCEE Academy.
Medida representa reequilíbrio e atratividade para novos investimentos
O mecanismo proposto se alinha às necessidades estruturais do setor, ao promover o encerramento de ações judiciais que comprometem a estabilidade do mercado e ao incentivar a entrada de novos recursos na cadeia de geração.
Para os compradores dos títulos, a possibilidade de estender concessões por até sete anos representa um ativo de alto valor estratégico, sobretudo num cenário de transição energética e crescimento da demanda.
“É um modelo de solução criativa que pode inspirar outros segmentos do setor elétrico e até mesmo outras áreas da infraestrutura brasileira”, avalia um especialista do setor ouvido sob condição de anonimato.
Ao transformar litígios em instrumentos de desenvolvimento e previsibilidade, a CCEE contribui não apenas para restaurar o equilíbrio do MCP, mas também para consolidar um mercado mais transparente, estável e propício a investimentos de longo prazo.



