China avança na autonomia nuclear com produção do primeiro barril de urânio natural em mina inteligente

Projeto pioneiro da CNNC em Ordos marca virada tecnológica e estratégica para reduzir dependência de importações e fortalecer segurança energética nacional

Em um passo significativo para a segurança energética da China e o fortalecimento de sua indústria nuclear, a China National Nuclear Corporation (CNNC) anunciou a produção do primeiro barril de urânio natural proveniente de seu maior projeto de recuperação in-situ (ISR) no país. A iniciativa, situada na cidade de Ordos, na Região Autônoma da Mongólia Interior, representa um marco tanto em inovação tecnológica quanto em autonomia no abastecimento de combustível nuclear.

O projeto — denominado “National No. 1 Uranium” — integra uma nova geração de minas inteligentes e automatizadas, capazes de operar remotamente, com monitoramento digital em tempo real e controle ambiental rigoroso. Além de representar uma mudança estrutural na cadeia de suprimento da energia nuclear chinesa, a iniciativa também desafia a tradicional dependência do país em relação às importações de urânio, sobretudo do Cazaquistão e da Namíbia.

Uma mina inteligente de terceira geração

Ao contrário das técnicas convencionais de mineração, que exigem escavações em larga escala e geram resíduos sólidos, líquidos e gasosos, o projeto em Ordos utiliza um método de lixiviação in-situ com CO₂ e O₂. Esse processo injeta uma solução química no subsolo para dissolver o urânio diretamente na jazida, que é então recuperado por meio de um circuito fechado até a superfície — reduzindo significativamente os impactos ambientais.

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Segundo a CNNC, a operação é considerada uma mina de urânio de terceira geração, por integrar automação, controle remoto e análise de dados em tempo real, elementos que até então limitavam a viabilidade de jazidas com características geológicas complexas, como as de arenito. Antes considerada inviável, a jazida de Ordos foi viabilizada pela evolução tecnológica aplicada à extração e gestão operacional.

Transição da construção para a mineração ativa

A produção do primeiro barril de 55 galões de urânio representa a conclusão da fase de testes e o início das operações de demonstração, embora a planta ainda não esteja operando comercialmente em sua capacidade plena. A CNNC ainda não divulgou uma data para o início da operação comercial definitiva.

Ainda assim, o sucesso do piloto representa um avanço expressivo e um sinal claro de que a China está disposta a investir em soluções tecnológicas para aumentar a autonomia energética, principalmente em um contexto de crescente incerteza geopolítica e tensões comerciais que afetam o mercado global de urânio.

Segurança energética e protagonismo internacional

De acordo com dados do Banco Mundial, 66% do urânio consumido pela China em 2023 foi importado do Cazaquistão, enquanto 33% vieram da Namíbia. Essa dependência expõe o país aos riscos de instabilidade nas cadeias globais de suprimento. O projeto de Ordos, portanto, reforça a estratégia chinesa de garantir segurança de combustível nuclear no longo prazo, especialmente diante do ambicioso plano nacional de expansão da energia nuclear.

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Com 58 reatores nucleares em operação e outros 32 em construção, a China tem o objetivo de ampliar a participação da energia nuclear na matriz energética nacional, atualmente em torno de 5%. Esse movimento é central para as metas climáticas do país, que busca neutralizar suas emissões líquidas de carbono até 2060, e demanda fontes internas confiáveis de combustível para sustentar o crescimento do parque nuclear.

Expansão e replicação do modelo ISR

O projeto em Ordos é o primeiro de uma série de operações baseadas em recuperação in-situ que a CNNC planeja implantar nas bacias de Songliao, Erlian e Yili, regiões localizadas no norte do país. O objetivo é criar uma rede nacional de mineração de urânio com baixa pegada ambiental, alta eficiência e controle logístico interno, contribuindo para a independência energética chinesa e o fortalecimento de sua posição no mercado global.

Segundo a CNNC, “quando estiver totalmente operacional, o projeto fornecerá uma base sólida de recursos para a segurança energética nacional e o avanço do setor nuclear, além de aumentar significativamente a competitividade internacional do setor de urânio natural da China”.

Reflexos globais e contexto geopolítico

A iniciativa chinesa tem implicações que vão além do território nacional. A criação de uma cadeia autônoma de produção de urânio pode redefinir a dinâmica internacional do mercado de combustíveis nucleares, especialmente em um momento em que vários países revisitam suas políticas energéticas para incluir — ou ampliar — o papel da energia nuclear como fonte estável e livre de emissões de carbono.

O sucesso do projeto de Ordos envia uma mensagem clara: a autonomia tecnológica e energética tornou-se um vetor estratégico central para grandes potências em um mundo multipolar, marcado por instabilidades e transições profundas.

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