Com altos custos, logística complexa e infraestrutura limitada, conferência pode aprofundar desigualdades e comprometer a legitimidade das negociações ambientais
Anunciada com entusiasmo pelo governo brasileiro e celebrada como um gesto de retomada do protagonismo do país nas negociações ambientais globais, a escolha de Belém (PA) como sede da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), marcada para novembro de 2025, carrega consigo tanto símbolos potentes quanto desafios urgentes.
Ao levar o maior evento climático do planeta ao coração da floresta amazônica, o Brasil envia ao mundo uma mensagem política clara: o futuro das discussões ambientais passa pelo Sul Global. No entanto, a poucos meses do encontro, cresce a preocupação entre diplomatas, organizações da sociedade civil e especialistas do setor energético e ambiental sobre quem, de fato, conseguirá estar presente para decidir os rumos da agenda climática internacional.
A floresta como palco, mas com poucos assentos acessíveis
Com hospedagens que ultrapassam R$ 50 mil por duas semanas, escassez de voos, infraestrutura básica insuficiente e barreiras logísticas diversas, a COP30 corre o risco de se tornar um evento excludente. A promessa de uma conferência plural, inclusiva e representativa está sendo confrontada por uma realidade que favorece os mais ricos — e marginaliza justamente os povos e países que mais sofrem com os impactos das mudanças climáticas.
“Não se trata apenas de um problema operacional. É uma questão geopolítica: quem pode pagar para estar presente tem mais poder de influência nas decisões”, afirma Eric Daza, especialista em transição energética e diplomacia ambiental. Ele alerta que a ausência de vozes do Sul Global e de representantes de comunidades vulneráveis compromete não apenas a representatividade do evento, mas a legitimidade dos acordos firmados.
Desigualdade no acesso e risco de distorção da agenda climática
A situação é ainda mais grave quando observamos o desequilíbrio histórico das negociações climáticas. Delegações de países desenvolvidos, instituições financeiras e empresas do setor fóssil tendem a manter — ou até ampliar — sua presença, consolidando a tendência das COPs se tornarem grandes feiras de negócios climáticos, cada vez mais distantes da política multilateral e da tomada de decisões em favor da justiça climática.
Organizações da sociedade civil, representantes de povos tradicionais, jovens ativistas e técnicos de países mais pobres enfrentam desafios crescentes para participar das rodadas de negociação. Sem espaço físico, sem orçamento e sem apoio logístico, muitos desses atores — que trazem perspectivas críticas e propostas inovadoras — correm o risco de ficar de fora do processo.
“Sem acesso, não há escuta. Sem escuta, não há acordo. Sem acordo, não há futuro”, resume Daza, destacando o risco de se consolidar um modelo de governança ambiental concentrado nas mãos de poucos, com decisões tomadas por quem menos sente os efeitos da crise climática.
COP30 será um teste para a diplomacia climática brasileira
A COP30 marca o primeiro grande encontro global após o término do Global Stocktake (processo de avaliação dos compromissos climáticos, concluído em Dubai, na COP28) e os desafios esperados da COP29 em Baku. Nela, os países devem apresentar novas metas nacionais de redução de emissões (NDCs) e buscar consenso em temas sensíveis como transição justa, financiamento climático e adaptação — questões que permanecem travadas por falta de confiança entre os blocos negociadores.
A responsabilidade política da conferência está nas mãos do governo brasileiro, que assumiu a presidência da COP30 com o compromisso de construir uma conferência ambiciosa e diplomática. Ainda assim, especialistas alertam que o sucesso não se mede apenas pelas declarações públicas ou número de participantes, mas pela qualidade da representação nos espaços de decisão.
“A floresta estará lá. O palco está montado. Mas a legitimidade da COP30 será medida por quem ocupou os assentos das salas de negociação — e, principalmente, por quem ficou de fora”, conclui Daza.



