Queda de 2,8% na demanda nacional reflete menor uso de climatizadores nas residências, enquanto mercado livre segue em expansão impulsionado pela indústria
O mês de maio de 2025 registrou a segunda queda consecutiva no consumo de energia elétrica no Brasil, refletindo os efeitos de um clima mais ameno e chuvoso, especialmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Segundo dados do monitoramento em tempo real da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o país consumiu em média 68.149 megawatts médios (MWm), um recuo de 2,8% em relação ao mesmo período de 2024, quando o país ainda sentia os efeitos do fenômeno El Niño.
O dado reforça a relevância do fator climático sobre o comportamento da demanda elétrica, sobretudo no mercado regulado, voltado majoritariamente para o atendimento das residências. Esse segmento apresentou uma redução expressiva de 6,8%, somando 38.915 MWm — resultado atribuído à menor utilização de aparelhos de ar-condicionado e ventiladores em função das temperaturas mais baixas.
Em contraste, o mercado livre de energia – onde empresas e indústrias compram diretamente sua energia – seguiu em expansão, com alta de 3,0%, alcançando 29.234 MWm. O crescimento foi puxado tanto pela entrada de novos consumidores, quanto pelo desempenho positivo de diversos setores da economia, demonstrando a resiliência e maturidade desse modelo de contratação.
Desempenho por setores econômicos: destaque para mineração e alimentos
A CCEE monitora em tempo real o consumo de energia de 15 segmentos da atividade econômica. O maior crescimento em maio foi registrado na extração de minerais metálicos, com alta de 14,5%, impulsionada pelo aquecimento da produção e da exportação de commodities. A indústria alimentícia também teve expansão relevante, de 5,1%, seguida pelo setor de saneamento, com 4,2%.
Por outro lado, três setores registraram queda na demanda: telecomunicações (-6,6%), transporte (-1,6%) e comércio (-0,2%), refletindo um comportamento mais cauteloso do consumo e eventuais ajustes operacionais.
Variação regional: clima define o perfil da demanda
A queda na temperatura e o aumento das chuvas impactaram de maneira desigual as regiões do país. Estados como Rio de Janeiro (-11,4%), Mato Grosso do Sul (-9,7%) e Espírito Santo (-7,8%) puxaram a retração na demanda, seguindo a tendência das regiões Sudeste, Centro-Oeste e parte do Nordeste.
Por outro lado, as regiões Norte, Nordeste e Sul, em áreas que ainda enfrentaram temperaturas mais elevadas, registraram aumento no consumo. Os destaques positivos foram Acre (25,6%), Maranhão (13,4%) e Rio Grande do Sul (7,3%).
Geração de energia: fontes renováveis ganham protagonismo
Em relação à oferta, a CCEE identificou uma queda de 2% na geração hidrelétrica, tradicionalmente responsável pela maior parte da matriz elétrica brasileira. Entretanto, essa redução foi compensada por aumentos nas fontes eólica (18%) e solar (10%), que se consolidam como pilares da transição energética nacional.
As usinas térmicas a biomassa, sobretudo as que utilizam cana-de-açúcar, também contribuíram positivamente, com crescimento de 2% na geração. Essa diversidade de fontes confere maior resiliência ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e reforça o papel das energias renováveis no atendimento à demanda, mesmo em períodos de menor hidrologia.
Perspectivas e planejamento
O monitoramento em tempo real da CCEE é uma ferramenta estratégica para prever tendências, mitigar riscos e orientar o planejamento energético do país. Os dados de maio demonstram como eventos climáticos influenciam diretamente o comportamento da carga, especialmente no mercado residencial.
Ao mesmo tempo, o desempenho consistente do mercado livre evidencia o avanço da liberalização do setor elétrico brasileiro, com maior participação de consumidores e estímulo à eficiência e competitividade no fornecimento de energia.
Com a continuidade do processo de abertura de mercado e o crescimento da geração distribuída, espera-se que o Brasil avance rumo a uma matriz mais diversificada, limpa e responsiva às necessidades regionais e setoriais, respeitando as particularidades climáticas e econômicas de cada parte do território nacional.



