Relatório recomenda integrar transição energética e reindustrialização de baixo carbono na agenda estratégica do bloco, destacando setores como minerais críticos, combustíveis sustentáveis, veículos elétricos e renováveis
Os países fundadores do BRICS — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — têm potencial para liderar uma nova fase de industrialização verde, alinhada à transição energética global. Essa é a principal conclusão do estudo “Potencial da Indústria Verde nos BRICS”, elaborado pela rede de pesquisa Zero Carbon Analytics a pedido do Instituto ClimaInfo.
O relatório destaca que os países do bloco, apesar de suas vantagens comparativas — como vastos recursos minerais, capacidade industrial instalada e crescente demanda por tecnologias limpas — ainda não priorizam a agenda da reindustrialização verde de forma integrada. A publicação alerta que a oportunidade de alinhar esforços entre os membros do BRICS está sendo subutilizada, inclusive sob a atual presidência brasileira do bloco em 2025.
Oportunidade estratégica: combinar transição energética e industrialização
De acordo com a pesquisadora Renata Albuquerque Ribeiro, autora do estudo, a sinergia entre reindustrialização e descarbonização deve ser central nas futuras cúpulas do BRICS. “A transição energética precisa deixar de ser tratada apenas como pauta ambiental e passar a ocupar o centro da estratégia de desenvolvimento dos países do bloco, que têm muito a ganhar com a cooperação técnica e financeira entre si”, afirma.
A publicação propõe que o BRICS aprofunde sua cooperação em áreas estratégicas para o fortalecimento da indústria verde, com foco em setores essenciais à transição energética global. Entre os temas prioritários, destacam-se o desenvolvimento e a exploração sustentável de minerais críticos — como níquel, grafite e manganês —, fundamentais para a fabricação de tecnologias limpas.
Além disso, o documento recomenda avanços coordenados na cadeia produtiva de baterias, na produção e adoção de veículos elétricos, no fortalecimento das fontes renováveis de energia, especialmente a eólica e a solar, e na promoção de combustíveis sustentáveis para a aviação (SAF), considerados essenciais para a descarbonização do setor aéreo.
Avanços por setor: o que os BRICS já estão fazendo
A análise mostra que Brasil, China e Índia já possuem iniciativas promissoras que podem ser escaladas por meio de integração regional. O Brasil, por exemplo, lançou três projetos de produção de SAF, com expectativa de fabricar 1,1 bilhão de litros por ano a partir de 2027, apoiado por investimento de US$ 1 bilhão da chinesa Envision Energy. A Índia, por sua vez, projeta uma produção de até 10 bilhões de toneladas anuais até 2040, com investimentos estimados entre US$ 70 e 85 bilhões.
Na cadeia de veículos elétricos, a China lidera com 70% da produção global em 2024, enquanto o Brasil registrou salto de 108% nas importações, somando US$ 1,6 bilhão, e aumento de 89% nas vendas internas. Para atender à demanda, a montadora BYD está construindo uma fábrica na Bahia, com previsão de início das operações em 2026.
Papel do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB)
Outro destaque do estudo é o papel do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) como catalisador da industrialização verde no bloco. Criado em 2015, o banco já destinou US$ 5,2 bilhões em projetos com foco climático até 2021, representando cerca de 18% do total aprovado no período.
Entre os projetos financiados estão:
- Linhas de crédito para o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima no Brasil
- Projetos de energia renovável na Índia
- Emissão de green bonds no valor de US$ 1,25 bilhão em 2024
No entanto, o plano de investimento 2022–2026 do banco reduziu a meta de destinação de recursos para renováveis de 60% para 40%, o que foi considerado um retrocesso em relação às ambições climáticas anteriores. O relatório recomenda retomar metas mais ambiciosas, direcionando recursos para tecnologias limpas e inovação industrial de baixo carbono.
Desafios geopolíticos e comerciais
O documento também analisa os impactos de novas tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos, especialmente após o retorno de Donald Trump à presidência. Entre as medidas de maior impacto, destaca-se a tarifa de 50% sobre aço e alumínio, que pode gerar prejuízo de até US$ 1,5 bilhão ao Brasil em exportações e comprometer parte da produção interna.
Adicionalmente, as sobretaxas sobre baterias e painéis solares chineses devem ultrapassar 82% até 2026, o que tende a redirecionar o fluxo de exportações chinesas para outros destinos — e torna a cooperação Sul-Sul dentro do BRICS ainda mais estratégica para enfrentar barreiras comerciais impostas por economias desenvolvidas.
A presidência brasileira do BRICS em 2025
Apesar do potencial e da conjuntura favorável, a presidência brasileira do BRICS ainda não priorizou oficialmente a pauta da industrialização verde. Para o Instituto ClimaInfo, essa lacuna representa uma oportunidade estratégica: o Brasil pode liderar a integração entre desenvolvimento industrial, financiamento climático e inovação sustentável, colocando a economia verde como eixo central da cooperação Sul-Sul.
“O Brasil tem condições técnicas, industriais e políticas para articular uma agenda robusta de reindustrialização verde no BRICS. A presidência de 2025 precisa aproveitar esse momento para ampliar a ambição coletiva do bloco e consolidar o BRICS como potência climática e industrial emergente”, defende o estudo.



