Justiça climática e inclusão social devem orientar novos investimentos para enfrentar a crise climática, aponta estudo

Relatório Top Trends COP 30 revela que o combate ao aquecimento global depende de ações estruturais voltadas à redução da desigualdade e do fortalecimento da governança inclusiva

Em meio à intensificação da crise climática global, um alerta ganha força entre especialistas: não haverá transição verde efetiva sem justiça social. É esse o eixo central do estudo Top Trends COP 30, publicado pela consultoria Ideia Sustentável, que antecipa as principais tendências e desafios que estarão em pauta durante a próxima Conferência do Clima da ONU (COP 30), marcada para 2025, em Belém (PA).

Mais do que compromissos de redução de emissões, o relatório defende que os fluxos financeiros globais precisam ser urgentemente redirecionados para apoiar soluções que promovam inclusão social e justiça climática, principalmente nos países em desenvolvimento — como o Brasil, que hoje vive o paradoxo de ser potência ambiental, mas ainda conviver com graves desigualdades estruturais.

“Não existe desenvolvimento sustentável se metade da população brasileira vive abaixo da linha da pobreza”, afirma Linda Murasawa, especialista em desenvolvimento sustentável. Ela alerta que é preciso superar a lógica da filantropia e tornar inclusão social e justiça climática pilares da economia.

- Advertisement -

Justiça climática: conceito-chave para a ação global

A crise ambiental não afeta a todos igualmente. Seus impactos — eventos extremos, insegurança alimentar, escassez hídrica, deslocamentos forçados — recaem com mais força sobre populações vulneráveis, geralmente sem acesso a serviços básicos, moradia digna ou capacidade de adaptação. Por isso, o estudo enfatiza que ações pontuais e assistencialistas não são mais suficientes.

“As ações que vemos hoje são muito pontuais, muitas vezes baseadas em filantropia. Mas isso não resolve. Metade da população brasileira está abaixo da linha da pobreza”, reforça Linda. “Quando falamos de refugiados climáticos, não estamos falando só de migração entre países, mas também de deslocamentos internos forçados pela crise ambiental e econômica”, acrescenta.

A análise revela que, apesar da disponibilidade de capital no sistema financeiro internacional, os recursos não estão sendo aplicados de forma estratégica ou equitativa. Segundo o estudo, a justiça climática precisa ser integrada aos modelos de negócios e às políticas públicas como uma diretriz central, não como um acessório reputacional.

COP 30: oportunidade histórica para o Brasil

O Brasil terá um papel central na COP 30, não apenas como anfitrião, mas como possível protagonista de um novo modelo de desenvolvimento. O relatório da Ideia Sustentável aponta que o país tem a chance de se tornar referência global em sustentabilidade com inclusão social, caso aproveite o momento para demonstrar que é possível conciliar crescimento econômico com justiça climática.

- Advertisement -

“Se conseguirmos mostrar que é possível crescer economicamente promovendo inclusão social e justiça climática, seremos um mega case mundial — não baseado em filantropia, mas em um novo modelo de negócios e desenvolvimento sustentável”, defende Linda Murasawa.

Da filantropia ao protagonismo: o papel da governança

Para que isso se concretize, será necessário revisar estruturas de governança e financiamento, tanto no setor público quanto privado. A advogada Flávia Bellaguarda, especialista em justiça climática, reforça que o tema precisa ser tratado como eixo estratégico das decisões climáticas.

“Não se resolve a crise climática sem enfrentar as desigualdades sociais. Esse precisa ser o eixo central de qualquer política climática séria”, afirma Flávia.

A advogada Gabriela Blanchet, embaixadora da iniciativa de governança climática do Fórum Econômico Mundial no Brasil, alerta para o risco de o país desperdiçar a chance histórica proporcionada pela COP 30.

“O país está sob os holofotes com a realização da COP 30, mas se não resolvermos as questões de governança e financiamento, perderemos uma oportunidade histórica.”

Gabriela também observa que ainda há impasses sobre quem deve financiar a adaptação climática, com países desenvolvidos resistindo a arcar com o custo das transformações, apesar de sua responsabilidade histórica pelas emissões.

O dinheiro existe. Falta redirecionamento

A especialista Chantal Pillet, diretora da Kroll, destaca que recursos não faltam — o que falta é alocação eficiente e estratégia.

“O que falta é alocação eficiente dos recursos, com foco em soluções sustentáveis e inclusivas. Precisamos de modelos que integrem resiliência, justiça social e viabilidade econômica”, afirma Chantal.

O estudo propõe que o financiamento inclusivo seja tratado como investimento estratégico, com potencial de gerar benefícios duradouros tanto para a economia quanto para a resiliência climática das sociedades.

Caminhos e recomendações

Entre as medidas apontadas pelo estudo para viabilizar essa nova abordagem, estão:

  • Fortalecer estruturas locais de financiamento climático, priorizando projetos com impacto social direto;
  • Integrar justiça climática às políticas públicas e à estratégia das empresas;
  • Redirecionar parte dos fluxos financeiros globais para iniciativas de mitigação e adaptação nos países mais vulneráveis;
  • Aproveitar a COP 30 para mostrar ao mundo que é possível uma transição justa, equitativa e economicamente viável.

O Top Trends COP 30 analisa ainda outras 22 tendências e desafios que estarão no centro do debate internacional, incluindo a redução de GEE, adaptação climática, financiamento verde, soluções de baixo carbono e preservação de florestas e biodiversidade.

Destaques da Semana

Petrobras define indicações para Conselhos de Administração e Fiscal de 2026

Governo propõe recondução de Magda Chambriard e Bruno Moretti...

ANP aprova consulta sobre BRA com glosas de R$ 3,2 bi para transportadoras de gás

Diretoria aprova consulta pública de apenas 15 dias para...

Artigos

Últimas Notícias