Energia elétrica no Brasil: por que pagamos tanto e como mudar esse cenário

Por Paulo Toledo, CO-CEO e Fundador da Ecom Energia

O Brasil é conhecido por ter uma das matrizes energéticas mais limpas e baratas do mundo – e, ainda assim, figuramos entre os países com a tarifa mais alta para o consumidor final. Esse paradoxo afeta toda a cadeia produtiva, da fabricação do pãozinho francês à montagem de automóveis.

Enquanto a produção de energia no país é relativamente barata, graças à abundância de recursos renováveis, a tarifa repassada ao consumidor cresce ano após ano, pressionada por encargos, subsídios cruzados, perdas técnicas e ineficiências regulatórias.

O que aprendemos com a evolução das tarifas no Brasil?

Entre 2010 e 2024, as tarifas do mercado regulado subiram 177%, passando de R$ 112/MWh para R$ 310/MWh – um crescimento 45% acima da inflação acumulada no período (122%). Isso significa que, mesmo com uma matriz barata, o consumidor regulado paga cada vez mais.

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No mesmo período, o preço de longo prazo no mercado livre teve variação de 44% (de R$ 102/MWh para R$ 147/MWh), ou seja, um aumento 64% inferior ao IPCA. A diferença mostra como o ambiente de contratação livre já é, na prática, um instrumento de controle de custos e previsibilidade orçamentária para as empresas.

Esse aprendizado é claro: ambientes competitivos favorecem a eficiência e estimulam a modernização. O mercado livre não apenas proporciona preços mais baixos, mas também promove inovação, responsabilidade na gestão e maior conexão com a transição energética.

Oportunidades com a abertura para baixa tensão

Após décadas de espera, os pequenos consumidores – comércios, pequenas indústrias e, futuramente, residências – começam a vislumbrar o direito de escolher seu fornecedor de energia.

Segundo o cronograma oficial:

  • Em agosto de 2026, consumidores do Grupo B não residenciais (baixa tensão) poderão migrar para o mercado livre;
  • A partir de dezembro de 2027, os consumidores residenciais também terão essa possibilidade.

Esse movimento pode beneficiar milhões de unidades consumidoras que hoje estão restritas ao ambiente regulado. A projeção é que a migração massiva traga maior competição, redução de preços e fortalecimento de novos modelos de negócios, como comunidades energéticas, autoconsumo remoto e contratação via plataformas digitais.

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O maior desafio será garantir que essa migração ocorra de forma segura, consciente e estruturada – tanto do ponto de vista regulatório quanto operacional.

Energia mais barata e acessível depende de ação agora

O ano de 2025 será decisivo para preparar o setor e os consumidores para a nova fase da abertura de mercado. Algumas ações estratégicas precisam ser colocadas em prática desde já:

  1. Fortalecer a qualificação profissional
    A expansão do mercado livre exigirá profissionais capacitados, com conhecimento técnico e sensibilidade para atender perfis variados de consumidores. Investir na formação contínua será essencial para comercializadoras, consultorias e agentes do setor.
  2. Digitalização e automação dos processos
    A gestão do mercado livre exige precisão, velocidade e escalabilidade. Soluções tecnológicas que automatizam rotinas, otimizam a previsão de consumo e integram gestão financeira e energética se tornarão diferenciais competitivos.
  3. Educação do consumidor de baixa tensão
    Esse novo público precisa ser instruído sobre os riscos e responsabilidades do ambiente livre. Levar informação clara e confiável será essencial para evitar frustrações e garantir escolhas conscientes. Campanhas educativas, conteúdos simplificados e atendimento consultivo farão toda a diferença.
  4. Estruturar portfólios diversificados de oferta
    Com a entrada de consumidores menores, surgirá a demanda por contratos mais flexíveis, volumes fracionados e soluções adaptadas. Comercializadoras devem repensar seus produtos e canais de venda para escalar com eficiência.

O Brasil vive uma oportunidade histórica de democratizar o acesso à energia mais barata, previsível e sustentável. O avanço do mercado livre é um caminho claro para resolver um dos maiores paradoxos do setor elétrico: produzir energia barata, mas vendê-la caro.

A transição não será automática – exigirá ação estratégica em 2025. Quem atuar agora, seja para migrar, estruturar novos serviços ou preparar seus times, terá vantagem competitiva em 2026.

Energia barata e eficiente pode deixar de ser exceção para virar regra. Mas, para isso, precisamos construir esse futuro desde já.

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