Com metas ousadas para neutralidade de carbono até 2035, país nórdico aposta na cooperação internacional, inovação sustentável e inclusão profissional para liderar uma transformação sistêmica rumo a um modelo de baixo desperdício
Em um mundo que caminha cada vez mais rapidamente para a transformação energética e a sustentabilidade sistêmica, a Finlândia se posiciona como uma das nações líderes na construção de uma economia circular e carbono neutra. Com metas ambiciosas para alcançar a neutralidade de carbono até 2035, o país está promovendo uma série de iniciativas que incluem não apenas políticas públicas robustas, mas também a atração de talentos internacionais — com destaque para profissionais brasileiros — dispostos a contribuir com soluções tecnológicas, ambientais e sociais sustentáveis.
A partir de uma articulação entre o governo, universidades, empresas e sociedade civil, a Finlândia tem implementado, desde 2016, uma estrutura nacional para a economia circular que foi evoluindo ao longo dos anos. Atualmente, essa estrutura opera como um programa estratégico, com apoio institucional dos Ministérios do Meio Ambiente e dos Assuntos Econômicos e Emprego, e coloca o país à frente no cenário internacional da transição verde.
O destaque dado ao Brasil nesse movimento se intensificou com a realização, pela primeira vez na América Latina, do World Circular Economy Forum (WCEF), sediado em São Paulo em 2025. A edição reforçou a cooperação bilateral e chamou atenção para as oportunidades de mobilidade profissional e colaboração técnica entre as duas nações.
Inovação limpa, dados e justiça climática como pilares
A Finlândia desenvolve sua estratégia de circularidade com base em quatro pilares estruturantes:
- Uso de evidências científicas para tomada de decisão
- Definição coletiva de metas com múltiplos setores
- Autonomia dos agentes para inovar dentro de um marco comum
- Aprendizado contínuo por meio de práticas reais
A meta é clara: tornar-se uma economia circular carbono neutra até 2035, limitando o uso de matérias-primas primárias aos níveis de 2015, mesmo com crescimento econômico e populacional. Há exceções apenas para insumos voltados à exportação, respeitando a lógica de uma indústria eficiente, limpa e globalmente competitiva.
Além disso, o país quer dobrar sua produtividade de recursos e aumentar significativamente sua taxa de uso circular de materiais (Circular Material Use Rate – CMU), integrando circularidade em todas as cadeias produtivas — da bioeconomia à mineração, da gestão de resíduos ao design de produtos.
Segundo Outi Suomi, responsável pela missão “Transição Circular para o Desperdício Zero” da Business Finland, a cooperação intersetorial é a base do sucesso: “Nosso modelo valoriza a cocriação e a inovação conjunta entre governo, centros de pesquisa e setor produtivo. Estamos construindo soluções para mineração sem resíduos e cadeias de valor circulares orientadas por dados”.
Energia limpa e tecnologia inteligente
Outro aspecto fundamental da estratégia finlandesa é o uso intensivo de tecnologias digitais e dados em tempo real para promover eficiência energética, redução de emissões e serviços urbanos sustentáveis. As cidades inteligentes da Finlândia são referência em mobilidade limpa, gestão hídrica e digitalização de serviços públicos, apoiadas por uma infraestrutura avançada de 5G e em desenvolvimento de 6G.
Essa abordagem permitiu que, hoje, 95% da eletricidade gerada no país seja livre de CO₂ e 56% venha de fontes renováveis, segundo a Statistics Finland. Essa matriz energética verde sustenta políticas públicas ambiciosas e fornece uma base sólida para o crescimento de setores estratégicos, como o da bioeconomia, que já representa 11% da força de trabalho do país.
Talentos brasileiros têm espaço na transição verde finlandesa
De olho na colaboração internacional, a Finlândia está incentivando profissionais brasileiros a explorarem oportunidades de atuação no país, principalmente nos setores ligados à ciência ambiental, design sustentável, inovação digital, bioeconomia, mineração limpa e cidades inteligentes.
A pesquisadora brasileira Mariana Lyra, radicada na Finlândia e atuando na LUT University, destaca o contraste entre os dois países: “É impressionante como um cenário pode mudar quando há vontade política estratégica e recursos para financiar a transição. Aqui, a transição energética não é apenas tecnológica, é também social e justa. A estrutura da União Europeia garante caminhos reais para que essa mudança aconteça”.
Oportunidades abertas
A Finlândia mantém um portal dedicado à atração de talentos internacionais, com vagas abertas em setores estratégicos: www.workinfinland.com/open-jobs
A iniciativa é parte de uma estratégia ampla para acelerar a transição verde com base no intercâmbio de conhecimento, inovação e diversidade de perspectivas — pilares fundamentais para o sucesso da economia circular global.



