Brasil avança para liderar a indústria global do hidrogênio de baixo carbono

Especialistas e empresas do setor destacam a urgência da regulação e o papel estratégico da indústria nacional no fornecimento de tecnologias para a cadeia do hidrogênio verde

O Brasil está diante de uma oportunidade histórica de protagonismo na indústria global de hidrogênio de baixo carbono. Com projetos em estágio avançado e mais de US$ 68 bilhões em investimentos anunciados até 2030, o país reúne condições ideais para se posicionar como líder na produção e exportação de hidrogênio verde e tecnologias associadas. Essa foi a principal mensagem do webinar promovido pelo Conselho de Hidrogênio da ABIMAQ, que reuniu representantes de empresas estratégicas como Voltalia e Qair Brasil, além de especialistas do setor.

O evento, intitulado “Oportunidades no setor de Hidrogênio de Baixo Carbono para as indústrias de máquinas, equipamentos e componentes”, marcou um novo capítulo para a indústria nacional. Segundo Alberto Machado, diretor de Petróleo, Gás Natural, Bicombustíveis e Hidrogênio da ABIMAQ, o setor deixou de falar em potenciais e passou a tratar de execuções.

“Um marco para o Conselho, pois pela primeira vez apresentaremos, de forma clara, oportunidades concretas e empreendimentos próximos de serem iniciados”, afirmou Machado.

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A transição do campo regulatório para a fase de implantação efetiva dos projetos traz consigo uma demanda crescente por equipamentos, soluções industriais e mão de obra especializada. É nesse ponto que a indústria brasileira passa a desempenhar papel crucial na estruturação da cadeia de valor do hidrogênio.

Ceará lidera projetos e atrai players globais

Durante o encontro, foram apresentados empreendimentos com foco no Nordeste, especialmente no Porto do Pecém, no Ceará, onde se consolida um dos principais hubs de hidrogênio verde da América Latina. A Voltalia, multinacional do setor de energia renovável, destacou seu projeto de produção de até 700 mil toneladas/ano de amônia verde, com exportação como principal destino.

“Temos um projeto pronto para avançar, mas precisamos de segurança regulatória e autorização de acesso à rede elétrica para concretizar os investimentos”, reforçou Everton Emanuel Calixto, gerente sênior de projetos da Voltalia.

A empresa já garantiu uma área de 100 hectares no porto e aguarda a consolidação de marcos regulatórios e a liberação da infraestrutura elétrica para iniciar a implantação.

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“A questão não é mais ‘se’ o hidrogênio vai acontecer, mas ‘quando’. E esse ‘quando’ depende da celeridade com que avançarmos na conexão e nos marcos regulatórios”, acrescentou Calixto.

Qair aposta em soluções híbridas e competitividade

Outro player com atuação destacada no setor é a Qair Brasil, que também desenvolve projetos no Porto do Pecém. A empresa aposta em um modelo de produção que combina energia renovável, armazenamento com baterias e gestão inteligente da demanda, garantindo maior previsibilidade de entrega e custo competitivo para o hidrogênio produzido.

“O hidrogênio verde é uma peça-chave para a transição energética e para a descarbonização da indústria e dos transportes pesados. É mandatório para que o mundo atinja as metas climáticas assumidas”, declarou Gustavo Silva, diretor de operações da Qair Brasil.

Ele alerta, no entanto, para a necessidade de o Brasil criar rapidamente condições regulatórias e fiscais mais atrativas para não perder espaço na corrida internacional por investimentos.

“Temos potencial abundante, mas é preciso avançar com regulação clara e estímulos para que a cadeia produtiva se desenvolva aqui, com valor agregado, empregos e inovação”, completou Silva.

Indústria nacional deve ser protagonista

A especialista Monica Saraiva Panik, mentora da SAE Brasil e curadora do Movimento BW1, trouxe ao debate uma visão sistêmica sobre o avanço da agenda de hidrogênio no Brasil. Com quase três décadas de experiência na área, ela mapeou 74 projetos de hidrogênio verde no país, somando mais de US$ 68 bilhões em investimentos previstos até 2030.

“O que vemos hoje são projetos reais, com licenças ambientais, áreas reservadas e previsão de compras de equipamentos já para os próximos 12 a 18 meses”, afirmou Monica.

Ela chamou atenção para a necessidade de conectar a base industrial de máquinas e equipamentos, concentrada no Sudeste, às demandas crescentes dos projetos localizados no Nordeste.

“Nosso objetivo é justamente construir essa ponte entre quem vai demandar e quem pode fornecer. Além disso, a capacitação da indústria nacional é essencial: entender as necessidades específicas de cada projeto, adaptar seus produtos e estar pronta para atender essa nova cadeia”, observou.

Aposta em conteúdo local e fornecimento global

Em sua fala de encerramento, Marcelo Veneroso, coordenador do Conselho de Hidrogênio da ABIMAQ, destacou os esforços da entidade para mapear o setor produtivo nacional e conectá-lo à cadeia global de hidrogênio. Em parceria com entidades como Sindipeças, SAE Brasil e o Grupo MiBi Hidrogênio, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a ABIMAQ está identificando fabricantes aptos a fornecer equipamentos, estruturas e soluções completas para os projetos de hidrogênio.

“Nosso objetivo é justamente esse: abrir espaço para que a indústria nacional participe não só dos projetos locais, mas também dos internacionais, levando tecnologia, soluções e valor agregado para uma cadeia completa. Colocamos uma espinha dorsal sobre os sistemas e as plantas, oferecendo uma visão clara do que é possível dentro de um projeto de hidrogênio”, finalizou Veneroso.

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