Níveis críticos nos reservatórios, alta do PLD e previsões climáticas incertas sinalizam volatilidade no setor elétrico; revisão regulatória ganha protagonismo no enfrentamento da crise
O mês de maio de 2025 marcou um início preocupante para o período seco no setor elétrico brasileiro, com reflexos imediatos nos preços da energia, na confiabilidade do suprimento e nas tarifas para o consumidor. A combinação de condições hidrológicas desfavoráveis, aumento de demanda impulsionado por massas de ar frio e incertezas quanto à recuperação dos reservatórios do Sistema Interligado Nacional (SIN) acendeu um sinal de alerta entre agentes do mercado e reguladores.
De acordo com dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) sofreu uma alta de 5% em relação a abril. A média mensal do PLD em maio atingiu R$ 212/MWh nos submercados Sudeste/Centro-Oeste, R$ 233/MWh no Sul e R$ 125/MWh nas regiões Norte e Nordeste. Já em junho, a média parcial registrada até o dia 12 já alcançava R$ 266/MWh, evidenciando o agravamento da conjuntura energética.
A elevação dos preços de curto prazo levou a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) a acionar a bandeira vermelha patamar I nas tarifas do mercado regulado, o que representa um aumento adicional na conta de luz dos consumidores. Para Alan Henn, CEO da Voltera Energia, o cenário já apontava para essa medida: “O acionamento da bandeira vermelha já era esperado, considerando a combinação entre baixa oferta hidráulica e aumento sazonal da demanda”, afirmou.
Chuvas localizadas e impacto limitado nos reservatórios
Apesar de registros de chuva em algumas regiões — especialmente no sul do Rio Grande do Sul e no litoral do Nordeste —, os volumes observados não impactaram de maneira significativa as principais bacias hidrográficas responsáveis pelo armazenamento de água nos grandes reservatórios. Em maio, a Energia Natural Afluente (ENA) esteve entre as piores dos últimos dez anos, refletindo um dos contextos hidrológicos mais frágeis da década.
As previsões para junho, com base nos modelos meteorológicos internacionais ECMWF e GFS, indicam chuvas acima da média para áreas da região Sul (incluindo Santa Catarina e o norte do Rio Grande do Sul), além de trechos do norte de São Paulo e sul de Mato Grosso do Sul. No entanto, segundo Henn, ainda não é possível afirmar que essa melhora terá efeitos substanciais no curto prazo: “A previsão de chuvas mais consistentes é uma boa notícia, mas não resolve o problema de forma imediata. Precisamos de bons volumes e bem distribuídos ao longo das bacias estratégicas, e isso exige tempo. O setor deve se preparar para uma volatilidade elevada no curto e médio prazo”.
Reflexos no mercado livre e tensão no sinal de preços
O mercado livre de energia, que concentra consumidores que negociam diretamente com geradores e comercializadoras, está entre os mais impactados pela escalada do PLD. Empresas com exposição ao mercado spot enfrentam custos adicionais, exigindo estratégias de gestão de risco mais sofisticadas para evitar impactos econômicos relevantes.
Diante desse cenário de pressão, a discussão sobre revisão regulatória ganhou força. Um dos focos do debate atual é a atualização das metodologias de cálculo dos limites mínimo e máximo do PLD, bem como da Tarifa de Energia de Otimização (TEO). Esses parâmetros, definidos há muitos anos, já não refletem adequadamente a dinâmica atual do setor elétrico, marcada por maior participação de fontes renováveis, volatilidade climática e integração digital.
A expectativa é que a atualização regulatória traga maior previsibilidade aos agentes e contribua para alinhar os sinais de preço às reais condições operacionais do sistema elétrico. A ANEEL e o Ministério de Minas e Energia (MME) já sinalizaram que tais revisões fazem parte da agenda prioritária do setor para 2025.
O que esperar do cenário energético nos próximos meses?
Enquanto os modelos climáticos oferecem esperança de melhora parcial, especialistas reforçam que o país pode viver um período prolongado de incerteza energética. Além da questão hidrológica, outros fatores como eventos climáticos extremos, variações no consumo industrial e urbanização crescente pressionam o equilíbrio do sistema.
A situação reforça a urgência de diversificar a matriz energética, fortalecer os mecanismos de armazenamento e flexibilidade, ampliar o uso de previsões climáticas integradas e acelerar a modernização regulatória. Para o consumidor, tanto do mercado livre quanto do cativo, o momento exige atenção redobrada e, sempre que possível, adoção de estratégias de eficiência energética para minimizar impactos financeiros.



