Descolamento entre operação física do SIN e formação de preços pressiona agentes, acelera debate sobre flexibilidade e reforça protagonismo do LRCAP
O setor elétrico brasileiro inicia 2026 diante de um cenário de elevada complexidade operacional e crescente pressão econômica. Durante o evento Agenda Setorial 2026, realizado no Rio de Janeiro, especialistas, executivos e representantes institucionais convergiram em um diagnóstico contundente: o mercado de comercialização enfrenta a mais severa crise de liquidez das últimas duas décadas, impulsionada por falhas estruturais na formação de preços e pelo avanço acelerado da transição energética.
No centro das preocupações está o descolamento entre os modelos computacionais que orientam o despacho do Sistema Interligado Nacional (SIN) e a realidade física da operação, um fenômeno que tem gerado sinais econômicos distorcidos, comprometendo decisões de investimento, contratação e gestão de risco.
Descompasso entre preço e operação desafia agentes
A incapacidade dos modelos atuais de refletir com precisão a dinâmica das fontes intermitentes, como eólica e solar, ganhou destaque nos debates. O fenômeno do curtailment, corte de geração renovável, ocorrendo simultaneamente a preços elevados tornou-se um símbolo claro dessa distorção.
Ao analisar esse cenário, o CEO da Volt Robotics, Donato Filho, chamou atenção para inconsistências críticas na sinalização econômica do mercado. “há corte de geração renovável simultaneamente a preços elevados, indicando distorções na sinalização econômica. Os modelos atuais ainda não conseguem refletir com precisão a operação real do sistema.”
A avaliação encontra respaldo técnico no próprio Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O diretor de Planejamento do Operador Nacional do Sistema Elétrico, Alexandre Zucarato, destacou as limitações inerentes às ferramentas atuais frente à complexidade crescente do sistema. “os modelos são necessariamente simplificações da realidade e enfrentam limitações para representar um sistema cada vez mais complexo dentro do tempo exigido para o cálculo.”
Flexibilidade ganha protagonismo e LRCAP se fortalece
A mudança estrutural da matriz elétrica, com maior participação de fontes renováveis intermitentes, tem alterado profundamente a lógica operativa do sistema. O foco, antes concentrado no atendimento à ponta de carga, agora se desloca para a gestão de rampas abruptas de geração e períodos de baixa demanda.
Nesse contexto, o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) emerge como instrumento central não apenas para garantir potência, mas também para assegurar estabilidade financeira a ativos que prestam serviços sistêmicos ainda não plenamente remunerados.
O diretor de Operações do ONS, Christiano Vieira, detalhou essa inflexão operacional: “o desafio deixou de ser apenas atender picos de demanda e passou a incluir também períodos de baixa carga, exigindo maior capacidade de adaptação ao longo do dia.”
Mercado livre enfrenta sua maior crise em 20 anos
A deterioração das condições de liquidez no mercado livre de energia foi outro ponto crítico levantado no evento. A combinação entre volatilidade de preços, dificuldade de contratação e aumento da exposição financeira tem pressionado toda a cadeia, de consumidores a comercializadores.
O presidente executivo da ABRACEEL, Rodrigo Ferreira, fez um alerta direto sobre a gravidade do momento: “O segmento de comercialização enfrenta a maior crise dos últimos 20 anos. A combinação entre preços imprevisíveis, redução de liquidez e dificuldades de contratação tem afetado diretamente consumidores, geradores e comercializadores.”
Fim do “modelo ideal” e urgência por novos produtos
O avanço acelerado da geração distribuída e o crescimento da oferta incentivada ampliaram os desequilíbrios estruturais do setor. Para os especialistas, ajustes incrementais já não são suficientes para reequilibrar o sistema.
A agenda passa, necessariamente, pela criação de novos produtos que valorizem atributos como flexibilidade, resposta da demanda e serviços ancilares, elementos essenciais para garantir a confiabilidade do sistema em um ambiente mais dinâmico e descentralizado.
A diretora da PSR, Angela Gomes, defendeu uma abordagem pragmática diante do cenário: “Não podemos esperar o modelo ideal. Precisamos avançar com o que é possível hoje para evitar que os problemas se agravem no futuro”.
Perspectiva: entre a urgência regulatória e a adaptação do mercado
O consenso entre os participantes do Agenda Setorial 2026 aponta para a necessidade de uma resposta coordenada entre regulação, operação e mercado. O desafio central será alinhar a evolução dos modelos computacionais, os mecanismos de formação de preços e os instrumentos de contratação à nova realidade do sistema elétrico brasileiro.
Em um ambiente marcado por maior volatilidade, digitalização e descentralização, a capacidade de adaptação rápida, tanto regulatória quanto empresarial, tende a se consolidar como o principal diferencial competitivo dos agentes.



