Mercado livre avança e já responde por 42% do consumo de energia no Brasil, aponta estudo da CCEE

Estudo sobre o mercado brasileiro de energia mostra crescimento de 7,3% no ACL em 2025, enquanto mercado regulado recua e setores de saneamento, serviços e comércio aceleram migração para o ambiente livre

O mercado livre de energia segue ampliando sua relevância dentro do setor elétrico brasileiro. A nova edição do EstudoCCEE: Cenários do Mercado Brasileiro de Energia, elaborado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), mostra que o consumo no Ambiente de Contratação Livre (ACL) cresceu 7,3% em 2025, consolidando uma tendência de expansão estrutural desse segmento no país.

Enquanto o mercado livre avançou de forma consistente, o Ambiente de Contratação Regulada (ACR), que concentra principalmente residências e pequenos comércios, registrou retração de 5,1% no consumo. Como resultado desse movimento, o consumo total de eletricidade no Sistema Interligado Nacional (SIN) apresentou leve queda de 0,2% no período.

Os dados reforçam a aceleração da migração de consumidores para o ambiente livre, impulsionada pela busca por maior liberdade de contratação, previsibilidade de custos e acesso a energia renovável. Com isso, o ACL atingiu 42% de toda a energia consumida no Brasil, a maior participação já registrada desde a criação do modelo de comercialização no país.

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Expansão do ACL reflete transformação estrutural no setor elétrico

O avanço do mercado livre ocorre em meio a uma transformação gradual do modelo de consumo de energia no Brasil. Nos últimos anos, mudanças regulatórias e a ampliação do acesso ao ACL para consumidores de menor porte ampliaram significativamente a base de participantes desse ambiente.

A tendência também acompanha a crescente demanda corporativa por contratos de energia renovável e por mecanismos de gestão de custos energéticos. Empresas de diversos setores têm buscado no mercado livre maior flexibilidade na contratação e estratégias de longo prazo para mitigar volatilidade tarifária.

Dentro desse contexto, o crescimento de 7,3% no consumo do ACL em 2025 reforça a consolidação do ambiente como um dos principais motores de expansão do mercado elétrico nacional.

Saneamento lidera crescimento do consumo no mercado livre

A análise setorial realizada pela CCEE revela que o crescimento do mercado livre foi disseminado entre diversos segmentos da economia, mas alguns setores se destacaram de forma mais expressiva ao longo de 2025.

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O setor de saneamento registrou o maior avanço no período, com aumento de 28,3% no consumo de energia no ACL. A expansão está associada à entrada de novos consumidores no ambiente livre, movimento impulsionado pela implementação do novo marco regulatório do setor, que tem estimulado investimentos em infraestrutura intensiva em energia.

Além do saneamento, outros segmentos tradicionalmente atendidos pelo mercado cativo também ampliaram sua participação no ACL.

O setor de serviços apresentou crescimento de 20,6% no consumo, resultado tanto da migração de novas unidades consumidoras quanto da ampliação da demanda de empresas já inseridas no mercado livre. Já o segmento de comércio registrou expansão de 15%, impulsionada principalmente pela entrada de novas unidades consumidoras no ambiente de contratação livre.

Indústria mantém papel central na demanda por energia

Apesar da diversificação da base de consumidores no ACL, a indústria segue como o principal pilar de demanda energética no país.

Em termos de volume absoluto de consumo, os segmentos industriais permanecem como as cargas mais relevantes do sistema. Dentro desse universo, o destaque permanece com o setor de metalurgia e produtos de metal, cuja atividade eletrointensiva mantém forte peso na estrutura de consumo do mercado livre.

Esse perfil reforça a importância da indústria pesada para a dinâmica do sistema elétrico brasileiro, especialmente em estados com forte presença de mineração e metalurgia.

Mercado livre já supera o regulado em alguns estados

A expansão do ACL também se reflete na distribuição regional do consumo de energia no Brasil. A análise da CCEE mostra que, em 2025, alguns estados já registraram maior participação do mercado livre do que do mercado regulado no consumo total de eletricidade.

Entre os principais exemplos estão Pará, Minas Gerais e Paraná, economias com forte presença industrial e grande volume de cargas eletrointensivas.

No Pará e em Minas Gerais, a predominância do mercado livre está fortemente associada às atividades de mineração e metalurgia. Já no Paraná, o crescimento é sustentado por uma base industrial diversificada, com destaque para os setores alimentício, madeira, papel e celulose.

Em termos de crescimento percentual do consumo no ACL, os maiores avanços ocorreram no Acre, com alta de 9,6%, seguido por Maranhão (7,7%) e Pará (4,6%).

Temperaturas mais amenas influenciaram consumo total de energia

Embora o mercado livre tenha apresentado crescimento significativo, o consumo total de energia elétrica no país registrou leve retração em 2025.

Uma das explicações está nas condições climáticas. O ano de 2024 foi marcado por ondas de calor intensas que elevaram o consumo de eletricidade, especialmente em residências e estabelecimentos comerciais devido ao uso de aparelhos de refrigeração.

Já em 2025, temperaturas mais amenas, sobretudo entre abril e novembro, reduziram a demanda por equipamentos como ar-condicionado e ventiladores, impactando principalmente o consumo no mercado regulado.

Outro fator relevante foi o avanço da micro e minigeração distribuída, especialmente sistemas solares instalados em telhados. Como essa energia é gerada e consumida localmente, ela reduz a demanda registrada pelas distribuidoras, aparecendo nas estatísticas como uma queda no consumo do mercado regulado.

Renováveis dominam geração de energia no Brasil

Pelo lado da oferta, os dados compilados pela CCEE reforçam a posição do Brasil como uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo. Em 2025, 90% da eletricidade gerada no país teve origem em fontes renováveis, o equivalente a 65.129 MW médios de um total de 72.339 MW médios produzidos.

A geração hidrelétrica continuou liderando a matriz, respondendo por 62,2% da produção total, embora com leve redução em relação aos 65,7% registrados no ano anterior. Já as fontes eólica e solar ampliaram sua participação na matriz elétrica, representando 17,9% e 5,3% da geração nacional, respectivamente. Esse avanço é sustentado pela expansão da capacidade instalada do país, que já ultrapassa 220 GW, dos quais 86,5% pertencem a fontes renováveis.

A região Nordeste desempenha papel central nesse crescimento, tendo adicionado 4,6 GW de nova capacidade renovável ao Sistema Interligado Nacional em 2025, consolidando-se como um dos principais polos de geração limpa do país.

Mercado livre se consolida como motor da modernização do setor

A evolução dos dados apresentados no estudo da CCEE indica que o mercado livre tende a assumir papel cada vez mais relevante na estrutura do setor elétrico brasileiro.

A ampliação do acesso ao ACL, aliada à busca crescente por contratos de energia renovável e estratégias corporativas de gestão de custos, reforça a tendência de migração de consumidores para esse ambiente.

Ao mesmo tempo, a expansão da geração renovável e o avanço da geração distribuída indicam que o setor elétrico brasileiro continuará passando por mudanças estruturais relevantes nos próximos anos, com impactos diretos sobre a dinâmica de consumo, contratação e comercialização de energia no país.

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