Relatório técnico da Empresa de Pesquisa Energética detalha rotas tecnológicas, oportunidades para transporte pesado e obstáculos para competitividade frente aos veículos elétricos a bateria
A descarbonização do setor de transportes entrou definitivamente no radar da política energética brasileira. Um novo estudo divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) analisa o potencial do hidrogênio como vetor energético para mobilidade e aponta que a tecnologia pode desempenhar papel estratégico especialmente em segmentos de difícil eletrificação, como transporte pesado e aplicações de longa distância.
O relatório técnico, publicado na forma de Fact Sheet, examina as principais rotas tecnológicas para utilização do hidrogênio no transporte, suas vantagens ambientais e os desafios econômicos e operacionais que ainda limitam sua competitividade frente a outras alternativas, como os veículos elétricos a bateria. FS-
A análise também destaca o posicionamento estratégico do Brasil no mercado global emergente de hidrogênio de baixa emissão. De acordo com estimativas citadas no documento, o país possui potencial de produção superior a 14 vezes a demanda mundial registrada em 2018, o que reforça o interesse internacional na cadeia brasileira de energia limpa.
Hidrogênio como alternativa para descarbonizar o transporte
O setor de transportes permanece como um dos principais emissores de gases de efeito estufa no mundo devido à forte dependência de combustíveis fósseis, especialmente derivados de petróleo. Esse cenário pressiona governos e empresas a buscar soluções tecnológicas capazes de reduzir emissões sem comprometer eficiência logística e competitividade econômica.
Entre as alternativas avaliadas, o hidrogênio surge como um vetor energético promissor, sobretudo quando produzido a partir de fontes renováveis. Nessa condição, sua utilização em veículos automotores elimina emissões diretas de dióxido de carbono durante a operação, tendo a água como principal subproduto do processo energético.
O estudo da EPE aponta que a aplicação do hidrogênio na mobilidade pode ocorrer por duas rotas tecnológicas principais: a combustão direta em motores adaptados e a geração de eletricidade por meio de células a combustível.
Duas rotas tecnológicas para veículos movidos a hidrogênio
A primeira rota consiste na combustão direta do hidrogênio em motores de combustão interna, tecnologia que apresenta funcionamento semelhante ao dos veículos movidos a gás natural veicular (GNV). Nesse caso, o hidrogênio armazenado em cilindros de alta pressão é conduzido ao motor e queimado em contato com o oxigênio do ar, liberando energia mecânica para movimentar o veículo.
A segunda rota envolve os veículos elétricos com célula a combustível, conhecidos pela sigla FCEV (Fuel Cell Electric Vehicles). Nessa configuração, o hidrogênio alimenta uma reação eletroquímica que gera eletricidade diretamente dentro do veículo, acionando motores elétricos semelhantes aos utilizados nos carros elétricos convencionais.
Esse sistema também utiliza baterias auxiliares de menor porte para estabilizar o fornecimento de energia, garantindo eficiência operacional e autonomia adequada. Em ambas as tecnologias, o hidrogênio elimina emissões diretas de CO₂ durante o uso veicular, contribuindo para a mitigação das emissões no setor de transportes.
Vantagens competitivas no transporte pesado
Embora os veículos elétricos a bateria avancem rapidamente no segmento de automóveis leves, a análise da EPE indica que o hidrogênio pode se tornar uma solução mais adequada para aplicações de grande porte.
Entre os setores com maior potencial de adoção estão caminhões de longa distância, ônibus intermunicipais, ferrovias e equipamentos industriais off-road. Nessas aplicações, as baterias enfrentam limitações relacionadas ao peso, ao espaço ocupado e ao tempo necessário para recarga.
Além do impacto climático, a tecnologia também contribui para melhorar a qualidade do ar nas cidades ao reduzir poluentes atmosféricos como óxidos de nitrogênio (NOₓ), óxidos de enxofre (SOₓ) e material particulado.
Outra vantagem estratégica apontada no estudo está na possibilidade de integração do hidrogênio com fontes renováveis, como energia solar e eólica, ampliando a diversificação da matriz energética e reduzindo a dependência de combustíveis fósseis.
Desafios econômicos e limitações tecnológicas
Apesar do potencial, o relatório destaca que o hidrogênio ainda enfrenta obstáculos significativos para alcançar competitividade no transporte.
O principal desafio está no custo de produção do hidrogênio de baixa emissão, que ainda permanece elevado quando comparado aos combustíveis fósseis e, em muitos casos, à eletrificação direta por baterias.
Outro fator crítico envolve a eficiência energética da cadeia. De acordo com o estudo, veículos elétricos a bateria mantêm uma eficiência acumulada próxima de 77% entre geração de energia e uso veicular, enquanto veículos com célula a combustível retêm cerca de 26%, devido às perdas nas etapas de produção, compressão, transporte e conversão do hidrogênio.
A infraestrutura também representa um gargalo relevante. O hidrogênio exige sistemas específicos para armazenamento, transporte e abastecimento, além de protocolos rigorosos de segurança por se tratar de um gás altamente inflamável.
Programa Nacional do Hidrogênio estrutura o mercado brasileiro
A evolução do hidrogênio no Brasil deve ocorrer de forma gradual, acompanhando avanços tecnológicos e a criação de marcos regulatórios mais claros para o setor.
Nesse contexto, o Programa Nacional do Hidrogênio (PNH2) estabelece diretrizes para o desenvolvimento de tecnologias nacionais de produção, armazenamento e utilização do hidrogênio sustentável.
O programa busca criar condições para atrair investimentos, incentivar pesquisa e estruturar uma cadeia produtiva capaz de integrar o hidrogênio à transição energética brasileira.
Com a corrida global por soluções de baixo carbono e a expansão de projetos de hidrogênio renovável em diversas regiões do mundo, o país tenta posicionar-se como um dos principais polos de produção e exportação desse novo vetor energético.



