Expansão bilionária do setor bioenergético pressiona oferta de biomassa e coloca eficiência térmica e gestão do vapor no centro da competitividade das novas plantas industriais
A rápida expansão do etanol de milho no Brasil inaugura uma nova etapa para a bioenergia nacional. Com produção projetada para atingir 10 bilhões de litros até o fim de 2025, o segmento entra em um ciclo robusto de investimentos que promete ampliar a presença do biocombustível na matriz energética e no agronegócio brasileiro.
Ao mesmo tempo, o crescimento acelerado traz à tona um desafio estrutural que começa a preocupar investidores e operadores industriais: a segurança energética das usinas, especialmente no que se refere ao acesso à biomassa utilizada para geração de vapor nos processos produtivos.
O tema ganhou destaque durante a BioMilho, realizada em Ribeirão Preto (SP), onde executivos do setor discutiram o impacto da expansão industrial sobre a disponibilidade de insumos energéticos. Entre as apresentações do encontro, a análise conduzida por Ricardo Blandy, diretor comercial da ComBio, trouxe um panorama estratégico sobre os riscos energéticos associados à nova onda de projetos de etanol de milho no país.
Nova fase do etanol de milho mobiliza bilhões em investimentos
A indústria brasileira de etanol de milho consolidou-se nos últimos anos como um dos segmentos mais dinâmicos do agronegócio e da bioenergia. Impulsionado pelo aumento da produção agrícola e pela demanda por combustíveis renováveis, o setor vive um ciclo acelerado de expansão industrial.
Dados da União Nacional do Etanol de Milho indicam que a produção nacional deve alcançar 10 bilhões de litros anuais até 2025, praticamente consolidando o Brasil como um dos principais polos globais dessa tecnologia.
No pipeline de investimentos, mais de 35 novos empreendimentos foram anunciados no país. Desse total, aproximadamente 20 projetos devem avançar nos próximos anos, mobilizando cerca de R$ 21,6 bilhões em investimentos.
Grande parte dessa expansão está concentrada na região Centro-Oeste, onde a proximidade com a produção de milho e a disponibilidade logística favorecem a instalação de novas plantas industriais. Contudo, a multiplicação de usinas traz um efeito colateral relevante: o aumento da demanda por biomassa destinada à geração de vapor industrial, elemento essencial para o funcionamento das unidades produtoras.
Demanda por biomassa cresce e pressiona cadeia energética
A expansão prevista para o setor deverá gerar uma demanda adicional estimada em 6,8 milhões de toneladas de biomassa por ano, pressionando um mercado que já apresenta sinais de competição entre diferentes cadeias produtivas.
Em diversos polos industriais do país, usinas de etanol de milho disputam o mesmo insumo com setores como fertilizantes, processamento de grãos e indústrias madeireiras, criando um cenário de crescente tensão sobre a oferta de biomassa. Nesse contexto, a geração de vapor assume papel ainda mais estratégico dentro da estrutura econômica das usinas.
Durante a apresentação realizada na BioMilho, Ricardo Blandy destacou que o vapor representa o segundo maior custo da produção de etanol de milho, ficando atrás apenas do próprio grão utilizado como matéria-prima. A relevância desse insumo térmico faz com que sua gestão impacte diretamente a competitividade das operações industriais.
“Quando falamos em margens cada vez mais pressionadas, 1% ou 2% fazem diferença real na competitividade do projeto. O vapor é o segundo maior custo da operação. Portanto, qualquer ganho de eficiência térmica tem impacto direto no resultado”, afirma Blandy.
Eficiência energética passa a ser fator de competitividade
Diante da pressão crescente sobre custos e suprimentos, especialistas do setor indicam que a gestão energética das usinas deixou de ser apenas um componente operacional e passou a integrar o planejamento estratégico dos projetos.
Modelos especializados de operação térmica e gestão de biomassa podem gerar ganhos relevantes de eficiência, reduzindo em cerca de 10% o custo associado à geração de vapor.
Esse tipo de melhoria operacional pode representar um aumento entre 1% e 2% na margem final das operações, percentual considerado significativo em um setor caracterizado por margens estreitas e forte volatilidade de preços. Além do impacto financeiro, a previsibilidade do suprimento energético tornou-se um fator crítico para garantir a continuidade das operações industriais.
“A gestão da biomassa precisa ser pensada desde o início, com previsibilidade de suprimento e estrutura dedicada, porque a usina simplesmente não opera sem vapor. Sem planejamento de longo prazo, o risco deixa de ser apenas de custo e passa a ser de continuidade operacional”, complementa Blandy.
Origem da biomassa também entra no radar dos investidores
Outro aspecto que ganha relevância no avanço do etanol de milho é o debate sobre sustentabilidade e rastreabilidade da biomassa utilizada nas plantas industriais.
Embora a legislação brasileira permita a supressão legal de vegetação nativa dentro das regras do Código Florestal Brasileiro, a prática tem enfrentado crescente escrutínio ambiental por parte de mercados internacionais e investidores institucionais.
Projetos industriais com horizonte de operação de várias décadas precisam cada vez mais demonstrar cadeias de suprimento sustentáveis e rastreáveis, especialmente diante da crescente importância de critérios ESG na avaliação de investimentos.
Nesse cenário, empresas que estruturarem cadeias estáveis de biomassa e modelos energéticos mais eficientes tendem a reduzir riscos reputacionais e fortalecer sua atratividade para financiadores.
Matriz energética das usinas pode definir ritmo de expansão do setor
O debate realizado na BioMilho evidencia que a expansão do etanol de milho no Brasil não depende apenas da disponibilidade de grãos ou de investimentos industriais.
A forma como as usinas irão estruturar sua matriz energética e suas cadeias de suprimento de biomassa poderá determinar quais projetos conseguirão preservar competitividade em um mercado cada vez mais disputado.
Ao reunir executivos, investidores e fornecedores da cadeia bioenergética, o evento reforçou o papel do interior paulista como espaço de articulação estratégica do agronegócio e da bioenergia no país.
Com novos projetos saindo do papel e a competição por biomassa se intensificando, o desafio energético das usinas tende a ganhar protagonismo nas decisões de investimento, influenciando diretamente o ritmo de expansão de um dos setores mais promissores da bioenergia brasileira.



