Brasil firma acordos com Índia e Coreia do Sul e reforça estratégia global em minerais críticos

Com 10% das reservas mundiais, país busca avançar do estágio de exportador de commodities para protagonista na cadeia de valor da transição energética

Os recentes acordos firmados pelo Brasil com Índia e Coreia do Sul para cooperação em minerais críticos recolocam o país no centro da disputa geopolítica por insumos estratégicos à transição energética e à economia digital. Em um cenário global marcado pela reorganização das cadeias de suprimento e pela busca de segurança energética, o movimento sinaliza uma tentativa de reposicionamento brasileiro além da exportação de commodities minerais.

O debate sobre minerais críticos, essenciais para baterias, veículos elétricos, geração renovável, armazenamento de energia e semicondutores, tornou-se peça-chave na política industrial de grandes economias. Para o setor elétrico, o tema é estrutural: a expansão de energias renováveis, redes inteligentes e sistemas de armazenamento depende diretamente da disponibilidade e do processamento desses recursos.

Potencial geológico versus baixa produção

O Brasil detém cerca de 10% das reservas globais de minerais críticos, o equivalente a aproximadamente 142 milhões de toneladas métricas. Apesar desse volume expressivo, responde por apenas 0,09% da produção mundial, um descompasso que evidencia gargalos estruturais na cadeia nacional.

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A demanda global por minerais críticos deve triplicar até 2040, impulsionada pela eletrificação da economia, pela expansão das energias renováveis e pela digitalização, conforme dados da Agência Internacional de Energia (AIE). A projeção foi destacada no estudo “Minerais Críticos do Futuro e o Papel Estratégico do Brasil na Transição para uma Economia de Baixo Carbono”, elaborado pela AYA Earth Partners e pela Deloitte em 2025.

O cenário global é marcado por elevada concentração no refino e processamento. A China concentra mais de 60% do mercado global de refino desses minerais, o que levou países como Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e membros da União Europeia a intensificarem estratégias de diversificação de fornecedores.

Nesse contexto, o Brasil surge como alternativa potencialmente relevante, desde que consiga transformar sua vantagem comparativa, abundância de reservas, em vantagem competitiva, com capacidade industrial, segurança regulatória e padrões ambientais robustos.

Neoindustrialização verde e agregação de valor

A discussão sobre minerais críticos vai além da extração mineral. Trata-se de uma agenda industrial, tecnológica e estratégica, com impactos diretos sobre a competitividade do setor elétrico e sobre a inserção internacional do país.

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Estudo da AYA Earth Partners e da Deloitte estima que, caso o Brasil avance na produção e no refino desses minerais, o impacto econômico pode alcançar até R$ 243 bilhões adicionais no PIB até 2050.

“Minerais críticos são a base física da transição energética e digital. Nosso país tem vantagens comparativas claras, mas precisa transformá-las em vantagens competitivas, agregando valor, desenvolvendo processamento local e garantindo padrões socioambientais elevados. Não se trata apenas de exportar minério, mas de construir uma estratégia de neoindustrialização verde que gere empregos qualificados, atraia capital e fortaleça a soberania produtiva”, destaca Patricia Ellen, fundadora da AYA.

A declaração reforça a necessidade de políticas públicas coordenadas que integrem diplomacia econômica, política industrial e agenda climática. Para o setor elétrico, a consolidação de uma cadeia nacional de minerais críticos pode reduzir vulnerabilidades externas e fortalecer a indústria associada à geração renovável, armazenamento de energia e mobilidade elétrica.

Diplomacia econômica e segurança de suprimento

Os acordos com Índia e Coreia do Sul devem ser interpretados como parte de uma estratégia mais ampla de inserção do Brasil nas cadeias globais de valor da transição energética. Ambos os países possuem forte indústria tecnológica e demanda crescente por insumos estratégicos, especialmente para baterias, eletrônicos e veículos elétricos.

Ao firmar parcerias bilaterais, o Brasil amplia sua relevância como fornecedor potencial em um ambiente de crescente competição geopolítica. No entanto, especialistas apontam que o sucesso da estratégia dependerá de fatores estruturais: mapeamento geológico detalhado, segurança jurídica para investidores, modernização do marco regulatório da mineração, estímulo ao refino local e formação de mão de obra qualificada.

Além disso, mecanismos financeiros capazes de reduzir riscos e atrair capital privado serão determinantes para viabilizar projetos de maior intensidade tecnológica. Sem esses avanços, o país corre o risco de permanecer como elo primário da cadeia, exportando minério bruto e importando produtos de maior valor agregado.

Impactos para o setor elétrico e a transição energética

Para o setor elétrico brasileiro, a consolidação de uma estratégia nacional em minerais críticos pode representar ganho estrutural de competitividade. A expansão da geração solar e eólica, o crescimento do armazenamento em baterias e o avanço das redes inteligentes demandam insumos estratégicos cuja oferta global tende a se tornar mais disputada.

Ao alinhar acordos internacionais, política industrial e agenda de descarbonização, o Brasil pode fortalecer sua posição na economia de baixo carbono e reduzir sua exposição a choques externos de suprimento.

O movimento recente indica que o país busca ocupar espaço relevante na geopolítica dos minerais críticos. A efetividade dessa estratégia, contudo, dependerá da capacidade de transformar potencial geológico em política de Estado consistente, integrada e de longo prazo.

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