Energia para IA, IA para energia: como projetar data centers preparados para a era da inteligência artificial

Por Luis Cuevas, diretor de Secure Power e Negócios de Data Centers da Schneider Electric no Brasil

A indústria de data centers sempre evoluiu em ciclos de inovação – da virtualização à computação em nuvem. A inteligência artificial (IA), no entanto, deu a largada para uma fase distinta marcada pela combinação inédita de capacidade computacional e demanda energética. Segundo estimativas da Bloomberg, o mercado de IA generativa pode alcançar US$ 1,3 trilhão até 2032, enquanto a PwC projeta uma contribuição de até US$ 15,7 trilhões para a economia global até 2030. Nesse contexto, as cargas de trabalho de IA devem representar cerca de 36% da capacidade dos data centers, adicionando mais de 150 gigawatts à carga global de energia.

Esse avanço torna evidente que a relação entre IA e energia não é mais unilateral. Se, por um lado, os data centers precisam fornecer potência suficiente para sustentar o crescimento da IA, por outro, a própria inteligência artificial pode (e acrescento, deve) ser utilizada para otimizar o consumo energético, acelerar a descarbonização e assegurar que a expansão digital não comprometa metas ambientais. Trata-se de uma dinâmica de mão dupla: energia para a IA e IA para a energia.

Os racks dedicados ao treinamento de modelos de IA já executam com níveis entre 100 e 140 quilowatts, criando cargas densas, variáveis e difíceis de prever. Simplesmente ampliar a oferta de energia não é uma resposta sustentável. Sem inteligência na gestão, esse caminho costuma gerar desperdícios, pressão sobre as redes elétricas e incremento das emissões. A alternativa está na implementação de sistemas energéticos inteligentes aptos para picos de consumo, ajustar operações em tempo real e adequar cargas intensivas à maior disponibilidade de fontes renováveis.

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Com isso, os data centers deixam de ser consumidores passivos de energia para se transformarem em ecossistemas energéticos conscientes. Algoritmos preditivos, orquestração inteligente de cargas e gestão flexível de potência permitem equilibrar desempenho, resiliência e responsabilidade ambiental. A integração entre rede elétrica, geração renovável local e sistemas de armazenamento fortalece a confiabilidade operacional e reduz impactos ambientais, especialmente em um cenário de transição energética.

E o protagonismo da refrigeração, um dos maiores centros de consumo energético nos data centers, ganha papel estratégico nesse novo ciclo. Com o aumento das densidades de potência, os sistemas tradicionais de ar atingem seus limites, impulsionando a adoção da refrigeração líquida. Ao remover o calor diretamente no nível do chip, essa tecnologia oferece eficiência muito superior e abre espaço para uma gestão térmica alinhada à sustentabilidade, com menor uso de água e possibilidade de reaproveitamento do calor residual em aplicações industriais ou agrícolas.

Preparar data centers para a era da IA exige, portanto, uma abordagem integrada desde o projeto. Energia, refrigeração e gestão digital necessitam operar de forma coordenada – da rede elétrica ao chip, do chip ao sistema de resfriamento. Projetos desenvolvidos com essa lógica demonstram que é possível lidar com altas densidades computacionais sem possibilitar que o consumo energético cresça de forma descontrolada, como confirma o relatório Inteligência Artificial para a Transição Energética.

No longo prazo, os data centers mais competitivos serão definidos por sua contribuição aos ecossistemas energéticos mais amplos. Infraestruturas preparadas para a IA tendem a atuar como parceiras das redes elétricas, como agentes de eficiência e habilitadoras da descarbonização em diversos setores da economia.

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A IA está redesenhando o futuro da infraestrutura digital. O desafio agora é garantir que esse progresso venha acompanhado de decisões responsáveis capazes de alinhar crescimento, eficiência energética e sustentabilidade. Energia para a IA e IA para a energia não são conceitos opostos, mas complementares. Será essa convergência que vai determinar os líderes da próxima geração de data centers.

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