Fontes como solar, eólica e PCH crescem quase 68% em valor financeiro e ganham protagonismo em um ano de estabilidade do mercado total de energia
O mercado livre de energia encerrou 2025 com um dado emblemático para a transição energética no Brasil: as fontes renováveis responderam por R$ 11,6 bilhões em negociações na plataforma da BBCE (Balcão Brasileiro de Comercialização de Energia), registrando crescimento de 67,8% em relação ao ano anterior. Na comparação com 2023, o avanço foi ainda mais expressivo, de 114,5%, consolidando a trajetória de expansão das fontes alternativas no ambiente de contratação livre.
O volume financeiro reflete a intensificação do interesse de consumidores e comercializadores por energia limpa, em um contexto de maior maturidade do mercado, ampliação do acesso ao ACL e busca por contratos alinhados a critérios de sustentabilidade, previsibilidade de custos e descarbonização.
Ao todo, foram firmados cerca de 6,8 mil contratos envolvendo energia renovável em 2025, que somaram 47.098 GWh (gigawatts-hora) transacionados. De acordo com estimativa da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), esse montante seria suficiente para atender aproximadamente 22 milhões de residências ao longo de um ano.
Renováveis avançam apesar de desafios operacionais
Em termos de volume físico, a energia negociada a partir de fontes renováveis cresceu 14,7% em relação a 2024, quando o mercado foi fortemente impactado por restrições de escoamento de geração, especialmente no Nordeste, em função do curtailment. Mesmo assim, o resultado de 2025 ainda ficou cerca de 5% abaixo do pico observado em 2023, indicando que gargalos estruturais, como a expansão da transmissão, seguem como fator limitante para um crescimento ainda mais acelerado.
Ainda assim, a recuperação do volume negociado e, sobretudo, a forte valorização financeira sinalizam uma recomposição da dinâmica do mercado, com maior sofisticação dos contratos, maior participação de consumidores de médio porte e consolidação de estratégias corporativas voltadas ao consumo de energia limpa.
Desempenho supera mercado total da BBCE
O avanço das renováveis contrasta com o desempenho do mercado total de energia na BBCE. Considerando todas as fontes, a plataforma movimentou cerca de R$ 89 bilhões em 2025, com variação praticamente estável de 0,4% frente ao ano anterior.
No entanto, o número de contratos caiu 22,4%, para 78 mil operações, enquanto o volume energético total recuou 33,2%, atingindo 384 TWh (terawatts-hora). O movimento indica um mercado mais concentrado, com menos operações, mas com tíquetes médios mais elevados e maior seletividade nas transações.
Nesse contexto, as renováveis se destacam como o principal vetor de crescimento dentro de um mercado que, no agregado, operou em compasso de espera.
Dezembro reforça protagonismo das fontes alternativas
O último mês de 2025 foi particularmente simbólico para o segmento. Em dezembro, fontes como eólica, solar, cogeração e pequenas centrais hidrelétricas responderam por 5.261 GWh negociados, frente a 1.970 GWh em novembro.
O volume financeiro alcançou R$ 1,38 bilhão, representando um crescimento de 133,9% na comparação mensal e uma expansão de 360% em relação a dezembro de 2024. No período, foram registradas 482 operações, evidenciando uma intensificação do apetite do mercado por contratos lastreados em energia renovável.
O desempenho de dezembro sugere não apenas um efeito sazonal de fechamento de posições e planejamento contratual para 2026, mas também a consolidação de uma mudança estrutural na matriz de comercialização, em que fontes alternativas deixam de ocupar um papel complementar e passam a ser centrais na estratégia de consumidores livres.
Renováveis e a nova lógica do mercado livre
Os números da BBCE reforçam uma tendência já percebida pelos agentes do setor: a transição energética no Brasil não se dá apenas pela expansão da oferta, mas também pela reconfiguração do comportamento da demanda. Consumidores livres, especialmente dos segmentos industrial e de serviços, têm incorporado a energia renovável como elemento estratégico de competitividade, gestão de risco e posicionamento ESG.
Além disso, a maior liquidez desses ativos no mercado secundário indica que a energia limpa começa a se consolidar também como instrumento financeiro relevante, com contratos mais padronizados, maior previsibilidade de preços e crescente sofisticação dos produtos comercializados.
Do ponto de vista sistêmico, o avanço das renováveis no mercado livre reforça a necessidade de acelerar investimentos em infraestrutura de transmissão, armazenamento e flexibilidade operativa, para que o crescimento da oferta se traduza, de fato, em maior eficiência econômica e segurança energética.



