Pesquisa da ANBIMA e Datafolha mostra que 33% das instituições financeiras pretendem lançar fundos sustentáveis, enquanto finanças verdes superam R$ 52 bilhões no Brasil
As estratégias ESG (ambientais, sociais e de governança) deixaram de ser um diferencial de nicho e passaram a ocupar posição central na agenda das gestoras e instituições financeiras no Brasil. Uma pesquisa conjunta da ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) e do Datafolha revela que um terço (33%) das instituições financeiras pretende estruturar fundos sustentáveis ao longo do próximo ano, evidenciando a consolidação das finanças verdes como vetor relevante de alocação de capital.
O movimento acompanha a expansão de produtos financeiros que integram critérios de sustentabilidade, impacto socioambiental e governança corporativa, impulsionando a canalização de recursos para projetos associados à transição energética, especialmente nos segmentos de energia renovável, infraestrutura limpa e mobilidade sustentável.
Finanças verdes ganham escala no mercado brasileiro
Dados de mercado mostram que, no Brasil, os fundos sustentáveis já alcançam um patrimônio líquido estimado em mais de R$ 52 bilhões. O volume representa um crescimento de 59% nos últimos 12 meses até outubro de 2025, com captação líquida de aproximadamente R$ 11,4 bilhões no período.
Embora ainda correspondam a uma fatia minoritária do total de ativos sob gestão, esses números indicam uma inflexão relevante no perfil de risco e retorno buscado por investidores institucionais e gestores de recursos. A incorporação de métricas ESG passa a ser vista não apenas como ferramenta de reputação, mas como instrumento de mitigação de riscos financeiros, regulatórios e climáticos.
No setor elétrico, essa mudança se traduz em maior disponibilidade de capital para projetos de geração solar, eólica, biomassa, hidrogênio verde, armazenamento de energia e redes inteligentes, áreas diretamente associadas à redução de emissões e à modernização da matriz energética.
Sustentabilidade como critério de segurança financeira
Para Gian Albertin, Diretor de Desenvolvimento de Negócios da NewSun Energy, o avanço dos fundos sustentáveis reflete uma mudança estrutural na lógica de alocação de capital, na qual sustentabilidade e resiliência se tornam critérios centrais de avaliação de risco.
“Quando um terço das instituições financeiras passa a estruturar fundos sustentáveis, não estamos falando de tendência passageira, mas de uma mudança estrutural na forma como o capital avalia risco, previsibilidade e retorno. Projetos de energia renovável e infraestrutura limpa passam a acessar funding mais competitivo justamente porque entregam estabilidade operacional e visão de longo prazo com foco em sustentabilidade, algo cada vez mais valorizado pelos investidores”, afirma Albertin.
Na prática, isso significa que empreendimentos alinhados à agenda ESG conseguem acessar linhas de financiamento com prazos mais longos, menor custo de capital e maior apetite dos investidores, sobretudo em um contexto de maior rigor regulatório e pressão por metas de descarbonização.
Títulos verdes e debêntures fortalecem a transição energética
Além dos fundos sustentáveis, as finanças verdes têm se consolidado no Brasil por meio de instrumentos de mercado de capitais, como green bonds (títulos verdes), sustainability-linked bonds e debêntures incentivadas.
Segundo dados do setor, as emissões desses ativos já superaram R$ 97 bilhões em ofertas até 2025, com forte concentração em projetos de energia elétrica, logística sustentável, saneamento, eficiência energética e infraestrutura com impacto climático positivo.
Esse movimento amplia as fontes de financiamento para projetos de geração renovável e transmissão de energia, reduzindo a dependência de crédito bancário tradicional e estimulando a participação de investidores institucionais, como fundos de pensão e seguradoras.
Ao analisar esse processo, Albertin destaca que a lógica do ESG vem sendo incorporada como estratégia de proteção patrimonial. “O investidor institucional entendeu que ESG não é custo adicional, é proteção de capital. Em energia renovável e infraestrutura limpa, isso se traduz em ativos mais resilientes, contratos mais longos e menor volatilidade de caixa, exatamente o que o capital privado busca”, complementa.
Tendência global reforça apetite por ativos limpos
O avanço das estratégias ESG no Brasil está alinhado a uma tendência global de fortalecimento da economia verde. Em 2024, cerca de US$ 807 bilhões foram direcionados a projetos de energia limpa no mundo, superando médias históricas e indicando a confiança dos investidores no potencial de longo prazo do setor, mesmo em um cenário de instabilidade macroeconômica e tensões geopolíticas.
As projeções internacionais apontam que os investimentos globais em energia renovável devem dobrar até 2030, impulsionados por compromissos climáticos, políticas de descarbonização e expansão dos mercados de carbono. Nesse contexto, a emissão de títulos verdes deve ultrapassar US$ 160 bilhões nos próximos anos, consolidando-se como um dos principais instrumentos de financiamento da transição energética.
ESG como vetor estratégico para o setor elétrico
A pesquisa da ANBIMA e do Datafolha reforça que, embora os fundos sustentáveis ainda representem uma parcela relativamente pequena do total de ativos financeiros no país, a base de instituições comprometidas com critérios ESG cresce de forma consistente.
Para o setor elétrico, esse movimento é particularmente relevante. A ampliação das finanças verdes cria um ambiente mais favorável à viabilização de projetos de geração renovável, armazenamento, modernização de redes e eletrificação de setores intensivos em carbono, como transporte e indústria.
Mais do que uma tendência conjuntural, o avanço do ESG sinaliza uma transformação estrutural no sistema financeiro, no qual sustentabilidade, governança e impacto ambiental deixam de ser fatores acessórios e passam a integrar o núcleo das decisões de investimento. Nesse cenário, a transição energética não apenas ganha novas fontes de financiamento, como se consolida como uma das principais fronteiras de crescimento econômico e inovação no Brasil e no mundo.



