Estudo global da KPMG revela que inteligência artificial já é vista como ferramenta estratégica para eficiência energética, redução de emissões e gestão de riscos, mas aponta gargalos na governança e na capacitação das equipes
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a ocupar o centro das decisões estratégicas das empresas de energia, recursos naturais e químicos. É o que revela a mais recente edição do estudo “KPMG 2025 Global Energy, Natural Resources and Chemicals”, que ouviu executivos do setor em diversos países e aponta uma transformação estrutural na forma como as companhias planejam eficiência operacional, descarbonização e gestão de riscos.
De acordo com o levantamento, 82% dos CEOs do setor acreditam que a inteligência artificial pode contribuir diretamente para a redução de emissões e para a otimização do uso de energia, especialmente por meio de análises preditivas, automação de processos e monitoramento em tempo real. Ao mesmo tempo, 74% afirmam que a tecnologia tem potencial para aprimorar a análise de riscos climáticos, permitindo decisões mais assertivas em um cenário de crescente volatilidade ambiental.
Apesar do otimismo, o estudo revela uma contradição relevante: a incorporação efetiva da IA às estratégias corporativas ainda esbarra em desafios estruturais, especialmente no campo da governança, da qualificação profissional e da integração entre tecnologia e decisões de negócio.
IA como vetor da transição energética
O levantamento da KPMG indica que a inteligência artificial deixou de ser vista apenas como uma ferramenta de eficiência operacional e passou a ocupar um papel estratégico na transição energética. Em um setor pressionado por metas de descarbonização, aumento da demanda e eventos climáticos extremos, a capacidade de processar grandes volumes de dados em tempo real tornou-se um diferencial competitivo.
A expectativa dos executivos é que a IA permita desde a otimização do despacho de energia até a antecipação de falhas em ativos críticos, reduzindo custos, perdas e emissões. A tecnologia também é vista como fundamental para apoiar decisões relacionadas à expansão de capacidade, integração de fontes renováveis e adaptação das redes elétricas a um ambiente mais descentralizado e digitalizado.
No entanto, apesar do entusiasmo, o estudo mostra que apenas 38% das empresas afirmam integrar plenamente critérios ESG às decisões de capital, evidenciando um descompasso entre discurso e prática. Esse dado reforça a percepção de que a adoção da IA ainda ocorre de forma fragmentada, sem uma governança suficientemente madura para sustentar transformações estruturais.
Governança e gestão de riscos ainda são gargalos
Embora 79% dos CEOs reconheçam que a inteligência artificial pode aprimorar a qualidade dos dados e das divulgações relacionadas à sustentabilidade, apenas 26% se dizem muito confiantes nas práticas de governança atualmente implementadas. Esse hiato preocupa, especialmente em um contexto em que decisões automatizadas passam a influenciar investimentos bilionários, segurança operacional e compromissos ambientais de longo prazo.
A pesquisa aponta que eventos climáticos extremos e desastres ambientais figuram entre os principais fatores de risco para 27% dos executivos entrevistados, percentual superior ao de qualquer outro setor analisado. Esse dado reforça a urgência de integrar inteligência climática, planejamento energético e gestão de riscos corporativos em uma mesma estratégia.
Nesse contexto, a governança deixa de ser apenas um requisito regulatório e passa a ser um pilar de competitividade. A ausência de estruturas claras para validar dados, supervisionar algoritmos e garantir transparência pode comprometer a credibilidade de iniciativas baseadas em IA, além de gerar riscos reputacionais e regulatórios.
A visão da liderança: tecnologia, pessoas e estratégia
Ao explicar os resultados do estudo, o sócio líder do setor de energia e recursos naturais da KPMG no Brasil e na América do Sul, Manuel Fernandes, destaca que a transformação em curso exige uma mudança profunda na forma como as empresas se organizam e tomam decisões.
“Os resultados deste ano mostraram que grandes mudanças estão em andamento. Os CEOs estão repensando a abordagem para a transição energética e retreinando equipes para acompanhar a ascensão da IA. Eles reconhecem que a sustentabilidade não é apenas um elemento essencial na estratégia, mas se tornou inegociável para a forma como as empresas operam. Com isso, o apelo por governança e supervisão mais fortes será mais importante do que nunca.”
A fala sintetiza um movimento observado em todo o setor: a percepção de que tecnologia, sustentabilidade e governança não podem mais ser tratadas como frentes isoladas. A integração entre esses pilares é condição básica para a competitividade no médio e longo prazo.
Capacitação profissional como fator crítico
Outro ponto de destaque do estudo é a lacuna de competências. Embora 40% dos CEOs afirmem estar intensificando programas de requalificação profissional, apenas 18% oferecem treinamentos amplos e estruturados voltados ao uso da inteligência artificial em toda a organização. Ao mesmo tempo, 72% estão priorizando a retenção e o desenvolvimento de talentos estratégicos, reconhecendo que a disputa por profissionais qualificados se tornou um dos maiores gargalos do setor.
A dificuldade de formação é agravada pela concorrência com empresas de tecnologia, que oferecem salários mais elevados e atraem talentos especializados. Não por acaso, 43% dos executivos apontam a falta de competências adequadas como o principal obstáculo à adoção da IA, à frente até mesmo de questões regulatórias e de segurança cibernética.
Um setor em transformação estrutural
Os dados do estudo da KPMG revelam um setor elétrico em plena transição: mais digital, mais pressionado por metas ambientais e cada vez mais dependente de decisões baseadas em dados. Ao mesmo tempo, expõem a distância entre ambição e execução, especialmente no que diz respeito à governança e à capacitação das pessoas.
Para que a inteligência artificial cumpra o papel estratégico que lhe é atribuído, impulsionar eficiência, reduzir emissões e fortalecer a resiliência do sistema, será indispensável avançar em modelos de gestão mais integrados, transparentes e preparados para lidar com a complexidade do novo cenário energético.



