MME atualiza metodologia do CVaR e reforça transparência na formação de preços do setor elétrico

Nota técnica aprovada pelo CMSE revisa calibração do indicador de risco e busca maior aderência da modelagem à dinâmica real da operação do SIN

O Ministério de Minas e Energia (MME) deu mais um passo relevante no aprimoramento dos instrumentos de planejamento e operação do setor elétrico brasileiro com a divulgação da Nota Técnica Conjunta que atualiza a metodologia de calibração dos parâmetros do CVaR (Conditional Value at Risk). O documento, publicado em 22 de dezembro de 2025, foi elaborado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), e consolida uma revisão considerada estratégica para aumentar a transparência, a previsibilidade e a coerência dos modelos utilizados pelo setor.

A atualização metodológica foi aprovada na 313ª Reunião Ordinária do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), realizada em 3 de dezembro de 2025, e atende ao que estabelece o artigo 1º da Resolução CNPE nº 01/2024. O objetivo central da medida é alinhar de forma mais consistente os dados de entrada, parâmetros, metodologias e modelos computacionais empregados nas atividades de planejamento da expansão, definição e cálculo da garantia física, planejamento e programação da operação e formação de preços de curto prazo no mercado de energia elétrica.

O papel do CVaR na gestão de risco do setor elétrico

O CVaR é um dos principais instrumentos utilizados para representar o grau de aversão ao risco hidrológico nos modelos computacionais do setor elétrico. Sua calibração influencia diretamente decisões sobre despacho de usinas térmicas, níveis de armazenamento dos reservatórios e, consequentemente, o comportamento do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). Por isso, ajustes nessa metodologia têm impacto estrutural sobre a sinalização econômica do setor, o equilíbrio entre segurança energética e modicidade tarifária e a previsibilidade regulatória.

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Ao longo dos últimos ciclos, agentes do mercado vinham apontando a necessidade de maior clareza sobre os critérios utilizados na definição da tolerância ao atendimento da Curva de Referência de Armazenamento (CRef) e sobre o tratamento dado aos excessos de geração térmica. Esses pontos ganharam destaque durante o processo de discussão conduzido pelo poder público.

Contribuições da Consulta Pública e mudanças estruturais

A proposta de revisão da metodologia incorporou contribuições recebidas na Consulta Pública nº 186/2025, referente ao Rito Extraordinário do ciclo 2025–2026. Entre os principais pleitos apresentados pelos agentes estiveram a ampliação da transparência e da previsibilidade na definição da tolerância de atendimento à CRef, além da necessidade de considerar, de forma explícita, não apenas os déficits, mas também os excessos de geração térmica (GT) nos estudos.

Em resposta a essas contribuições, a nova metodologia elimina a exigência de definição prévia de um nível de tolerância para atendimento à Curva de Referência de Armazenamento. Com isso, deixa de ser necessária a seleção de pares de CVaR condicionados a esse critério, reduzindo arbitrariedades e simplificando o processo de calibração.

Encadeamento mensal e maior aderência à operação real

Outro avanço relevante introduzido pela atualização metodológica é o encadeamento mês a mês dos estudos. Essa abordagem permite capturar de forma mais fiel a evolução do armazenamento dos reservatórios e da geração térmica ao longo do tempo, refletindo com maior precisão as decisões efetivamente adotadas no âmbito do CMSE.

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Ao considerar de maneira contínua tanto os excessos quanto os déficits de geração térmica, a metodologia revisada resulta em trajetórias de armazenamento mais próximas da dinâmica real da operação do Sistema Interligado Nacional (SIN). Esse alinhamento reduz distorções entre o planejamento e a operação efetiva, um ponto historicamente sensível para agentes expostos ao mercado de curto prazo.

Avaliação multicritério fortalece o processo decisório

A Nota Técnica também estabelece que todos os pares de CVaR testados passam a ser submetidos a uma avaliação multicritério. Esse processo considera simultaneamente impactos econômicos, tarifários e operativos, fortalecendo a robustez da tomada de decisão e ampliando a base técnica que sustenta as escolhas relacionadas ao nível de aversão ao risco adotado nos modelos oficiais.

A incorporação dessa lógica multicritério responde a uma demanda recorrente do setor por decisões mais transparentes e tecnicamente justificadas, especialmente em um contexto de maior complexidade operacional, expansão das fontes renováveis variáveis e aumento da volatilidade hidrológica.

Aplicação imediata e próximos passos

Com a aprovação pelo CMSE, a nova metodologia já está sendo aplicada na execução da atividade prevista no inciso II do artigo 2º da Resolução CMSE nº 01/2025, que avalia o nível de aversão ao risco dos modelos computacionais do setor elétrico. Os resultados desse processo deverão ser submetidos à consulta pública no primeiro semestre de 2026, ampliando o diálogo com os agentes e reforçando o compromisso institucional com a participação e a transparência.

Como parte desse esforço, está prevista a realização de um workshop em janeiro de 2026, no qual serão apresentadas as alterações e as premissas adotadas na atualização da metodologia de calibração do CVaR. A iniciativa busca detalhar os fundamentos técnicos da revisão e esclarecer eventuais dúvidas dos agentes, contribuindo para maior previsibilidade regulatória.

Impactos para o planejamento e a formação de preços

A atualização da metodologia de calibração do CVaR representa um movimento relevante no fortalecimento da governança do setor elétrico brasileiro. Ao alinhar os modelos computacionais à dinâmica real da operação e ampliar a transparência dos critérios decisórios, o MME e as instituições setoriais reforçam a confiança dos agentes nos instrumentos que orientam o planejamento, o despacho e a formação de preços.

Em um cenário marcado por desafios hidrológicos, transição energética e crescente complexidade operacional, a revisão do CVaR se consolida como um elemento-chave para garantir equilíbrio entre segurança do suprimento, eficiência econômica e estabilidade regulatória no setor elétrico nacional.

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