Rajadas de até 98 km/h derrubaram árvores, apagaram mais de 230 semáforos e deixaram 18% da capital no escuro; prefeitura cobra Enel e promete acionar Aneel e Justiça
A Grande São Paulo enfrenta nesta quinta-feira (11) um dos maiores apagões dos últimos anos, após a passagem de um ciclone extratropical que provocou ventos próximos de 100 km/h, derrubou centenas de árvores e comprometeu a operação de serviços essenciais. Segundo balanço da Enel Distribuição São Paulo, mais de 1,5 milhão de imóveis seguem sem energia na região metropolitana, sendo 1,03 milhão somente na capital, o equivalente a 18,06% dos consumidores da cidade.
O evento climático extremo, que teve início na tarde de quarta-feira (10), expôs novamente fragilidades históricas da infraestrutura de distribuição na maior metrópole do país, com impactos que se estendem ao trânsito, ao abastecimento de água, à operação de equipamentos públicos e à mobilidade urbana.
Ventos de quase 100 km/h causam danos severos à rede
De acordo com o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE), as rajadas chegaram a 98,1 km/h na Lapa, zona Oeste de São Paulo. A combinação de ventos fortes e queda de galhos sobre cabos resultou em interrupções em larga escala, uma dinâmica semelhante à registrada em novembro de 2023, quando outro vendaval deixou mais de 2 milhões de consumidores sem luz.
A concessionária atribui o apagão à queda de árvores, ao lançamento de objetos sobre a fiação e à destruição de trechos inteiros da rede. A Enel afirma que “trechos inteiros da rede foram danificados, devido ao vendaval que derrubou árvores e lançou galhos e outros objetos sobre a rede elétrica, o que impactou diretamente o fornecimento de energia em diversos pontos.”
A recorrência de episódios desse porte aumenta a pressão sobre o modelo de manutenção, poda preventiva e modernização da rede aérea, temas centrais em debates recentes no setor elétrico, especialmente em áreas densamente urbanizadas.
Colapso do trânsito e impacto em serviços essenciais
Com a falta de energia, 235 semáforos ficaram apagados, contribuindo para que a lentidão alcançasse 203 km de congestionamento logo às 7h da manhã, segundo a CET.
O abastecimento de água também foi afetado em diversos bairros, consequência indireta do desligamento de estações elevatórias e sistemas de bombeamento. A prefeitura ordenou o fechamento de todos os parques municipais, incluindo o Ibirapuera, por risco de queda de árvores e galhos.
A cidade registrou 231 árvores caídas, sem contar os impactos na região metropolitana. Em todo o estado, o Corpo de Bombeiros atendeu 1.642 chamados para quedas de árvores desde a quarta-feira, volume classificado como “muito acima da média diária”.
Municípios mais afetados
De acordo com o mapa de fornecimento atualizado da Enel na manhã de hoje, o maior volume de clientes sem energia concentra-se na capital, com 1.018.162 unidades consumidoras afetadas em São Paulo.
Em seguida, destacam-se os municípios de Santo André, com 69.550 clientes no escuro, Osasco, com 35.714, e Embu, que contabiliza 31.552 clientes. Carapicuíba (26.616) e Diadema (26.038) também figuram entre as cidades com maior número de interrupções no fornecimento.
Ao todo, 1,508 milhão de clientes permanecem sem energia, o que representa 17,74% da base atendida pela distribuidora na região.
A Enel explica sua atuação e mobilização das equipes
A Enel afirma que iniciou a mobilização antes da chegada do ciclone. Segundo a companhia, “foram mobilizados, antecipadamente, mais de 1.500 equipes ao longo de quarta-feira (10) para operar no restabelecimento dos 2 milhões de clientes com o fornecimento elétrico afetado.”
A empresa também informa que “desde ontem (10) até a manhã desta quinta-feira (11), cerca de 500 mil clientes afetados tiveram a energia religada”, além de destacar o uso de geradores para ocorrências mais graves.
Apesar da mobilização, o volume de interrupções e a velocidade da recuperação devem ser alvo de investigação e questionamentos regulatórios, especialmente diante da reincidência de grandes apagões em eventos climáticos extremos.
Prefeitura aciona Aneel e Justiça para cobrar responsabilização
A situação levou o prefeito Ricardo Nunes (MDB) a anunciar que acionará a Aneel e a Justiça para avaliar o cumprimento contratual por parte da Enel. A prefeitura mantém equipes em campo, mas informa que ainda aguarda desligamento seguro da rede em 40 pontos para liberar a retirada de árvores.
O gabinete de crise municipal montado desde segunda-feira (8) segue ativo devido ao alerta da Defesa Civil sobre chuvas volumosas, ventos intensos e risco de raios e granizo.
Intensificação de eventos extremos amplia desafios da distribuição
O episódio reforça a necessidade de adaptação da infraestrutura elétrica às novas condições climáticas. A frequência de tempestades severas, microexplosões, vendavais e ciclones extratropicais tem aumentado, exigindo maior resiliência da rede, seja por meio de redes subterrâneas, poda preventiva sistemática, automatização de religadores ou maior separação entre vegetação e fiação.
A ocorrência de hoje reacende o debate sobre planos de contingência das distribuidoras, prazos de restabelecimento, critérios regulatórios de continuidade (DEC e FEC) e responsabilização em casos de apagões massivos.



