Certame define soluções híbridas com térmicas e fotovoltaicas no Amazonas e no Pará, com deságios expressivos e foco em segurança energética fora do SIN
A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) homologou, nesta segunda-feira (9), o resultado do Leilão nº 1/2025, voltado à contratação de energia e potência para abastecimento dos Sistemas Isolados, regiões do país que ainda não estão conectadas ao Sistema Interligado Nacional (SIN). O certame, realizado em 26 de setembro pela plataforma da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), definiu a contratação de 50 megawatts (MW) para fornecimento a localidades nos estados do Amazonas e Pará, reforçando a política pública de suprimento a mercados remotos e de alta vulnerabilidade elétrica.
A decisão foi aprovada durante Reunião Pública Ordinária após a Comissão Permanente de Leilões (CPL) analisar a documentação das proponentes classificadas e recomendar a homologação. Segundo a ANEEL, as vencedoras do certame atenderam todas as exigências de habilitação e estão aptas a iniciar a implantação das soluções contratadas.
Avanço regulatório para sistemas isolados: suprimento, confiabilidade e novos arranjos híbridos
Os Sistemas Isolados representam um dos maiores desafios estruturais da política energética brasileira: regiões distantes, sem conexão com o SIN, com elevada dependência de térmicas a óleo diesel e custos significativamente superiores à média nacional. Os leilões destinados a esse mercado buscam ampliar a confiabilidade, reduzir despesas com combustível e introduzir fontes renováveis e sistemas de armazenamento que diminuam emissões e dependência logística.
A homologação do Leilão nº 1/2025 marca um avanço importante nessa direção. As contratações contemplam soluções híbridas, térmicas e fotovoltaicas, associadas a baterias, alinhadas à tendência de modernização do suprimento em localidades remotas.
Os empreendimentos deverão entrar em operação até 20 de dezembro de 2027, prazo que contempla construção, logística, licenciamento, integração das usinas e comissionamento.
Lote 1: solução híbrida com FV, óleo diesel e armazenamento
O Lote 1 prevê uma solução de suprimento composta por geração térmica a óleo diesel, geração fotovoltaica e sistema de armazenamento com 0,6 MW de capacidade.
Com potência total de 20,165 MW, o lote foi arrematado pelo preço de R$ 2.729,70/MWh, representando deságio de 22,01% em relação ao valor de referência. Esse deságio indica competitividade na formação de preço mesmo em um ambiente de custos elevados de logística, combustíveis e instalação.
A inserção de geração solar e bateria reduz a necessidade de acionamento contínuo das térmicas, mitigando emissões e aumentando a autonomia energética das localidades atendidas.
Lote 3: solução híbrida de maior porte e maior deságio
O Lote 3 segue conceito semelhante, mas com porte superior: uma solução híbrida combinando térmicas a óleo diesel, fotovoltaicas e armazenamento de 30 MW. A potência contratada é de 30,100 MW, totalizando mais de 60% do volume contratado no leilão.
O preço final foi de R$ 1.593,16/MWh, equivalente a um deságio expressivo de 46,89%. O desempenho demonstra forte competitividade entre as proponentes e indica um movimento de maior maturidade no desenvolvimento de arranjos híbridos para sistemas isolados, especialmente diante da crescente disponibilidade de tecnologias solares e de armazenamento.
Leilões para Sistemas Isolados: importância estratégica e tendência de modernização
Historicamente, os sistemas isolados foram atendidos por térmicas movidas a óleo diesel com custos elevados e forte sensibilidade à variação cambial e logística. A modernização desses sistemas é objeto de política pública contínua, envolvendo ANEEL, MME, CCEE e distribuidoras locais.
O Leilão nº 1/2025 reforça três tendências já previstas no Planejamento da Operação e no PDE:
- Ampliação de fontes híbridas: combinação de térmica com renováveis, reduzindo custos variáveis;
- Introdução de armazenamento: essencial para amenizar a intermitência da solar e diminuir uso de diesel;
- Concorrência por preço: evidenciada pelos deságios, mesmo em regiões de alta complexidade logística.
Ao longo da última década, a política de suprimento aos sistemas isolados tem buscado reduzir o custo total (TUST/TUSD, CVU e encargos do ESS) e oferecer maior previsibilidade regulatória. A homologação reforça esse percurso.
Impacto regional: energia mais estável em comunidades afastadas
Amazonas e Pará concentram grande parte dos municípios não conectados ao SIN. Essas localidades dependem de infraestrutura energética mais robusta para sustentar serviços essenciais, saúde, educação, segurança pública, e fomentar cadeias produtivas regionais, especialmente pesca, agricultura familiar, comércio e turismo.
Com a contratação agora validada pela ANEEL, espera-se que o suprimento híbrido reduza a frequência de interrupções, diminua o consumo de diesel e amplie a capacidade local de atendimento, além de promover maior estabilidade tarifária no médio prazo.
Próximos passos: contratos, implantação e acompanhamento regulatório
Com a homologação, os contratos serão formalizados entre CCEE, vencedoras e distribuidoras locais, que atuarão como responsáveis pelo suprimento às comunidades atendidas. A ANEEL acompanhará os cronogramas por meio de monitoramento contínuo, avaliando marcos de implantação, entrada em operação e performance das soluções híbridas.
O prazo até dezembro de 2027 permitirá que os empreendedores desenvolvam engenharia, obtenham licenciamento, consolidem fornecedores e articulem a logística necessária para instalação de equipamentos em regiões remotas, uma das etapas mais críticas dos sistemas isolados.



