Brasil reforça integração energética no Cone Sul e mantém fluxo de 120 MW médios do Paraguai em meio a novos desafios regionais

MME enfatiza que segurança energética é condição central para ampliação dos acordos; Chile, Paraguai, Argentina e Uruguai apontam limitações estruturais, regulatórias e operacionais para maior intercâmbio

O Ministério de Minas e Energia (MME) ampliou o debate sobre o futuro da integração elétrica no Cone Sul durante o segundo dia do EAML 2025, organizado pela Informa Markets em parceria com a Associação Brasileira de Comercializadores de Energia (ABRACEEL). O governo brasileiro confirmou a manutenção do recebimento de 120 MW médios do Paraguai, conforme os acordos bilaterais em vigor, e destacou que qualquer expansão no intercâmbio energético deve começar pela garantia de segurança do sistema.

As discussões reforçaram a avaliação de que a América do Sul possui potencial significativo para intensificar trocas de energia, mas ainda enfrenta entraves relacionados a infraestrutura, governança e assimetrias regulatórias entre os países. Participaram do painel representantes do Chile, Paraguai, Argentina e Uruguai, que apresentaram diagnósticos específicos sobre limitações e caminhos para o avanço da integração regional.

MME: integração depende de confiabilidade absoluta das interconexões

Abrindo o debate, Cristiano Augusto Trein, Diretor do Departamento de Políticas para o Mercado do MME, enfatizou que o Brasil só avançará em novos acordos de intercâmbio se houver total confiança na estabilidade física e operacional das interligações.

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Segundo ele, a coordenação entre países precisa ser construída sobre bases robustas: “Não há integração se a segurança energética não for rigorosamente respeitada.” Trein ainda reforçou que previsibilidade é condição essencial para pactos duradouros: “Precisamos ter capacidade de trocar energia de maneira confiável; se um suprimento é cortado, perde-se a confiança.”

O MME indicou que, apesar do interesse em aprofundar a integração, o país não abrirá mão da segurança do abastecimento, especialmente diante da crescente exposição do sistema a eventos climáticos extremos e à expansão de renováveis variáveis.

Chile aponta ganhos operacionais, econômicos e ambientais

O painel também trouxe contribuições técnicas do Chile, país que acumula experiências e estudos sobre interconexões regionais. Rodrigo Moreno, Chefe de Ensino do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidad de Chile, apresentou evidências sobre os benefícios da coordenação entre sistemas elétricos.

Segundo Moreno, redes interligadas tendem a melhorar o uso dos recursos energéticos disponíveis de maneira complementar: “Energia mais limpa, menores emissões e operação mais eficiente são resultados que melhoram quando coordenamos os países da região.”

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Ele destacou que o Cone Sul possui um conjunto diversificado de fontes, hidrelétricas de grande porte no Brasil, recursos solares no Chile e Argentina, e eólica em vários países, o que cria oportunidades naturais para intercâmbios mais dinâmicos e economicamente vantajosos.

Paraguai alerta para limite de geração e defende reforço do fluxo com o Brasil

O Paraguai, tradicional parceiro do Brasil em energia, revelou preocupações com o atendimento futuro da demanda doméstica. De acordo com Fábio Lucantonio, Diretor de Recursos Energéticos do Viceministério de Minas y Energía, o país pode atingir o limite de sua capacidade de geração até 2030. “Vamos precisar de nova geração.”

Lucantonio chamou atenção para uma limitação estrutural relevante: a interconexão atual entre os dois países opera apenas em um sentido. “Pode mandar para o Brasil, mas não pode mandar do Brasil para o Paraguai.”

O executivo também ressaltou que ampliar a integração regional é economicamente mais vantajoso do que investir apenas em expansão interna. “O capex da integração é muito menor que o capex da nova geração.”

Para os agentes do setor, o depoimento reforça a urgência de avaliar o reforço das linhas existentes e a possibilidade de novas interligações capazes de operar em ambos os sentidos.

Argentina vê barreiras comerciais limitando oportunidades

Representando a Argentina, Juan Alberto Luchilo, Gerente de Análise e Controle Global da Cammesa, afirmou que, apesar do bom funcionamento das operações semanais e do apoio mútuo em situações de emergência, ainda há obstáculos que reduzem o aproveitamento do intercâmbio. “Existem limitações que impedem a aceitação de ofertas mais baratas.”

Segundo Luchilo, compromissos contratuais de gás, restrições de mercado e condições econômicas internas muitas vezes impedem que o país aceite energia mais competitiva proveniente de vizinhos, reduzindo os ganhos operacionais e financeiros das trocas.

Uruguai propõe ajustes regulatórios e uso ampliado das complementaridades

O Uruguai, por sua vez, defendeu mudanças regulatórias para nivelar o tratamento dado à energia importada. Para Andrés Osta, Diretor da Divisão de Assuntos Regulatórios do Ministério da Indústria, Energia e Mineração, o avanço da integração exige simetria competitiva. “Uma integração plena deveria considerar ofertas de importação da mesma forma que geradores internos.”

Osta também destacou que o país vê oportunidade para o uso estratégico da flexibilidade hidrelétrica brasileira em momentos de preços baixos no Cone Sul, criando benefícios operacionais para toda a região.

Três pilares para o avanço da integração no Cone Sul

Ao reunir as perspectivas de governo e agentes técnicos, o encontro destacou três condições fundamentais para que a integração energética regional avance de forma estruturada:

  1. Infraestrutura de transmissão confiável, capaz de suportar fluxos bidirecionais e volumes maiores de intercâmbio.
  2. Regras comerciais que permitam competitividade real, facilitando a aceitação de ofertas mais vantajosas entre países.
  3. Estabilidade regulatória e jurídica, indispensável para sustentar acordos bilaterais de longo prazo e atrair investimentos.

O debate reforçou que, embora haja desafios técnicos e institucionais, o Brasil e os países do Cone Sul enxergam a integração elétrica como vetor estratégico para eficiência, segurança e transição energética.

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