Relatório internacional mostra eficiência dos mercados de curto prazo, mas expõe fragilidades críticas nos mecanismos de longo prazo, essenciais à transição energética
A Agência Internacional de Energia (AIE) publicou uma análise detalhada sobre o funcionamento dos mercados de eletricidade em diferentes regiões do mundo e reforçou que os modelos atuais precisam evoluir para atender às novas exigências dos sistemas elétricos. O estudo aponta que a transformação em curso, marcada por maior participação de renováveis, expansão da digitalização, diversificação de tecnologias e aumento da demanda, exige mecanismos mais robustos de coordenação, investimento e gestão de risco.
Segundo a AIE, mercados de eletricidade bem estruturados são fundamentais para garantir segurança energética, preços competitivos e sustentabilidade. No entanto, embora o desempenho dos mercados de curto prazo seja considerado sólido, os mecanismos de longo prazo apresentam sinais de fragilidade que podem comprometer a expansão necessária para sustentar a transição energética global.
Mercados de curto prazo mantêm alto desempenho mesmo com sistemas mais complexos
De acordo com a AIE, os mercados de curto prazo têm se mostrado eficientes no equilíbrio entre oferta e demanda, na coordenação das decisões operacionais e na formação transparente de preços. Nos últimos cinco anos, o fornecimento de energia foi garantido em mais de 99,9% do tempo nas regiões avaliadas, um indicador que reflete a robustez desses modelos.
A análise destaca que esses mercados já operam com uma complexidade significativamente maior do que há uma década. Um exemplo citado é o sistema europeu, onde o mercado de curto prazo processa mais de 400 mil ofertas por hora, envolvendo milhares de agentes e recursos energéticos diversos.
Apesar do bom desempenho, a AIE reforça que o avanço da geração distribuída, a maior volatilidade da produção renovável e a crescente participação de novos modelos de resposta da demanda exigirão ajustes contínuos para preservar a eficiência operacional.
Mercados de longo prazo enfrentam baixa liquidez e não oferecem proteção adequada aos agentes
Enquanto o curto prazo se mantém eficiente, os mercados de longo prazo apresentam lacunas importantes. A AIE aponta que a baixa liquidez compromete a eficácia dos contratos destinados a mitigar riscos, dificultando que consumidores e geradores se protejam da volatilidade de preços.
A maior parte das negociações nos mercados a termo ocorre com no máximo dois anos de antecedência. Esse horizonte é insuficiente para viabilizar investimentos em projetos que exigem maturação de 10 a 30 anos, como usinas renováveis de grande porte, expansão de linhas de transmissão, sistemas de armazenamento ou infraestrutura flexível.
Na prática, a falta de sinalização consistente de longo prazo aumenta o custo de capital, reduz previsibilidade e pode atrasar a expansão necessária para sustentar a segurança energética e os compromissos de descarbonização.
Mecanismos complementares ganham peso, mas precisam de aprimoramentos
A AIE observa que mecanismos adicionais se tornaram essenciais para suprir as lacunas deixadas pelos mercados de longo prazo. Entre esses instrumentos estão:
- regimes de remuneração por capacidade,
- programas de incentivo às energias renováveis,
- mecanismos de suporte à adequação de recursos,
- estruturas que garantem a operação de ativos flexíveis e despacháveis.
Para a agência, esses mecanismos foram fundamentais para promover investimentos alinhados às metas climáticas e para manter usinas despacháveis que, apesar de operarem com menor frequência devido ao avanço das renováveis variáveis, continuam essenciais para a segurança do sistema.
No entanto, o relatório ressalta que o desenho inadequado de alguns desses instrumentos gerou ineficiências e aumento de custos em determinadas regiões. A recomendação é que reformas sejam conduzidas com base em análises técnicas, previsibilidade regulatória e avaliação criteriosa dos impactos tarifários.
Transição energética exige visão holística e reformas estruturais dos mercados
Para a AIE, a modernização dos mercados de eletricidade deve seguir uma abordagem integrada, capaz de preservar os ganhos já obtidos no curto prazo e corrigir falhas do longo prazo. O objetivo central é assegurar que os mercados continuem desempenhando seu papel como instrumento eficiente de coordenação, operação e atração de investimentos.
A agência conclui que processos de reforma devem ser transparentes, previsíveis e centrados no equilíbrio entre segurança energética, competitividade e sustentabilidade. Somente dessa forma os mercados poderão acomodar a transição energética em um ambiente de crescente complexidade tecnológica e operacional.



