Estudo da consultoria estima crescimento de até 4% no consumo de gás de cozinha e destaca desafios logísticos e de investimento para distribuidoras diante da ampliação do acesso energético no país
O programa Gás do Povo, lançado oficialmente pelo Governo Federal em 4 de setembro, pode marcar uma nova fase para o setor de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) no Brasil. Segundo estudo inédito da Kearney, uma das principais consultorias globais de gestão estratégica, a política pública tem potencial para impulsionar o mercado de botijões em até 4% e demandar investimentos de aproximadamente R$ 1,3 bilhão das distribuidoras, num cenário de rápida expansão do consumo.
O levantamento da Kearney indica que o programa, que prevê subsídio integral da compra de gás de cozinha para cerca de 15,5 milhões de famílias, poderá gerar 65 milhões de botijões adicionais por ano, reforçando o papel social e energético do GLP. Desse total, entre 9 e 17 milhões de botijões representarão consumo adicional, já que parte dos beneficiários do Bolsa Família já adquire o gás com recursos próprios.
“O impacto é expressivo para um setor que praticamente não cresceu nos últimos dez anos”, afirma André Volker, sócio da Kearney responsável pelo estudo. “O volume vendido em 2024 foi praticamente o mesmo de 2014. Esse novo impulso pode representar uma virada importante.”
Expansão do mercado e novos investimentos
De acordo com a Kearney, a implementação do Gás do Povo exigirá uma mobilização sem precedentes por parte das distribuidoras. Considerando que cada botijão circula cerca de três vezes ao ano, o mercado precisará disponibilizar entre 3 e 6 milhões de novos vasilhames para atender à nova demanda.
O investimento estimado de até R$ 1,3 bilhão contempla não apenas a aquisição de botijões, mas também a expansão de infraestrutura, logística e sistemas de controle e rastreabilidade, elementos críticos para assegurar eficiência operacional e segurança no abastecimento.
Além dos custos diretos, a cadeia de distribuição enfrentará desafios logísticos e regulatórios. As revendas, que operam de forma terceirizada, serão remuneradas com base em valores definidos pelo governo. Caso esses valores sejam muito baixos, o equilíbrio econômico da operação poderá ser comprometido, afetando a capilaridade e sustentabilidade do programa.
Energia limpa e inclusão social
A Kearney também destaca que o Gás do Povo tem relevância estratégica não apenas econômica, mas também social e ambiental. A iniciativa poderá acelerar a substituição do uso de lenha por gás de cozinha nas famílias de baixa renda, uma mudança com impactos diretos na saúde pública, na segurança domiciliar e na sustentabilidade ambiental.
Hoje, 91% dos lares brasileiros utilizam gás de cozinha, sendo que 74% usam exclusivamente GLP. A expectativa é que, com o subsídio integral, o número de famílias que dependem de lenha para cozinhar caia significativamente, contribuindo para a redução de emissões e para o cumprimento de metas climáticas.
O Brasil já é considerado referência mundial em segurança e cobertura na distribuição de GLP, com uma das malhas de distribuição mais amplas do planeta. A nova política pode reforçar essa posição, ao mesmo tempo em que amplia o acesso energético em regiões remotas e vulneráveis.
Orçamento em expansão e efeitos econômicos
O estudo da Kearney projeta um aumento expressivo do orçamento federal destinado ao subsídio do gás de cozinha: dos atuais R$ 3,4 bilhões para R$ 5,1 bilhões em 2026, podendo alcançar R$ 7 bilhões em 2027, conforme a expansão do programa.
Parte desse impacto fiscal, no entanto, deverá ser compensado por efeitos indiretos positivos. Como muitas famílias beneficiadas já compram gás atualmente, o subsídio permitirá realocação de renda para outras despesas essenciais, como alimentação, transporte e educação, ampliando o efeito multiplicador sobre a economia local.
O programa também pode impulsionar a geração de empregos na cadeia de valor do GLP, especialmente em segmentos de transporte, revenda e manutenção de vasilhames, além de estimular investimentos privados em infraestrutura energética.
Novo ciclo para o setor de GLP
Com crescimento estagnado há mais de uma década, o setor de GLP enxerga no Gás do Povo uma oportunidade de retomada de dinamismo e inovação. Especialistas apontam que o programa pode desencadear movimentos de modernização, com adoção de novas tecnologias de rastreamento, digitalização das revendas e mecanismos de controle de qualidade mais avançados.
Para a Kearney, o sucesso do programa dependerá de coordenação entre governo, reguladores e agentes privados, especialmente na definição de margens de remuneração sustentáveis e no fortalecimento da logística em áreas rurais e periféricas.
“Esse novo impulso pode representar não apenas um aumento de consumo, mas uma transformação estrutural no setor de GLP brasileiro”, conclui Volker.



