Com potencial solar superior ao europeu e um agronegócio consolidado, o País reúne condições ideais para liderar a adoção de sistemas agrivoltaicos, modelo que integra geração fotovoltaica e cultivo agrícola, ampliando a eficiência produtiva no campo.
O Brasil está prestes a se tornar protagonista em uma das fronteiras mais promissoras da transição energética global: os sistemas agrivoltaicos, que combinam geração de energia solar com produção agrícola no mesmo espaço físico.
O tema ganhou destaque nesta quarta-feira (29), durante o Intersolar Summit Brasil Sul 2025, em Porto Alegre, onde especialistas destacaram o papel do agronegócio nacional como vetor de inovação e sustentabilidade.
A proposta é simples na teoria, mas poderosa na prática: instalar painéis fotovoltaicos sobre áreas agrícolas, permitindo que o mesmo terreno produza alimentos e eletricidade limpa. Essa sinergia não apenas otimiza o uso da terra, como também melhora o microclima, reduz perdas hídricas e aumenta a produtividade de culturas sensíveis à alta exposição solar.
Potencial solar brasileiro é 24 vezes maior que o da Alemanha
Entre os destaques do painel, a gerente de Novos Negócios da SunR Reciclagem Fotovoltaica, Laís Cassanta Vidotto, apresentou comparativos que colocam o Brasil em vantagem estratégica.
“O Brasil é 24 vezes territorialmente maior que a Alemanha e tem um potencial global de irradiação horizontal de 2.100kWh/m²/ano, enquanto eles têm apenas a metade desse potencial”, ressaltou.
Segundo Vidotto, o país tem condições ideais para escalar o modelo, não apenas pelos fatores climáticos, mas também pelos impactos socioeconômicos positivos que pode gerar.
“O ganho não é só econômico. Pode promover fixação de população em área rural, mais resiliência para uma determinada comunidade e impactar positivamente o ambiente local”, completou.
A Alemanha é referência mundial no uso de sistemas agrivoltaicos, com resultados consistentes na produção de energia renovável associada à agricultura de precisão, mas o Brasil tem uma vantagem competitiva inegável: ampla disponibilidade de terras agrícolas e incidência solar privilegiada.
Desafios: custos, capacitação e falta de regulação
Apesar do potencial, especialistas alertam que ainda há entraves regulatórios e financeiros que limitam a expansão do modelo no país. Vidotto enfatiza que a ausência de diretrizes nacionais específicas, somada aos altos custos de investimento e manutenção, representa um obstáculo significativo, especialmente para pequenos produtores.
“O baixo poder de investimento dos pequenos produtores rurais, aliado ao nível de instrução no campo, é um desafio. Faltam normas específicas, além de profissionais especializados com conhecimento técnico na área para auxiliar com dados sobre cultura agrícola e de animais”, observou.
Atualmente, não existe um marco regulatório dedicado aos sistemas agrivoltaicos no Brasil. O setor depende de regulamentações voltadas à geração distribuída e de programas isolados de pesquisa e desenvolvimento, o que limita a previsibilidade e o acesso a financiamento.
Tecnologia que gera alimento e energia
O professor Ricardo Rüther, diretor do Laboratório de Energia Solar Fotovoltaica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), reforçou que a sinergia entre agricultura e energia solar é um caminho natural para o desenvolvimento sustentável do campo.
“Os painéis solares vieram para ajudar o agricultor. E não para competir com o espaço que seria de um pé de alface, por exemplo. O alface necessita de 5 a 6 horas diárias de sol. Em alguns locais, a incidência solar chega a 11 horas diárias, e as placas auxiliam no manejo correto da iluminação no campo. Não adianta nada ter energia e estar de barriga vazia”, exemplificou.
Hoje, já é possível encontrar sistemas solares alimentando bombas de irrigação, estufas inteligentes, cercas elétricas e refrigeração de alimentos, mostrando que o potencial de integração vai muito além da simples geração elétrica.
Ao proporcionar proteção térmica, otimização hídrica e estabilidade de rendimento, o sistema agrivoltaico torna-se especialmente relevante para culturas como hortaliças, frutas e pastagens, setores estratégicos para a segurança alimentar nacional.
Agrivoltaicos como vetor da transição energética brasileira
A expansão dessa tecnologia representa uma oportunidade singular para o Brasil conciliar metas de descarbonização, desenvolvimento rural e segurança alimentar. Com a crescente pressão internacional por cadeias produtivas sustentáveis e o fortalecimento da pauta ESG, o agronegócio brasileiro pode se reposicionar globalmente como protagonista da transição energética verde.
A adoção de políticas públicas específicas, incentivos de crédito e programas de capacitação técnica serão determinantes para transformar o potencial teórico em realidade prática. Se bem estruturada, a estratégia pode atrair investimentos, gerar empregos e consolidar o país como líder mundial em energia solar aplicada à agricultura.
Oportunidade de ouro para o campo brasileiro
O modelo agrivoltaico sintetiza o futuro da energia e da agricultura: um futuro onde cada hectare pode ser mais produtivo, sustentável e inteligente. Se o Brasil conseguir alinhar tecnologia, regulação e financiamento, o país não apenas ampliará sua geração de energia limpa, como também revolucionará o campo, tornando-o mais resiliente e competitivo em escala global.



