Hidrelétrica de 11 MW volta à geração comercial sob rigoroso crivo regulatório após falhas
A Usina Hidrelétrica Rasgão (UHE Rasgão), em Pirapora do Bom Jesus (SP), retomou oficialmente sua operação comercial em 28 de outubro de 2025, sob autorização da Aneel. Longe de ser apenas o retorno de 11 MW à rede, este evento simboliza um marco técnico-regulatório: ele reforça a exigência de que a modernização de ativos antigos deve, obrigatoriamente, integrar o rigor da segurança digital em um setor crescentemente interconectado.
Após meses de paralisação motivada por falhas técnicas e de segurança, a volta da UHE Rasgão, sob gestão da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), reforça a importância da geração hídrica despachável para a estabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN), especialmente na região de maior demanda do país. O caso, porém, levanta questões essenciais sobre o custo da não-conformidade e o futuro da gestão de infraestruturas críticas.
O Alerta Regulatório e o Papel da Fiscalização Técnica
A paralisação da UHE Rasgão, iniciada em março de 2024, esteve relacionada a intervenções de modernização mecânica em suas turbinas e sistemas auxiliares. A retomada da operação foi adiada devido à identificação de falhas no conjunto turbina-gerador da Unidade Geradora 2 (UG02), que apresentou danos no mancal e na luva de desgaste do eixo, exigindo desmontagem completa e reparos estruturais.
A postura da ANEEL durante o processo foi determinante para garantir a conformidade técnica e a segurança operacional do ativo. Ao suspender e posteriormente reavaliar o restabelecimento da operação comercial, a agência reforçou ao mercado a importância do rigor técnico e da rastreabilidade dos procedimentos de manutenção em empreendimentos de geração hidrelétrica.
O caso Rasgão se consolidou como um exemplo de atuação regulatória baseada em evidências técnicas. Em um contexto de crescente digitalização e automação das usinas, a ANEEL demonstrou que a segurança e a confiabilidade operacional continuam ancoradas em práticas sólidas de engenharia, manutenção preventiva e supervisão contínua. A decisão de anular o despacho que havia restabelecido a operação da UG02, diante de um erro procedimental interno, estabelece um novo parâmetro de diligência e transparência para a gestão de ativos de geração.
A Sinergia Hídrica e Sanitária: O Novo Paradigma da Emae
A reativação da usina coincide com uma reconfiguração societária histórica em São Paulo. Após o processo de privatização que transferiu o controle da Emae para o setor privado (fundo ligado ao empresário Nelson Tanure) em abril de 2024, a empresa sofreu uma nova e estratégica transformação: a aquisição de 70,1% da Emae pela Sabesp em outubro de 2025 por R$ 1,13 bilhão.
Essa transação não é meramente financeira; ela cria uma sinergia inédita no Brasil entre saneamento e geração elétrica sob uma única estrutura corporativa.
O estado de São Paulo se posiciona na vanguarda da gestão integrada de recursos hídricos. Ao unir a gestão da água (crucial para o saneamento) com a gestão da energia (que utiliza a água para geração), a nova estrutura corporativa da Emae e Sabesp abre um caminho estratégico para a economia circular.
A gestão unificada tem o potencial de otimizar o uso da água em sistemas de abastecimento e geração, reduzindo conflitos de uso, viabilizar a cogeração de energia limpa em estações de tratamento e Reduzir perdas operacionais e criar eficiências em infraestruturas compartilhadas.
Essa abordagem reflete uma tendência global de convergência de infraestruturas, essencial para a sustentabilidade e resiliência socioambiental.
Impacto da Retomada para o Sistema Paulista
A volta da UHE Rasgão, apesar de seus 11 MW serem uma capacidade modesta no contexto do SIN, tem impacto significativo para o setor elétrico paulista.
O ganho operacional está na reinserção de uma fonte hídrica, que é despachável e limpa, no sistema de suprimento local. Isto contribui diretamente para:
- Estabilidade e Resiliência Local: Reforça a capacidade de resposta imediata em períodos de pico de consumo, minimizando a pressão sobre a transmissão e distribuição na região metropolitana.
- Redução do Custo Marginal: O uso de geração hídrica limpa reduz a necessidade de despachar termelétricas mais caras e poluentes.
- Alinhamento com a Descarbonização: A reativação suporta as metas estaduais e nacionais de expansão da matriz energética limpa e de baixo carbono.
O caso da UHE Rasgão serve de lembrete sobre a importância da modernização de hidrelétricas de pequeno e médio porte no Brasil. Muitos desses ativos são envelhecidos e exigem investimentos em automação, IoT (Internet das Coisas) e análise preditiva de falhas para manter a eficiência e a disponibilidade.
A Resiliência como Pilar do Futuro
A UHE Rasgão, com sua história centenária e sua recente crise, emerge como um símbolo da resiliência técnica e institucional. A superação das falhas e a exigência de conformidade da Aneel demonstram que o futuro da geração de energia no Brasil passa pela intersecção de três vetores: Modernização Tecnológica, Segurança Cibernética e Governança Integrada.
Para os gestores de São Paulo e para os agentes do setor elétrico nacional, a operação da Rasgão, sob o novo guarda-chuva Emae-Sabesp, será um termômetro para avaliar a eficácia do novo modelo de sinergia entre energia e água, um pilar crucial para o desenvolvimento sustentável e a segurança energética do país.



