Medidas recentes de controle sobre minerais essenciais à transição energética acendem sinal de alerta na Agência Internacional de Energia, que aponta concentração de oferta e possíveis impactos em custos e cronogramas de projetos renováveis
A transição energética global depende de uma base mineral sólida, e cada vez mais geopolítica. Elementos como lítio, níquel, cobre, grafite e terras raras são insumos vitais para tecnologias limpas, incluindo baterias, turbinas eólicas, painéis solares e veículos elétricos. Entretanto, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o recente avanço de políticas de restrição à exportação de minerais críticos em alguns países ameaça ampliar a concentração da oferta e acentuar vulnerabilidades nas cadeias produtivas globais.
O alerta foi feito pela IEA em análise recente, na qual a instituição destaca que o número de medidas de controle à exportação desses minerais quase dobrou desde 2019, alcançando mais de 100 medidas ativas até meados de 2025. A agência observa que tais políticas, embora justificadas em parte por interesses nacionais de segurança e agregação de valor local, podem comprometer a estabilidade de suprimento e elevar os custos de transição energética em todo o mundo.
Dependência crescente e riscos de concentração
De acordo com a IEA, a oferta global de minerais críticos já é altamente concentrada: três países dominam mais de 70% da produção de lítio, dois controlam quase 80% do cobalto e um único país é responsável por mais de 90% do refino de terras raras. Esse grau de dependência representa um risco crescente, especialmente em um contexto de metas aceleradas de descarbonização e de expansão da mobilidade elétrica.
“A concentração excessiva de cadeias de suprimento em poucos países torna o sistema mais vulnerável a choques geopolíticos, restrições comerciais e instabilidades de mercado”, alerta o relatório da IEA. Segundo a agência, um desequilíbrio entre oferta e demanda de minerais estratégicos pode afetar diretamente a viabilidade econômica dos projetos de energia limpa, atrasando cronogramas e pressionando preços.
Impactos diretos na transição energética
As medidas de controle à exportação, especialmente de lítio, cobre e grafite, afetam diretamente setores-chave da transição energética, como armazenamento de energia, veículos elétricos e redes inteligentes. No curto prazo, a agência prevê volatilidade nos preços e incertezas para investidores. No médio e longo prazo, o cenário pode comprometer os esforços globais de eletrificação e descarbonização.
A IEA reforça que o ritmo da transição energética está diretamente ligado à segurança do fornecimento desses minerais, e que “a resiliência das cadeias produtivas será tão estratégica quanto a inovação tecnológica”.
Nesse contexto, a agência sugere que os países diversifiquem fontes de suprimento, ampliem o reaproveitamento de materiais e invistam em reciclagem e circularidade industrial. Para a instituição, economias emergentes como o Brasil têm a oportunidade de desempenhar um papel central nesse processo, devido à abundância de reservas minerais e à crescente integração de políticas de sustentabilidade e rastreabilidade ambiental.
Brasil e América Latina no radar estratégico
A América Latina é destaque no relatório da IEA como região-chave para reduzir a dependência global de poucos fornecedores. Países como Chile, Argentina e Brasil concentram grande parte das reservas mundiais de lítio, cobre e níquel, e já atraem novos investimentos voltados à mineração responsável e à industrialização local.
Para especialistas, o Brasil tem condições de se tornar um polo estratégico de fornecimento sustentável de minerais críticos, desde que avance em infraestrutura logística, regulação ambiental e incentivos à indústria de refino. O fortalecimento da política mineral brasileira, alinhada a compromissos de transparência e rastreabilidade, pode ampliar a relevância do país nas cadeias globais de energia limpa.
A resposta da IEA e os próximos passos
A Agência Internacional de Energia enfatiza que o equilíbrio entre segurança de fornecimento, sustentabilidade e competitividade será determinante para o sucesso da transição energética global. “Com o aumento dos controles à exportação, os riscos de concentração deixaram de ser uma possibilidade para se tornarem uma realidade”, resume a instituição em seu comunicado.
A IEA defende que os governos implementem mecanismos de cooperação internacional, estoques estratégicos e investimentos coordenados em mineração responsável e reciclagem, além de políticas de transparência sobre origens e pegada de carbono dos minerais.
A análise, assinada por Eric Buisson e Teo Lombardo, especialistas em segurança de recursos da IEA, reforça que a corrida pelos minerais críticos já é um pilar central da geopolítica energética do século XXI. A agência planeja divulgar até o final do ano um relatório detalhado com projeções de oferta, demanda e risco por região.
Conclusão: a nova fronteira da segurança energética
O alerta da IEA evidencia que a segurança energética do futuro será mineral. À medida que o mundo avança rumo à neutralidade de carbono, a dependência de um pequeno grupo de fornecedores de minerais estratégicos torna-se um desafio tão relevante quanto o equilíbrio entre geração e consumo de energia.
Para o Brasil, o momento é de oportunidade: com abundância de recursos naturais, expertise em mineração e avanço de políticas ESG, o país pode consolidar-se como um ator de relevância global na economia de baixo carbono, desde que alinhe inovação, transparência e competitividade industrial.



