Com reservatórios em níveis críticos, o país precisa equilibrar segurança energética, custos e sustentabilidade. Especialistas alertam para os riscos de uma matriz ainda altamente dependente dos rios
Nos últimos anos, o Brasil vem enfrentando secas mais intensas e prolongadas, um fenômeno que tem imposto desafios cada vez maiores à operação das usinas hidrelétricas, responsáveis por cerca de 55% da geração elétrica nacional, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Quando o nível dos reservatórios baixa, o problema vai muito além da simples redução da produção de energia. É necessário garantir o fornecimento contínuo, preservar a integridade das estruturas e realizar manutenções preventivas em condições climáticas adversas, uma tarefa que exige planejamento estratégico e investimentos constantes.
Durante períodos de estiagem, a capacidade de geração das turbinas diminui e o sistema precisa compensar a perda de eficiência com o acionamento de termelétricas, o que eleva os custos e aumenta as emissões de carbono.
“O desafio é manter a segurança do sistema sem comprometer a sustentabilidade”
Para o técnico em manutenção mecânica de usinas hidrelétricas Cleliton Lima Dalben, as secas prolongadas revelam a fragilidade de uma matriz elétrica ainda fortemente dependente da água.
“Secas mais longas expõem a vulnerabilidade de uma matriz elétrica altamente dependente dos rios. O desafio é manter a segurança do sistema sem comprometer a sustentabilidade”, explica Dalben.
Segundo o especialista, essa vulnerabilidade se manifesta em diferentes frentes — da redução de geração à maior complexidade das operações de manutenção, que se tornam mais frequentes e caras.
Impactos operacionais: de turbinas a barragens
Os períodos de seca trazem consequências diretas para a infraestrutura e a operação das hidrelétricas. O nível mais baixo da água pode acelerar o assoreamento, aumentar a concentração de sedimentos e provocar desgaste prematuro nas turbinas, comprometendo o desempenho e a vida útil dos equipamentos.
Esses fatores exigem inspeções mais constantes, monitoramento avançado e manutenções preventivas mais rigorosas, sob pena de falhas que podem interromper a geração ou colocar a estrutura em risco.
A segurança das barragens também se torna prioridade. Alterações na pressão hídrica podem gerar tensões estruturais inesperadas, exigindo um acompanhamento técnico minucioso.
“A manutenção preventiva passa a ser ainda mais estratégica, porque qualquer falha em períodos de estiagem pode comprometer não só a produção, mas a segurança da operação”, alerta Dalben.
Custos crescentes e dependência de fontes complementares
Com menos água disponível, muitas usinas hidrelétricas são obrigadas a operar abaixo de sua eficiência ideal, elevando o custo por megawatt gerado. Ao mesmo tempo, o acionamento de termelétricas a gás ou carvão e a importação de energia aumentam as despesas do sistema elétrico, custos que acabam repercutindo na tarifa paga pelo consumidor.
Além do impacto financeiro, o uso intensivo de térmicas contraria metas de descarbonização e amplia as emissões de gases de efeito estufa, colocando pressão sobre as políticas ambientais e energéticas do país.
Caminhos para fortalecer a resiliência do sistema elétrico
Para enfrentar a nova realidade climática, Cleliton Dalben defende um reposicionamento estratégico do setor elétrico brasileiro, baseado em planejamento, inovação tecnológica e diversificação das fontes.
Entre as principais medidas sugeridas, estão:
- Monitoramento inteligente: investir em sensores, automação e inteligência artificial para prever falhas e otimizar a operação em tempo real;
- Diversificação da matriz: ampliar o papel das fontes renováveis complementares, como a energia solar e eólica, menos vulneráveis às variações hidrológicas;
- Planos de contingência: criar protocolos de manutenção e operação específicos para períodos de estiagem prolongada;
- Gestão integrada da água: promover o uso racional e coordenado dos recursos hídricos, conciliando geração de energia, irrigação e abastecimento humano.
Essas medidas, segundo o especialista, são fundamentais para garantir resiliência e segurança energética sem abrir mão da sustentabilidade ambiental.
Equilibrar energia e meio ambiente: o grande desafio do futuro
As secas prolongadas deixaram de ser eventos esporádicos e passaram a representar um risco estrutural para o sistema elétrico brasileiro. Em um contexto global de mudanças climáticas, a gestão eficiente da água e a diversificação das fontes de geração são condições essenciais para a estabilidade energética do país.
O desafio, como destaca Dalben, é equilibrar segurança e sustentabilidade. A busca por eficiência nas hidrelétricas precisa caminhar lado a lado com a transição para modelos energéticos mais limpos e resilientes, capazes de resistir às variações extremas do clima e atender à crescente demanda da sociedade moderna.



