Leilão de Sistemas Isolados na Amazônia deve contratar renováveis no limite mínimo, aponta especialista

Certame de 26 de setembro prevê 18,7 MW de potência, mas regras de precificação ainda favorecem combustíveis fósseis; solução solar com baterias é a alternativa mais viável para reduzir emissões e custos

O Ministério de Minas e Energia (MME) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) realizam no dia 26 de setembro o Leilão dos Sistemas Isolados 2025, que vai contratar 18,7 megawatts (MW) para garantir o fornecimento de energia em localidades remotas do Amazonas e do Pará. O certame, que inicialmente contava com três lotes, passou a contemplar apenas dois após a retirada do Lote II pela Comissão Permanente de Leilões da ANEEL, a pedido do MME.

Com a mudança, o leilão inclui 212 projetos cadastrados, que disputarão a contratação em dois lotes: Lote 1, com 8,8 MW para cinco localidades do Amazonas, e Lote 3, com potência a ser definida para uma localidade no Pará.

Renováveis devem ficar no piso exigido

Especialistas avaliam que a contratação de energia renovável ficará próxima ao limite mínimo de 22%, percentual estabelecido nas diretrizes do edital. Esse índice deve ser comprovado anualmente por cada projeto vencedor, sob risco de penalidades em caso de descumprimento.

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Apesar da obrigatoriedade, a predominância do diesel ainda é uma realidade nos sistemas isolados da Amazônia, respondendo por quase 70% da matriz local. Os projetos a diesel continuam permitidos, desde que utilizem mistura de biodiesel superior a 15%, enquanto usinas a biocombustíveis (biodiesel ou etanol) precisam registrar o combustível renovável como principal.

Precificação favorece combustíveis fósseis

Para Rodrigo Dias, diretor de Gás e Energia da GDE Energia, do Grupo Equador, as regras atuais do leilão ainda criam barreiras para a expansão das renováveis. “Ainda que o governo tenha estabelecido diretrizes para incentivar o uso de renováveis, as regras de precificação acabam favorecendo combustíveis fósseis, como o diesel, que são altamente emissores de gases de efeito estufa e poluentes locais”, afirma.

O especialista acrescenta que essa distorção também afeta os biocombustíveis. “A mesma lógica também se aplica ao biodiesel e ao etanol. Embora emitam menos do que o diesel, os dois combustíveis líquidos ainda são tratados pelo mesmo critério de precificação — contrariando a promessa de descarbonização na Amazônia às vésperas da realização da COP-30, quando o correto seria incentivar soluções como a solar com baterias que, além de mais limpas, são mais baratas para o consumidor quando aplicadas nos sistemas isolados”, completa.

Solar com bateria: oportunidade desperdiçada

Segundo Rodrigo Dias, a fórmula de preço do leilão considera apenas o gasto com combustível das usinas a diesel, sem reconhecer a participação da energia solar em projetos híbridos. “Isso acaba distorcendo a competição: mantém os combustíveis líquidos como a opção mais barata no papel, mesmo sendo a mais poluente, e reduz as chances de avanço da energia solar no certame”, destaca.

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Estudos recentes voltados para a Amazônia Legal indicam que sistemas solares combinados com baterias podem reduzir em cerca de 20% os custos de geração em comparação aos geradores a diesel, especialmente em localidades de difícil acesso, onde o transporte do combustível é caro e arriscado, além de trazer riscos ambientais como vazamentos e contaminação de rios e florestas.

COP30 aumenta pressão por descarbonização

A realização da COP30, em novembro de 2025, em Belém (PA), coloca ainda mais pressão para que o Brasil avance na redução das emissões de gases de efeito estufa e na adoção de energias renováveis. Para especialistas, a meta mínima de 22% de renováveis no leilão, embora seja um passo, está aquém dos compromissos climáticos assumidos pelo país.

Com uma matriz mais limpa e a possibilidade de utilizar soluções solares com armazenamento, o leilão poderia representar um avanço concreto para a descarbonização da Amazônia. No entanto, o desenho atual do certame ainda privilegia alternativas mais baratas apenas no curto prazo, deixando de contabilizar benefícios econômicos e ambientais no longo prazo.

Estrutura dos lotes

Após a retirada do Lote II, a divisão final do leilão é a seguinte:

  • Lote 1 (Amazonas): 8,8 MW, distribuídos em cinco localidades
  • Lote 3 (Pará): potência a ser definida, para uma localidade

Total: 212 projetos cadastrados, com 19 soluções de suprimento no Lote 1 e 32 no Lote 3.

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